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De små gruppene

4. Analyse av fellesskapet i russetiden

4.2. De små gruppene

A última das soluções para o problema dos nomes vazios se dá com o abandono do princípio de realidade. Segundo o princípio, que é a marca do que tenho chamado de ortodoxia, todas as coisas existem. Isto é, não há nada que não seja real. A ortodoxia inclui não somente a tradição de Frege–Russell–Quine, mas também a tradição milliana em geral e a dos amigos lógicas livres. Todos mantêm que pode haver nomes para coisas que não existem ou ao menos descrições que não são satisfeitas por coisa alguma, mas não pode haver em nenhum sentido forte objetos que não existem. O abandono do princípio em favor da concepção de que a extensão dos objetos é maior que a do que existe caracteriza a filosofia de Meinong e de meinongianos como Richard Routley, Terence Parsons, Dale Jacquette, Graham Priest, McGinn e outros.

O princípio de realidade, como o enunciei, tem um caráter metafísico. Ele restringe a categoria dos objetos ao conjunto dos objetos que existem. O princípio expressa uma condição necessária de coisidade e uma condição suficiente de existência. Nesta versão, o princípio era chamado por Routley (1980) de restrição clássica e por Parsons (1980, 1) de “Russellian rut”: “’Russellian’ because it stems principally form Russell, and a ’rut’ because it’s a view in which most of us are so entrenched that it’s hard to see over the edges.” Mas o princípio de realidade é normalmente enunciado em versões equivalentes mais palatáveis para a ortodoxia. Em particular, ele aparece sob duas versões principais, as teses de que somente sentenças sobre o que existe podem ser verdadeiras e de que o verbo “existe” e o adjetivo “existente” não são predicados genuínos, relevantes. Apresentarei a filosofia meinongiana a partir dessas duas faces do princípio.

A tese de que toda proposição verdadeira é sobre o que existe recebeu nomes na literatura. Routley (1980, 21–22) a chamou de pressuposto ontológico: “There is a very widespread assumption, implicit in most modern philosophical theories, (. . . ), namely the Ontological Assumption, (. . . ), according to which no (genuine) statements about what does not exist are true.”; Plantinga (1989, 136) a chamou de princípio ontológico: “there cannot be propositions about what in no sense has being. Call this The Ontological Principle.” Essa primeira versão do princípio de realidade revela o seu fundamento filosófico: a verdade deve manifestar a realidade. É natural pensar que o que dizemos sobre as coisas é verdadeiro se e somente se as descrevemos como elas são. Uma vez aceita uma teoria realista ou não epistêmica da verdade, é difícil pensar fora desse paradigma. Se a verdade de uma sentença precisa estar ancorada em um fato, onde mais ela ancoraria senão em um fato real? A realidade parece ser condição necessária da verdade de uma sentença. É compreensível que o medo do abandono do paradigma seja, pois, o medo do idealismo. De qualquer modo, parece implausível que a postulação de entidades inexistentes em nossa semântica nos ajude a fundamentar uma explicação para o fenômeno dos nomes vazios. Meinong e seus amigos precisam mostrar o contrário.

A segunda versão do princípio de realidade se expressa tradicionalmente no chavão “a existência não é um predicado”. Supostamente, Russell acreditava, seria contraditório admitir que a existência é um predicado genuíno, isto é, um termo geral, uma expressão que verdadeira ou falsa sobre um ou mais termos singulares. Segundo o meinongianismo, a convicção ortodoxa de que a existência não é um predicado, porque seria absurdo que ele tivesse um complemento, é um dos maiores preconceitos da tradição filosófica ocidental. Esse preconceito foi cristalizado pelo menos desde a resposta de Kant ao argumento ontológico de Santo Anselmo, resposta atualizada por Frege e Russell na teoria dos quantificadores. Na versão kantiana, a existência não é uma propriedade pois não adiciona nada ao conceito de uma coisa. Na versão fregeana, a existência não é uma propriedade pois não é um conceito que se aplica a objetos. Na versão russelliana, a existência é um propriedade de funções proposicionais. Dizer que uma função proposicional é verdadeira sempre, nunca ou às vezes: esse é a essência da noção de existência. Pois bem, se “existente” fosse um predicado, como “azul” ou

“insistente”, então haveria coisas que não o satisfazem, coisas que não existem. Nesse caso, seria possível demonstrar a existência de objetos arbitrários a partir de descrições à la argumento ontológico. Mais uma vez, Meinong e seus amigos precisam responder à acusação de contradição em suas teorias. Veremos que há duas acusações assim provindas de Russell.

A resposta meinongiana à motivação que leva ao pressuposto ontológico vai no seguinte sentido. Sentenças verdadeiras manifestam a realidade quando são sobre algo real, naturalmente. Mas não quando são sobre coisas que não existem. Há, como sabemos, vários exemplos de sentenças prima facie verdadeiras que são sobre objetos inexistentes. Como nas outras soluções, o que parece ser o ponto fraco da filosofia mei- nongiana, do ponto de vista de todas as outras, passa a ser sua principal motivação desde dentro de sua perspectiva, uma vez suposto o seu paradigma. Como nos outros casos, a principal força que motiva o meinongianismo são as intuições combinadas dos princípios que a teoria preserva. Se valem os princípios de objetualidade, de singularidade, de denotatividade e de univocidade, então vários exemplos de enunciados singulares ditos vazios não revelam outra coisa senão a queda do princípio de realidade. Aceitos os outros princípios por suas próprias forças, então os exemplos de predicações vazias serão exemplos de predicações sobre objetos inexistentes. É claro, para avaliarmos a força do meinongianismo em relação às outras teorias, devemos levar em conta o custo relativo do abandono de cada princípio dentro de cada teoria. O melhor que podemos fazer aqui é tentar motivar a idéia de que o abandono do princípio de realidade não é custoso absolutamente; mas pelo contrário, um resultado natural que já veio tarde de mais. Desse modo, a tarefa de se argumentar em favor da filosofia meinongiana deve passar pela motivação de cada um dos outros princípios. Por último, deve passar por uma explicação de como é possível abandonar o princípio de realidade de modo consistente e de tal modo que explique convincentemente o fenômeno que nos leva a abandonar esse princípio em primeiro lugar, o fenômeno das sentenças vazias. Desse modo, do ponto de vista dessa filosofia, o medo de que o abandono do princípio conduza a um tipo de idealismo deve se mostrar um raciocínio circular: é somente porque a ortodoxia não foi capaz de conceber e definir o que é um objeto inexistente e objetivo que a idéia

de processar predicações sobre inexistentes como verdadeiras parece conduzir a uma teoria epistêmica, internista ou idealista da verdade. O mesmo valerá para a acusação de contradição na teoria. Desse modo, uma objetivo principal do meinongianismo será mostrar como é possível caracterizar a noção de objeto inexistente, mostrando um critério de identidade e de objetividade para eles, assim como alguma teoria da referência que explique o que é falar sobre eles.