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Somente com as revoluções da lógica modal e em filosofia da linguagem nas décadas de 1960 e 1970 que a obra de Meinong passou a receber maior atenção interessada. Em 1967 Findlay publica Meinong’s theory of object and values, livro sobre a filosofia de Meinong e referência para toda literatura meinonguiana. Vemos aparecer os primeiros meinonguianos na década de 1970, notadamente Terence Parsons e Richard Routley, e teorias inspiradas na teoria dos objetos de Meinong, como as de Cochiarella e W. Rappaport. Contudo, ainda hoje, quando há um amplo interesse por questões metafísicas nos países anglófonos, o interesse no velho debate que a tradição travou quase que unilateralmente com Meinong é relativamente pequeno. A filosofia de Meingong é frequentemente citada somente como uma alternativa descartável. Uma publicação recente e importante para a literatura meingongiana é a do livro Towards Non-Being de Graham Priest, de 2005.

Uma das melhores apresentações da teoria dos objetos, como Meinong concebia em 1904, é do próprio Russell.

Now we do not need first to study the knowledge of objects before we study the objects themselves; hence the study of objects is essentially independent of both psychology and theory of knownledge. It may be objected that the study of objects must be coextensive with all knowledge; but we may consider separately the more general properties and kinds of objects, and this is an essential part of philosophy. It is this that Meinong calls Gegenstandstheo- rie.(RUSSELL, 1905b, 530–531)

Tornou-se comum na literatura meinongiana explicar a teoria dos objetos a partir de um conjunto de princípios, que chamarei de postulados. Esses postulados regem os vários sistemas meinongianos. Seguirei esse hábito. Uma vez que não estou particu- larmente preocupado com a concepção original de Meinong, excetuo o princípio que o comprometera com objetos abstratos, meramente subsistentes. Ele não é importante

para nós e não foi adotado pela literatura meinongiana. Baseados na exposição de Jacquette (1996), podemos elencar os seguintes postulados da teoria dos objetos:

Postulado da caracterização: Qualquer pensamento ou enunciado corres- pondente pode ser suposto;

Postulado da intencionalidade: Toda suposição é direcionada a algum objeto; Postulado da independência: Todo objeto tem uma natureza [Sosein] inde- pendente de existir [Sein] ou não existir [Nichtsein];

A primeira tese é a da livre suposição do pensamento, ou postulado da caracterização, como Priest (2005, 83) chama. Ele afirma que qualquer pensamento pode ser suposto. Ou seja, que podemos conceber ativamente qualquer predicação. Uma suposição, desse modo, se opõe a um juízo, pensamento em que um objeto já suposto é predicado. Como exemplo de suposições comuns, Meinong cita os estados de estar contente e o de estar interessado, estados que invariavelmente seriam direcionados a algo. Esse postulado contempla a liberdade do pensamento, garantindo que a tese da intencionalidade não seja limitada por nada. O segundo postulado é o da intencionalidade, herança de Brentano. Segundo a interpretação pretendida pelo enunciado, o postulado expressa que toda suposição é sobre um objeto; não, por exemplo, sobre a idéia que temos dele, como Bolzano sugeria para casos que envolviam objetos inexistentes, ou sobre um conjunto unitário ou vazio, como queria Frege. Desse modo, a tese da intencionalidade, na teoria dos objetos em oposição a sua versão original em Brentano, sintetiza o princípio de objetualidade. Mas como deverá ficar claro, ele também é consistente com os princípios de singularidade e de denotatividade. Mas a analogia ainda é inadequada.

That knowing is impossible without something being known, and more gene- rally, that judgments and ideas or presentations (Vorstelungen) are impossible without being judgments about and presentations of something, is revealed to be self-evident by a quite elementary examination of these experiences. I have been able to show, almost without special investigation, that this is also true in the realm of assumptions (Annahmen) (. . . )

The purpose of the following remarks is, nevertheless, not to explain why I hold this way of looking at the matter to be firmly established, despite the many difficulties confronting it. There are so may cases in which reference, indeed explicit directedness (Gerichtetsein), to that “something,” or (as we say quite naturally) to an object, unquestionably forces itself upon our at- tention that, even if they alone were to be considered, the question would soon be answered for anyone who investigated these matters scientifically. (MEINONG, 1960, 76–77)

Meinongianos todos aderem ao princípio da caracterização. Segundo o princípio de caracterização, em uma versão ingênua, toda descrição de um objeto denota um objeto que satisfaz as propriedades descritas. Routley (1980, 46) explica: “According to the Characterization Postulate objects, whether they exist or not, actually have the properties which are used to characterize them, e.g. where f is a characterizing feature, the item which fs is indeed fs.” Priest (2005, 83) apresenta o postulado em sua versão metafísica mais simples e ingênua do seguinte modo: “ifA

(

x

)

is any property, or conjunction of properties, we can characterize an object, cA, and be guaranteed that A

(

CA

)

. This

is the Characterization Principle (. . . ) in its most naive form.” Ou seja, para qualquer propriedadeP, podemos supor um objetoxque o satisfaça, isto é, tal que

(

P

)(

x

)

. Esse postulado é lido como expressando o critério ingênuo de identidade, de segunda ordem, para objetos da teoria de Meinong: para todo conjunto de propriedades P1, . . . , Pn, há

um e somente um objeto xtal queP1

(

x

)

∧, . . . , ∧P2

(

x

)

. Naturalmente, a quantificação

particular “há um . . . ” não deve conotar existência. Isso nos leva ao terceiro postulado. A famosa tese da independência, que expressa o princípio de realidade — versão contemporânea da tese medieval de que a essência precede a existência — é um consequência imperativa desses dois postulados. Juntos, os dois postulados expressam que qualquer suposição é possível e todas as suposições possíveis são direcionadas a algum objeto. Ou seja, juntos, eles garantem a liberdade e a transcendência do pensamento, como as apresentei. A adoção dos dois primeiros princípios deve ser suficiente para explicar a liberdade e transcendência dos pensamentos, mas juntos

implicam o reconhecimento da categoria dos objetos como sendo logicamente distinta e mais inclusiva que a categoria dos existentes. A teoria dos objetos satisfaz os ideais da teoria tradicional da predicação, objetualidade, singularidade e denotatividade, sem discriminar nomes vazios. Mas para isso reconhece um objeto de referência para cada expressão denotativa (não necessariamente não descritivas) da linguagem. Reconhece a identidade de objetos que não existem. Isso é expresso na tese da independência.

Isso quer dizer, juntos, os dois princípio nos conduzem à tese de que a existência é um predicado não-trivial, com direito a negação. O postulado da independência pode ser expresso simplesmente como a tese da independência da identidade de um objeto em relação a sua existência ou inexistência. Essa tese é uma consequência natural das duas primeiras, que autorizam o pensamento a caracterizar qualquer objeto conforme seu arbítrio. É aqui que a teoria dos objetos ganha vida. Esses três postulados contêm quase toda teoria. Eles garantem, ao menos em uma leitura forte, haver todo tipo de objeto de pensamento: possível e impossível, completo e incompleto, real e irreal, consistente e inconsistente. No entanto, esses objetos são do pensamento no sentido de serem para o pensamento; os objetos de uma suposição não são objetos mentais, exceto quando objetos mentais são supostos, nem são imanentes ao pensamento, exceto quando a suposição é sobre o próprio pensamento.

Meinong mantinha duas demonstrações de Twardowski de que o objeto de um ato intencional é diferente de seu conteúdo (FINDLAY, 1963, 20). A primeira provém de casos em que se contempla objetos inexistentes. Ora, ainda que o objeto intencionado não exista, o conteúdo do ato de pensamento existe invariavelmente; e uma coisa não pode existir e não existir ao mesmo tempo. A segunda provém dos variados exemplos em que se pensa em objetos concretos, e.g. um exemplar do livro de J. N. Findlay ou uma montanha de ouro. O livro em que penso é, por certo, de papel, assim como a montanha de ouro em que penso é de ouro; isso se segue diretamente da hipótese; mas os conteúdos destes pensamentos, por sua vez, não podem ser nem de papel nem de ouro. Nada de papel ou de ouro pode ser imanente ao pensamento. Além disso, o fato de que os objetos intencionais são objetivos e não privados é facilmente atestável no fato

de que podemos todos pensar os mesmos objetos, assim como cada um de nós pode pensá-los mais de uma vez ao longo do tempo. Os objetos da teoria dos objetos não são nem necessariamente reais, nem mentais. Pelo contrário, muitas vezes pensamos em objetos impossíveis, e logo que necessariamente não existem. A principal tese da teoria dos é esta: que há objetos que não existem. Isto é, o conceito de existência abarca tudo o que existe, é verdade; não obstante, ele tem um complemento.

Now it would accord very well with the aforementioned prejudice in favor of existence to hold that we may speak of a Sosein only if a Sein is presupposed. There would, indeed, be little sense in calling a house large or small, a region fertile or infertile, before one knew that the house or the land does exist, has existed, or will exist. However, the very science from which we were able to obtain the largest number of instances counter to this prejudice shows clearly that any such principle is untenable. As we know, the figures with which geometry is concerned do not exist. Nevertheless, their properties, and hence their Sosein, can be established. Doubtless, in the area of what can be known merely a posteriori, a claim as to Sosein will completely unjustifiable if it is not based on knowledge of a Sein; it is equally certain that a Sosein which does not rest on a Sein may often enough be utterly lacking in natural interest. None of this alters the fact that the Sosein of an Object is not affected by its Nichtsein. The fact is sufficiently important to be explicitly formulated as the principle of the independence of Sosein from Sein. (. . . ) Those who like paradoxical expressions, can therefore say: there are objects of which it is true that there are no objects of that kind.(MEINONG, 1960, 82–83)