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Abordando o tema integração de Perspetiva de Género nas operações militares, foram feitas algumas reflexões sobre de que modo o género e a teoria militar se cruzam.

263 (Egnell, Hojem, & Berts, 2012), Implementing a Gender Perspective in Military Organisations and Operations, The Swedish Armed Forces Model, pp. 98

264 Sveningsson e Sörgärde em Implementing a Gender Perspective in Military Organisations and Operations, The Swedish Armed Forces Model, P.99

Para compreender melhor este processo, a secção seguinte descreve uma série de melhores práticas na guerra contemporânea- referidos como “indicadores de eficácia”-

nos níveis estratégico e tático266.

Os que produziram a doutrina e a estudaram, bem como os responsáveis pela estratégia, têm pontos de vista diferentes do conteúdo de tais documentos, mas a leitura da maioria da literatura contemporânea de estudos sobre estratégia, bem como doutrinas militares de diferentes países, na verdade revelam uma homogeneidade surpreendente no campo.

A lista abaixo é portanto, incontroversa, na maioria dos círculos, embora com diferentes intervenientes, tendendo a enfatizar determinados aspetos de formas dissemelhantes. Ou seja, as práticas contemporâneas nos assuntos militares associados com a Perspetiva de Género são diferentes de todas as outras.

A lista que se segue pode considerar-se completa, incindindo sobre os indicadores e fatores mais relevantes para a Perspetiva de Género:

1. Objetivos políticos claros e alcançáveis; 2. Coordenação e cooperação civil-militar;

3. Construção de confiança e apoio entre as populações locais- “ganhar os corações e as mentes”;

4. Compreensão cultural do contexto local.

O ponto de partida para as operações complexas bem-sucedidas é o claro

objetivo político e o propósito de orientar as ações dos atores envolvidos. “Sem um propósito político claro não é possível ter um objetivo estratégico militar. Um objetivo claro cria um ponto de partida comum no planeamento de operações e auxilia na condução dos diferentes atores no sentido de uma meta em comum. Sem a compreensão adequada de todos os aspetos do conflito- tais como intervenientes, o clima político, a cultura local, a situação económica presente, etc.- a dificuldade surge ao estabelecer quais os objetivos que as organizações militares e civis devem prosseguir na busca do objetivo político267.

266 (Egnell, Hojem, & Berts, 2012), Implementing a Gender Perspective in Military Organisations and Operations, The Swedish Armed Forces Model, pp.100

A Perspetiva de Género gera um olhar crítico sobre uma área de operações que envolve a análise e a compreensão das práticas sociais, económicas, políticas, culturais e religiosas, de como a igualdade e desigualdade se manifestam na distribuição e acesso a recursos, bem como no poder do processo de decisão, não só entre ricos e pobres, mas sim em todos as partes da sociedade268.

Esta contribuição pode ser vista como o fornecer de valor acrescentado à análise estratégica e operacional existente no planeamento. No entanto, como mencionado acima, uma Perspetiva de Género também carrega o poder transformador que poderá alterar o modo da tomada de decisão política e a forma de pensar das organizações militares acerca da segurança e como alcançá-la.269

Se o valor acrescentado ou a abordagem organizacional é usado, o conhecimento aprofundado que decorre de uma Perspetiva de Género a este nível tem o potencial de melhorar os processos de análise de conflitos e de planeamento estratégico e operacional.

Como consequência, a Perspetiva de Género é necessária a todos os níveis de comando. Assessor de Género, ou, de preferência a integração do género é portanto, fundamental nos diversos níveis políticos, estratégicos e operacionais de comando, bem como ao nível tático, de forma a fornecer uma compreensão mais completa do conflito e a melhor forma de lidar com a situação que se enfrenta (Civil-Military Cooperation Centre of Excelence (CCOE), 2013).

O segundo princípio a nível estratégico é o da cooperação e coordenação civil- militar. Uma das lições indiscutíveis de operações irregulares passadas é a necessidade de abordagens abrangentes que incluam todos os instrumentos do poder nacional na busca de objetivos políticos. Isto significa planeamento abrangente e inclusivo, bem como a execução do mesmo.

Para tal, é imprescindível analisar, planear e dirigir as operações como um todo, fundindo ações políticas, económicas e militares num esforço concertado de todos os níveis de comando, a partir do nível político-estratégico, através das sedes do teatro de operações até aos níveis subjacentes, da administração e de operações táticas. Esta é

268 (NATO Committee for Gender Perspective, 2011), How can gender make a difference to securit in operations- Indicators

269 (Olsson, et al., 2009), Operational Effectiveness and UN Resolution 1325 – Practices and Lessons from Afghanistan

uma abordagem que poderia beneficiar ainda mais o mainstreaming do género aos diferentes níveis. Seria também uma maneira de lidar com as preocupações da maioria da população, ao tornar as preocupações e experiências das mulheres, bem como dos homens, uma dimensão integral das operações, políticas e programas em todos os setores e linhas de operações270.

Em qualquer caso, as consequências desta abordagem são que uma Perspetiva de Género pode ser incluída no planeamento das operações, que deve ser coordenada com toas as agências de execução e organizações que contribuem para as operações.

A representação de militares femininos em reuniões de organizações militares e civis, também podem ajudar a eliminar algumas das diferenças culturais que têm inibido a boa coordenação entre estas culturas organizacionais distintas. O domínio militar masculino tem sido apontado como um dos traços culturais que criam atrito entre os militares e as organizações humanitárias. Os dois últimos fatores são fortemente influenciados por uma compreensão contemporânea da teoria da contra insurgência como implementado no Iraque e no Afeganistão.

A abordagem dos “corações e as mentes” nas operações destaca a importância

do apoio local e da legitimidade, é o terceiro indicador de eficácia nas operações do mundo atual. Robert Thompson explica este princípio, argumentando que as forças e as agências de conta insurgência devem dar prioridade à derrota da subversão política, não a guerrilhas. Por isso, eles alcançam o sucesso mais significativo, conquistando apoio

popular e legitimidade para o governo local “ganhar os corações e as mentes”, não

matando insurgentes.

Não descurando da importância da segurança, é provável que o sucesso duradouro seja decorrente de uma economia vigorosa bem como da participação política e da esperança restaurada. Na terminologia de Clausewitz271, o centro de gravidade de qualquer operação complexa é o povo. A Perspetiva de Género tem a capacidade e a valência, não apenas de fornecer acesso às maiores parcelas da população local, mas também, e talvez mais importante, de transformar a forma como a população local é analisada e tratada de forma se conseguir obter o seu apoio.

270

(NATO Committee on Gender Perspectives, 2010) 271Clausewitz, na sua obra “Da Guerra”

O indicador final é o da compreensão cultural, também denominada cultural awareness.

Nas operações que requerem o apoio e consentimento da população local com uma sólida compreensão da cultura e da língua, é de extrema importância.

Para não se alienar com a população, cada militar deve possuir a compreensão da demografia, da história e da cultura da população local, bem como os objetivos, as ideologias, as capacidades e as abordagens de todas as organizações e das partes do conflito.

Na era da vigilância global, as ações e opções dos militares podem, e com frequência acontece, ter consequências estratégicas. Assim, a compreensão da cultura local, e deter um conhecimento básico da língua, reduz radicalmente o risco de cometer erros ao nível tático que poderia m comprometer a visão estratégica.

A Perspetiva de Género o que diz respeito à compreensão cultural é de extrema importância para evitar consequências negativas quando entram em contacto com a população local e para maximizar o impacte positivo das operações relacionadas com a comunidade dentro do campo dos assuntos humanitários e de desenvolvimento. Além disso, através do emprego de uma Perspetiva de Género na análise da sociedade, as características problemáticas e subjacentes ao tecido social podem destacar-se e ser tratadas272.

Em suma, a estrutura teórica baseada na teoria militar e a Perspetiva de Género indicam que há um número de diferentes formas em que a perspetiva em questão, tem o potencial de afetar positivamente a eficácia militar, principalmente no que diz respeito a como e com que forças se conduzem as operações.

É claro que o mainstreaming do género é fundamental para a recolha de uma imagem intell subtil273, e com a situação geral de segurança. No nível tático, a Perspetiva de Género agrega valor à intell baseada na comunidade, e a prevenção e resposta à violência sexual baseada no género. Existem também uma série de benefícios potenciais de uma Perspetiva de Género que está menos relacionada com visões tradicionais e de eficácia militar, mas que podem ter um impacte importante sobre as

272 (Olsson, et al., 2009), Operational Effectiveness and UN Resolution 1325 – Practices and Lessons from Afghanistan

operações como um todo- como apoiando a participação das mulheres e no estatuto na sociedade, e construindo as bases para as estruturas de governo e segurança.