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De enkelte innsatsområdene

8.4 Nytte og holdninger

9.1.2 De enkelte innsatsområdene

Diante da busca pela compreensão da ilusão transcendental como uma ilusão da razão que é natural e ao mesmo tempo inevitável, a retomada dos Sonhos nos conduz a considerar que: 1) a ilusão ligada a distúrbios mentais detecta um sintoma do cérebro; 2) a ilusão que deriva de imagens criadas por uma mente fértil e perturbada permite constatar que tais pessoas possuem uma “falha” na formação de imagens, pois elas estão “fora de foco”, não convergem em um ponto de unidade, um ponto de convergência: um focus

imaginarius. Ou seja, quando recuamos aos Sonhos acredita-se que a ilusão é um distúrbio, que tem como característica assumir que imagens, produzidas pela imaginação, são reais.

O ponto de convergência, denominado por Kant de focus imaginarius, nos Sonhos, é um ponto focal de unidade da imagem, responsável pela concatenação de diversas linhas (luzes) que saem do objeto em direção ao fundo do olho ou a um ponto no cérebro; contudo, se este focus imaginarius for projetado em um ponto fora do cérebro, as imagens nele convergidas serão fantasias, pois não há unidade, não há foco para projetar uma imagem clara42.

Agora, não há dúvida de que a Crítica retoma dos Sonhos a metáfora do focus

imaginarius, em outro contexto. De fato, na Crítica, a metáfora possui uma relação com a ideia transcendental (unidade de conceitos), ao passo que nos Sonhos a metáfora diz respeito a uma unidade de imagens. Apesar disso, nas duas obras, o focus imaginarius possui a mesma função: um ponto de convergência, uma projeção, no entanto o contexto é outro: não é empírico, mas transcendental. Mesmo assim, acreditamos que diversas características acerca do focus imaginarius podem ser melhor compreendidas quando entendidas à luz da análise que Kant delas faz nos Sonhos.

Desse modo, poderemos defender não apenas que a ilusão e o focus imaginarius são conceitos interligados nos Sonhos, mas que é precisamente essa relação que servirá como chave para que a Crítica possa, agora no contexto transcendental, avaliar o papel positivo da ilusão transcendental no conhecimento empírico. Por isso, a diferença dos contextos, empírico nos Sonhos, transcendental na Crítica, não deve esconder que se trata de uma mesma função. Ao contrário, ao recuarmos para os Sonhos, podemos ver com mais clareza a função do focus imaginarius na Crítica. É o que acontece no Apêndice da Dialética Transcendental. De fato, aqui, a ideia transcendental também não deixa de ser ilusória; contudo, a ilusão tem aqui uma função positiva, na medida em que é, como nos

Sonhos, projeção de diversas linhas para um ponto de convergência delas.

No caso do Apêndice, esse ponto ilusório tem a função de fazer convergir a diversidade de sínteses do entendimento, em si mesmas dispersas, para um ponto de unidade. Projetado, esse ponto parece dado (ilusão), contudo, serve como foco de projeção em vista do qual a dispersão tem de ser unificada. O incondicionado, aqui, ao mesmo tempo que é ilusório, fornece o foco para que as séries de condições, em si mesmas dispersas, possam ser reduzidas a séries cada vez mais próximas do incondicionado projetado para além delas.

Nos Sonhos Kant descreve, de modo muito preciso, o focus imaginarius como ponto de convergência de raios luminosos que é, assim, uma espécie de ‘ponto ótico’, no qual se imprime a representação de uma imagem:

Aqui se torna bastante provável que nossa alma ponha em sua representação o objeto sentido ali onde convergem, quando prolongadas, as diversas linhas diretrizes da impressão, deixadas pelo objeto. Por isso se vê um ponto brilhante naquele lugar em que se cortam as linhas prolongadas do olho na direção da incidência dos raios luminosos. Este ponto, que se chama ponto ótico, é no efeito certamente o ponto de dispersão, mas na representação ele é o ponto de

convergência das linhas diretrizes, de acordo com as quais a sensação é impressa (focus imaginarius) (TG, AA 02: 344, grifo do autor).

A sensação de um objeto é impressa no ponto de convergência dos raios luminosos que partem de um objeto em direção ao focus imaginarius, assim, há uma imagem, uma representação do objeto no ponto ótico. Isso condiz com a representação de uma imagem clara pela unidade dos raios luminosos em um ponto de convergência. Agora, se esse ponto de convergência estiver localizado fora do ponto ótico não haverá unidade, mas sim uma imagem projetada no campo exterior, como objeto, uma fantasia (TG, AA 02: 344-345).

A criação de fantasias pode ocorrer com qualquer um, mas quem é sadio consegue diferenciar uma imagem real de uma imagem irreal, ao passo que o homem doentio se perde em sua imaginação e não distingue uma fantasia de um objeto real e acredita nesta imagem quimérica, o que caracteriza um distúrbio do ânimo.

Um fantasista cria uma imagem quimérica e a transporta para fora de si, formando uma imagem na sensação, pois o focus imaginarius está posto fora do ponto focal:

Peço então que me seja concedido que a principal diferença do movimento dos nervos nas fantasias com relação ao mesmo na sensação consiste em que as linhas diretrizes do movimento se cortam, no primeiro caso, dentro do cérebro, mas, no segundo, fora dele; assim, porque o focus imaginarius, no qual se representa o objeto, é posto fora de mim no caso das sensações claras do estado de vigília e o das fantasias, que porventura eu tenha ao mesmo tempo, é posto dentro de mim, eu não posso falhar, enquanto estou desperto, em distinguir as imaginações, como quimeras minhas, da impressão dos sentidos (TG, AA 02: 345).

Nota-se que um distúrbio do ânimo diz respeito a linhas diretrizes que se cortam em um ponto focal dentro ou fora do cérebro caracterizando, no primeiro caso, uma imagem interna e, no segundo, uma imagem externa. Em outras palavras, a imagem criada no cérebro pode ser tanto uma imagem real quanto uma fantasia. O problema está em transpor esta fantasia para fora do cérebro, isto é, se as linhas que se cortam no cérebro e

formam uma imagem forem colocadas fora deste ponto, e tal imagem é uma simples criação de uma imaginação fértil, a fantasia criada torna-se uma imagem na sensação; é possível, então, que um fantasioso tome tal fantasia por objeto real, pois ela está no campo das sensações, o mesmo campo que me concebe representações de coisas reais e existentes. Assim, se torna claro como a imagem produzida possa se passar por representação de um objeto exterior.

Nos Sonhos, a transposição do focus imaginarius para um ponto externo ao cérebro ocasiona uma confusão de imagens reais com fantasias. Essa transposição gera ilusões, pois o ponto de convergência das imagens não gera uma unidade clara, que possa transmitir uma figura real. O ponto de convergência apresentado nos Sonhos, grosso modo, possui uma correspondência com a busca pela unidade de conhecimento, que Kant apresenta na Crítica, quando faz alusão ao focus imaginarius como uma espécie de ‘norte’ para a unificação de todo o conhecimento sob uma ideia transcendental.

Se interpretarmos a Dialética transcendental segundo a letra dos Sonhos, como modo de explicarmos alguns pressupostos dela, podemos dizer que: se a ilusão, nos

Sonhos, pode se dar com a transposição do focus imaginarius para fora do campo de convergência, que é o cérebro; na Crítica, a razão que pressupõe um ‘norte’ para a unidade do conhecimento, um focus imaginarius, que me fornece a unidade como se fosse uma ideia, ‘pode gerar’ uma ilusão, ao transportarmos esta unidade da totalidade dos conceitos para o universo fenomênico, pois não se pode representar uma unidade da totalidade por meio de conceitos no campo da experiência possível. No entanto, sabemos que a ilusão, na Crítica, está em admitir o incondicionado como dado nas próprias coisas a fim de efetivar a exigência da razão pela unidade do conhecimento. Representa, assim, como objetivo algo que é princípio meramente subjetivo. O focus imaginarius externaliza, assim, uma exigência da razão projetando-o nas próprias coisas.

É a partir daqui que é preciso estabelecer um limite entre os Sonhos e a Crítica, pois, de um lado, a ilusão está na criação de imagens ou por uma mente doentia ou por uma ilusão de ótica, mas que também pode se dar com a transposição do focus

imaginarius para fora do cérebro. Por outro lado, a ilusão, na Crítica, está em outro plano, é uma ilusão da razão, transcendental, que é inevitável e natural, na exigência da razão pela unidade do conhecimento. Mas qual é, então, a função propriamente cognitiva do

Se essa metáfora volta a aparecer no âmbito de uma projeção que visa uma unidade, segundo a qual Kant afirma, ainda sem muitos critérios, ser a própria ideia transcendental (KrV, B 672), é porque a metáfora do focus imaginarius auxilia a busca pela unidade. E se tal unidade sob a índole de uma ideia não possui um representante sensível, é porque, mais uma vez, o focus imaginairus não pode ser transportado para o campo fenomênico. Pois, se assim for, seremos vítimas de uma ilusão que pode nos enganar.

Com isso, seria a metáfora crítica do focus imaginarius somente uma analogia para a ilusão de ótica? A princípio, pode parecer que sim, tendo em vista que, nos Sonhos, esta metáfora diz respeito a imagens fora de foco ou mesmo criação de imagens. E na

Crítica? Qual é a analogia? Se por um lado o focus imaginarius é uma analogia, e há argumentos para isso, por outro, ele pode ser a solução para o suposto paradoxo da razão, uma vez que só há uma projeção para a unidade sistemática da natureza porque há um norte. E, para que isso se efetive, a ilusão transcendental, na Crítica, deve permanecer, pois é inerente a razão, e é a razão que exige uma unidade da natureza, e tal unidade, como o próprio Kant (KrV, B 672) diz, é uma ideia, uma espécie de focus imaginarius, voltando assim, mais uma vez, para uma analogia.

Até aqui, analisamos o focus imaginarius presente nos Sonhos como analogia para a ilusão de ótica. Na próxima seção iremos verificar como esse mesmo focus imaginarius, tomado pelo viés empírico nos Sonhos, e retomado pelo viés transcendental na Crítica, serve como analogia para a ideia transcendental.