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Preliminary experiments

5.2.2 Data Characteristics

Neste item, inicialmente são destacadas as variáveis de análise consideradas mais apropriadas para o desenvolvimento deste trabalho. Posteriormente, são colocados alguns elementos morfológicos sobre redes dentro da contribuição de Brito (2002). A seguir, noções de redes são apresentadas dentro das perspectivas econômica e sociológica.

chamada análise de redes sociais. A análise de redes sociais (social network analysis) tem suas origens na sociometria (relações interpessoais representadas graficamente) de Moreno (1934) e, de acordo com Mizruchi (1994), decorre da sociologia estrutural, que se opunha á sociologia normativa. Na sociologia normativa, as normas (expectativas de comportamento) e valores (crenças generalizadas compartilhadas) condicionam a ordem social. Na sociologia estrutural, as estruturas sociais, restrições e oportunidades geram normas que afetam mais o comportamento do que os valores, a cultura ou outras condições subjetivas (MIZRUCHI, 1994). Existe uma relação entre a sociologia estrutural e a abordagem da escolha racional, pois, em ambas, o comportamento é normativo, mas não por interiorização ou socialização e sim porque os atores se defrontam com restrições e oportunidades. Em outras palavras, ao invés de as normas serem interiorizadas pela socialização dentro do grupo (sociologia normativa), elas são seguidas por receio de sanções.

A escolha racional foca o medo da sanção como condicionador do comportamento normativo e está preocupada com as oportunidades e restrições com as quais se deparam os agentes. Desta forma, os comportamentos oportunistas não ocorrem devido às conseqüências negativas que este comportamento teria sobre a reputação do ator.

Por outro lado, diversos analistas de redes, dentre os quais Mizruchi (1994), reconhecem cada vez mais “a existência de lacunas nas explicações estruturais, cujo preenchimento pode exigir explicações culturais ou normativas” (MIZRUCHI, 2009, p. 148). Nas relações intra e interorganizacionais, além das propriedades estruturais e das normas, a existência de laços e interações sociais de vários tipos, gera a necessidade de se levar em conta uma série de elementos, tais como o controle interorganizacional, a imersão (GRANOVETTER, 1985) e o capital social, que surge a partir de vivências cooperativas entre as organizações ao longo do tempo (PUTNAM, 1996).

O conceito de coesão relacional pode ajudar no preenchimento desta lacuna mencionada por Mizruchi (1994). De acordo com Burt (1992), os que prosperam (os que são eficazes) são, entre outros fatores, aqueles que possuem/integram redes imediatas, densas e coincidentes, portanto coesas (embora também possam estar ligados a redes mais distantes caracterizadas por contatos não redundantes). Em oposição aos relacionamentos meramente comerciais, não repetitivos e sem reciprocidade, têm-se nas redes coesas, vínculos de natureza mais pessoal e repetitiva, com reciprocidade, confiança, e conformidade/uniformidade de comportamento (um indicativo de coesão).

De acordo com Powell (2004), a perspectiva de redes pode ser dividida em duas vertentes: análise de redes sociais e a governança de redes. A análise de redes sociais

como já mencionado, tem seu foco na qualidade e natureza das relações, onde variáveis como densidade e coesão são estudadas. A análise de redes sociais divide-se por sua vez em análise morfológica, voltada para comparação, tipificação, classificação e forma das redes, e análise estrutural, direcionada para os aspectos da estrutura das redes. Um dos focos da análise estrutural de redes é direcionado para os canais através dos quais os atores trocam bens e serviços, e transferem recursos e informações. Na estrutura da rede, formam-se as relações entre atores e são desenvolvidos vínculos de confiança, mecanismos de controle social, alinhamento de interesses e formas de negociação. De acordo com Marinho da Silva (2003), a análise estrutural de redes, por sua vez, pode ser dividida em duas perspectivas. Uma perspectiva macro, que examina a estrutura da rede como um todo e outra que examina o nível e centralidade dos atores e suas ligações (micro).

Numa classificação exposta em Sacomano Neto e Truzzi (2005) a análise de redes possui três níveis: posicional, estrutural e relacional.

Na análise posicional (também chamada de coesão posicional), um conceito importante é a centralidade, relacionada com a posição de um determinado ator dentro da rede. São vários os tipos de centralidade, dentre estes, tem-se, por exemplo, a centralidade de grau, ou o número de vínculos de um ator com os demais ou ainda o número de laços diretos entre um ator e os outros. Como as redes do tipo central de negócios, aqui estudadas, são muito próximas de um modelo de rede não-hierárquica (onde todos os laços são possíveis), não cabe aqui a aplicação do conceito de centralidade de forma direta. De qualquer modo e no caso deste trabalho, quanto mais todos se vincularem a todos, quanto maior e mais homogêneo o grau médio de centralidade, maior a coesão, pois todos serão mais eficientes na obtenção de informações sobre os parceiros, terão uma visão mais abrangente e haverá redução da incerteza (SACOMANO NETO E TRUZZI, 2005).

Na análise estrutural - (coesão estrutural ou posicionamento estrutural), a preocupação é com a existência e conformação dos laços entre os atores de uma rede. As redes são analisadas quanto ao seu tamanho (número de participantes), sua densidade (ligada à intensidade de relacionamento e medida em termos da proporção de vínculos existentes entre os associados de uma rede, dividida pelos vínculos possíveis) e sua coesão estrutural (conectividade ou a capacidade de uma rede permanecer conectada mesmo eliminando alguns elementos). De acordo com Sacomano Neto e Truzzi (2005), na densidade, a intensidade de relacionamento é também avaliada a partir do grau de cooperação, existência de contratos de longo prazo, relações de confiança e fluxo de informações. Já de acordo com Marinho da Silva (2003), em redes consideradas densas, é alto o potencial de comunicação dos atores

(coesão) e do fluxo de informação, assim, quanto maior a densidade, mais rapidamente a informação circulará entre os associados da rede. Alta densidade também se relaciona com a durabilidade, ou seja, na perda de um associado a rede densa sobrevive mais facilmente do que a rede difusa. Marinho da Silva (2003) enumera mais algumas medidas estruturais, tais como distância geodésica, o menor caminho entre dois atores (importância da intermediação) e diâmetro, a menor distância geodésica entre dois pares de atores.

Quanto à análise relacional (coesão relacional) o importante é medir/aferir a intensidade, forte ou fraca, de relacionamento entre os integrantes de uma rede. Relações fortes geram conformidade e homogeneidade de comportamento e formação de normas (expectativas de comportamento), resultando, por sua vez, em coesão relacional. Conforme Sacomano Neto e Truzzi (2005), para aferir a intensidade e extensão das relações, juntamente com o nível de cooperação e comprometimento e, portanto, coesão relacional de uma rede, tem-se alguns fatores tais como: quantidade de tempo do relacionamento, intensidade emocional da relação, nível de confiança, existência de serviços recíprocos (reciprocidade), freqüência de interação entre os parceiros, nível de comprometimento de recursos, velocidade de resolução de problemas, formalidade/informalidade da relação, sinergia de interesses, qualidade e tipo da informação, interdependência entre atores, regras e conduta, mecanismos de resolução de problemas, formas de controle e coordenação, sendo que os três últimos também podem ser classificados como mecanismos de coordenação. Devido à sua importância para este trabalho, seguem detalhes destes mecanismos, baseados no trabalho de Sacomano Neto e Truzzi (2005), e suas implicações para a coesão relacional:

- Vínculos anteriores e duração das relações: laços prévios entre duas organizações sobre uma cooperação subseqüente. Remetem para importância dos laços prévios ou alianças prévias como fonte de informação confiável. Além disso, ao longo do tempo, os vínculos vão reforçando o conhecimento mútuo, aumentando a confiança.

- Mecanismos de resolução de problemas: Quanto maior a quantidade e freqüência destes mecanismos, maior a intensidade e coesão das relações.

- Freqüência da interação: volume de contatos, e se são freqüentes ou esporádicos. A forma dos encontros indica intensidade da relação, com o detalhe de que contatos “cara a cara” são mais intensos do que os indiretos como o e-mail. Quanto maior a freqüência de contatos, maior a coesão relacional. Uma freqüência de diária para semanal é considerada alta. Neste elemento, também é levado em consideração o tempo de duração do contato (aspecto qualitativo).

função da freqüência de interações (maior freqüência, maior intensidade emocional). Está relacionada à existência de relações de amizade, participação em eventos, contatos, confiança e reciprocidade. Quanto mais elevada a intensidade emocional, maior a coesão relacional. Pode ser avaliado por meio da identificação de parceiros com os quais o ator esteja disposto a assumir riscos sem temer conseqüências negativas. A participação em encontros sociais aumenta a intensidade das relações.

- Confiança: em termos de confiança, pode-se dizer que ela ocorre devido à reciprocidade pela convivência, afinidade, por uma norma coletiva explicita (e formal), ou ainda por uma questão estratégica.

- Reciprocidade: além da confiança, a reciprocidade das ligações existentes entre os atores é importante. Todo grupo será coeso nas suas relações se todas as escolhas feitas são mútuas ou todos escolhem a todos como pares em suas ligações. A reciprocidade também ocorre por interesse e calculo estratégico, equivalência de benefícios, retribuições, necessidade de segurança e estabilidade ou preservação das ligações entre os associados.

- Reputação: decorre do histórico de um agente em situações de conflito de interesses entre o benefício individual e o benefício comunitário. Relações confiáveis requerem histórico de credibilidade e reciprocidade, o que gera reputação.

- Comprometimento com recursos: aquisição conjunta de equipamentos e máquinas, ou qualquer outro recurso. Investimento conjunto em máquinas, treinamento, know-how tecnológico e gerencial, etc. Quanto maior o comprometimento de recursos, as relações são mais intensas e de longo prazo, e maior será a coesão.

- Velocidade: rapidez na resolução de problemas ou difusão de informações. Quanto maior velocidade, maior coesão.

- Formalidade/informalidade: utilização de contratos, documentos, regras ou acordos formais, baseados em contratos ou informais, baseados em confiança. Quanto mais indireto e por reputação/reciprocidade/confiança for a relação (essencialmente sem documentação formal), maior a coesão relacional.

Além da coesão do ponto de vista posicional, relacional e estrutural, uma quarta categoria pode ser acrescentada – a coesão social, conceito elaborado em estudo realizado pela CEPAL - Comissão Econômica para a América Latina. A coesão social é medida em termos das características e comportamentos dos atores, em termos de se criar na rede um sentimento de pertencer à rede, de contribuir para seu desenvolvimento e de promover integrações. A coesão social se refere tanto à eficácia de mecanismos instituídos de inclusão, como os comportamentos e valores manifestados pelos sujeitos que participam em

rede. Alguns dos comportamentos e valores indicativos de coesão social seguem abaixo: - confiança nas instituições

- sentimento de pertencimento - solidariedade

- aceitação de normas de convivência

- disposição em participar de espaços de deliberação - projetos coletivos

São três os aspectos mais importantes da coesão social: pertencimento, relacionado com o “vestir a camisa” e ter orgulho de pertencer a um determinado grupo, integração, processo que permite as pessoas gozarem de um bem estar consistente com o desenvolvimento alcançado e manejo, voltado para as formas pelas quais o ator lida com as normas coletivas de construção e preservação de redes, laços de confiança, espaços de reforço coletivo, capazes de aceitar bases de reciprocidade.

Além da análise de redes, tem-se a análise de governança de redes, voltada para os aspectos relacionados com a formação e organização das redes, com o acesso a recursos redutores de dependência ou melhora na posição competitiva e nos laços organizacionais, na aplicação de estratégias para as incertezas, exploração de inovações e novos mercados. Na governança em redes, as palavras chave são: coordenação, cooperação, restrições e oportunidades. Nesta perspectiva, existe a preocupação em se estudar a forma de se governar relações entre atores. No caso de formas de cooperação, tem-se a necessidade de se estudar a coordenação entre os atores. Citando Grandori4, Sacomano Neto e Truzzi (2005, p. 144) observam que a governança investiga conceitos importantes e de certa forma opostos, tais como confiança e oportunismo, organizações formais e informais. Reconhece-se também a existência de canais de interdependência e formas de cooperação. Na perspectiva de governança, as redes se formam para explorar oportunidades ou evitar restrições, buscando obter informações, economia de escala, divisão de riscos e incertezas (POWELL5, APUD SACOMANO NETO E TRUZZI, 2005, p. 144).

Na análise de governança os mecanismos de coordenação dos participantes das redes que se mantêm independentes são aspectos importantes. Estes mecanismos podem ser formais (contratos e estatutos, regulamentos) ou informais (normalmente baseados em confiança, reputação, reciprocidade). Sacomano Neto e Truzzi (2005, p. 147) citam Grandori

4 GRANDORI, A. Interfirm network: organization and industrial competitiviness. London, 1999. Routledge. 5 POWELL, W.W. Neither market nor hierarchy: network forms of organizations. Research in Organizational Behavior, 1990, v.12, p.295-336.

e Soda6para expor os principais mecanismos de coordenação. Abaixo, seguem os mecanismos de coordenação mais pertinentes para o objeto deste trabalho:

A. Comunicação, decisão, negociação: para manter a cooperação em rede, é preciso boa comunicação entre seus associados, um processo decisório eficiente e negociações que levem em consideração o bem comum. È importante verificar se as decisões e comunicações são satisfatórias e as informações necessárias à tomada de decisão são disponibilizadas de forma apropriada e no tempo certo.

B. Coordenação e controle social sobre os participantes da rede: composto pelas principais diretrizes (regras do jogo), que regulam o comportamento dos associados, especialmente as normas do grupo (expectativas de comportamento, como por exemplo, a reciprocidade e comportamento ético), também pelas regras (diretrizes formalizadas), além dos valores (crenças generalizadas compartilhadas, por exemplo, honra e honestidade). Elementos importantes deste item são: reputação, a confiança, o repúdio ao comportamento oportunista, a resolução de conflitos entre associados e entre associados e rede, a fiscalização/controle sobre comportamento dos associados (mútuo controle), etc.

C. Regras e unidades de integração e ligação: se refere à criação de papéis e responsabilidades horizontais. Por exemplo, a existência de uma coordenação formalizada em contrato (exemplo o franchising ou consórcio) ou de empresa formalizada fora da rede.

D. Planejamento e Sistemas de controle: atividades de planejamento e controle que podem induzir ao comportamento cooperativo ou oportunista.

E. Sistemas de incentivo: Por exemplo, divisão de resultados no grupo em termos de divisão de lucros e de rendas, direitos de propriedade sobre os resultados da ação coletiva.

F. Sistemas de seleção de parceiros: regras formais e informais para a seleção de parceiros. A preocupação aqui é qual a especificidade de acesso, e se ela é alta ou baixa, e ainda se existem regras formais e informais de acesso.

G. Sistemas de informação/comunicação: importantes para integração horizontal e gerenciamento da interdependência, diminuindo custos de comunicação.

H. Suporte público: Apoio institucional para a criação e manutenção da rede. As duas abordagens já expostas – análise de redes e governança de redes são importantes para o estudo de redes e, apesar de distintas quanto a sua natureza, é possível combinar estas duas abordagens da seguinte maneira: A imersão dos agentes econômicos em

6 GRANDORI, A.; SODA, G. Inter-firm networks: antecedents, mechanisms and forms. Organization Studies, 1995, v.16, n.2, p. 183-214.

relações sociais gera uma estrutura (análise de redes - relações) que proporciona oportunidades e restrições (governança – estratégia, coordenação). O comportamento dos agentes pode ser estratégico em algumas situações e cultural em outras. Considera-se que os agentes (atores) estão imersos em uma estrutura de relações sociais (perspectiva de análise de redes) que fornece oportunidades e restrições (perspectiva de governança).