2. THEORY
2.4 D ISCOURSE A NALYSIS
O conceito de personalidade compreende um tema importante no campo da Psicologia, sendo por isso estudado por muitos autores e sistematizado em diferentes teorias. Dentre os autores que se debruçaram sobre o estudo da personalidade, destaca-se Theodor W. Adorno, que desenvolveu um estudo interdisciplinar sobre as forças internas da personalidade que guiam as atitudes e as opiniões dos indivíduos, em conjunto com pesquisadores de várias áreas durante seu exílio nos Estados Unidos.
Nessa investigação, foram empregadas diversas bases empíricas, como escalas de atitudes, testes projetivos e entrevistas, cujos resultados se encontram na obra “La
personalidad autoritaria” (ADORNO et al., 1965), considerada um clássico para a Psicologia Social (CROCHÍK, 2008). Na medida em que o referido estudo buscou demonstrar as relações existentes entre personalidade e ideologia, sobretudo no que se refere à mentalidade fascista e autoritária, torna-se pertinente tomar o mesmo como base para esta pesquisa.
Dessa forma, Adorno et al.(1965), partindo da teoria de Freud, explica que a personalidade é guiada por forças internas, que são as necessidades. Os seres humanos apresentam necessidades que variam em intensidade e qualidade de acordo com cada indivíduo, como as emoções primitivas, a necessidade de evitar o castigo e conservar a boa vontade do grupo social, bem como a manutenção da harmonia em si mesmo. Essas necessidades interagem entre si de forma harmoniosa ou conflitiva, e determinam as opiniões, valores e atitudes de uma pessoa, a qual apresentará determinadas preferências ideológicas em prol da satisfação das mesmas (ADORNO et al., 1965).
A personalidade é uma organização mais ou menos permanente de forças internas do indivíduo. As forças da personalidade cooperam para determinar tanto as respostas do sujeito frente às situações, quanto a constância de seu comportamento. Por isso, as forças da personalidade podem ser entendidas como as predisposições do indivíduo para emitir determinadas respostas ao meio, o que termina por caracterizar a personalidade como uma estrutura em potencial (ADORNO et al., 1965).
Nesse sentido, Adorno compreende a personalidade como “fator determinante das tendências ideológicas” (1965, p.31). Entretanto, é pertinente ressaltar que não se trata de um determinante último, pois a personalidade não é oriunda de fatores inatos, tampouco de uma suposta genética racial. Conforme apontam o intelectuais frankfurtianos (ADORNO et al., 1965), a personalidade evolui através dos impulsos do ambiente social e, por esse motivo, jamais seu desenvolvimento poderá ocorrer isolado da totalidade, o que expressa a dependência mútua existente entre personalidade e sociedade.
Dessa forma, as influências mais importantes sobre o desenvolvimento da personalidade da criança estão na educação que esta recebe em seu círculo familiar (ADORNO et al., 1965). Círculo esse que, por sua vez, não se encontra fechado em si mesmo, pois recebe influências de fatores econômicos e sociais. Logo, os tipos de personalidade que se formam na sociedade são produtos das ações diretas das grandes mudanças das condições e das instituições sociais.
Ainda que a personalidade seja um produto do meio social do passado, não constitui, uma vez desenvolvida, um simples objeto do meio presente do indivíduo. O que se tem formado é uma estrutura dentro deste, algo capaz de atuar por iniciativa própria sobre o meio social e de selecionar os diversos estímulos encontrados; algo que, embora sempre modificável, opõe com frequência grande resistência às mudanças fundamentais. Este conceito é necessário para explicar a constância do comportamento em grande variedade das situações. A persistência das tendências ideológicas frente aos fatos que as contradizem e apesar das mudanças radicais das condições sociais; também nos esclarece por que pessoas que se encontram em uma mesma situação social sustentam opiniões diferentes e até opostas acerca das questões sociais (ADORNO et al., 1965, p.31-32, tradução minha).
A partir dessas contribuições, pode-se inferir que a adesão ou não a determinadas ideologias encontra-se atrelada às necessidades da personalidade do indivíduo. Essa tônica explica o porquê pessoas em uma mesma condição possuem posicionamentos distintos e respondem de maneira diferente em relação a uma mesma questão.
No que se refere as relações estabelecidas entre a personalidade e a ideologia, os estudos frankfurtianos demonstram que conforme a personalidade, um indivíduo pode mostrar
uma predisposição psicossocial ao aceite de ideias antidemocráticas e autoritárias, na medida em que a estrutura de sua personalidade apresenta traços que o tornam suscetível aos apelos ideológicos emanados. Nessa perspectiva, o preconceito é a ideologia mais nitidamente antidemocrática presente no meio social (LEVINSON, 1965).
O conjunto de características na estrutura da personalidade que fazem com que o sujeito apresente uma predisposição psicossocial ao fascismo, ou seja, a tendência antidemocrática, é denominado como “personalidade autoritária” (CARONE, 2012).
Segundo Carone (2012), a personalidade autoritária possui como características o convencionalismo, a submissão e agressividade autoritária, a destrutividade, o cinismo, a projetividade, a anti-intracepção, a valorização do poder e dureza, a preocupação com o comportamento sexual do outro, a superstição e a estereotipia.
O indivíduo autoritário apresenta essas características porquanto guarda uma idealização acentuada dos valores do endogrupo e de seu líder, enquanto projeta nos indivíduos do exogrupo a agressividade contida bem como as qualidades negativas que não quer ver em si (CARONE, 2012). Dessa forma, pode-se afirmar que a personalidade autoritária é também uma personalidade preconceituosa, na medida em que tende a discriminar diferentes exogrupos, projetando nos mesmos a culpa e as mazelas.
Em contraposição a estrutura de personalidade autoritária, há a estrutura de personalidade tolerante, a qual apresenta características que se opõem as encontradas nos indivíduos preconceituosos. Se o autoritário possui uma predisposição psicossocial para o fascismo, o não autoritário apresenta traços que permitem caracterizar a presença de uma predisposição para tendências democráticas, constituindo assim uma personalidade liberal.
Sobre o emprego do termo liberal, o mesmo foi forjado por Adorno para fazer referência a um contexto norte-americano em que o referido vocábulo se opunha ao ideário político-econômico conservador, embora o autor tenha concluído que os sujeitos com ideias e atitudes conservadoras não sejam necessariamente indivíduos de personalidades autoritárias. A ideia de liberal designava personalidades com tendências mais democráticas e menos autoritárias, não tendo, portanto, relação com a atual significação de “liberal” oriunda do neoliberalismo, que é frequentemente associado a posições de direita, a favor do livre mercado, contrário aos benefícios dos direitos sociais.
Assim, a personalidade liberal apresenta as características da racionalidade enfática, acompanhada pela intracepção ou pela consciência histórica e sociológica, a antiestereotipia, o senso de justiça, a simpatia associada a explicação das diferenças ou a negação das mesmas e a ausência de fatalismo (ADORNO et al., 1965). De acordo com Adorno et al. (1965), essas
características que abrangem a personalidade do indivíduo liberal não são oriundas de ideologias superficiais exteriores, mas estão fundamentadas em fatores internos que compõem a própria estrutura da personalidade do indivíduo não preconceituoso.
Contudo, cabe resgatar que esses fatores internos da estrutura da personalidade não são inatos no indivíduo, mas constituídos através das interações estabelecidas com o meio. Logo, seria errôneo compreender o preconceito como um fenômeno inteiramente psicológico:
Mas não devemos esquecer que o preconceito não é, de modo algum, um fenômeno inteiramente psicológico, “subjetivo” (...) O espírito objetivo de nossa sociedade fomenta grandemente a mentalidade e a ideologia “altas”. Embora seja certo que cada indivíduo reage de maneira diferente, segundo seja sua constituição psicológica, frente aos onipresentes fatores culturais estimulantes do preconceito, quando se trata de compreender as atitudes dos sujeitos ou dos grupos psicológicos não se pode descuidar do elemento objetivo do preconceito. Por conseguinte, não basta perguntar: “Por que este ou aquele indivíduo é etnocêntrico?” Em vez disso devemos perguntar: “Por que este indivíduo reage positivamente frente aos mesmos estímulos onipresentes que naquele outro homem produzem uma reação negativa” Deve considerar-se que o caráter fascista em potência é o produto da interação entre o ambiente cultural que inclina ao preconceito e as respostas “psicológicas” a esta incitação. Dito ambiente não está configurado só por simples fatores externos, tais como as condições econômicas e sociais, senão também por opiniões, ideias, atitudes e modos de conduta aparentemente próprios do indivíduo mas que, na realidade, não são fruto de seu pensamento independente ou de seu desenvolvimento psicológico autossuficiente senão produto de seu viver dentro de nossa cultura (ADORNO et al., 1965, p.702, tradução minha).
Nesse sentido, as disposições presentes no indivíduo autoritário e no sujeito liberal são produtos do meio social. Embora a caracterização das duas estruturas elenque uma série de características, as mesmas não se organizam da mesma forma nos indivíduos. Existem variações na dinâmica estabelecida entre essas características dentro da estrutura da personalidade, que permitem a prevalência de alguns traços sobre os outros (CARONE, 2012). Por isso, as personalidades autoritária e liberal apresentam variações tipológicas, o que permite falar em diferentes tipos de sujeitos autoritários bem como em diferentes tipos de sujeitos liberais. Essa constatação permitiu aos intelectuais frankfurtianos listarem pelo menos seis subtipos de personalidades autoritárias e cinco subtipos de personalidades liberais, sendo as primeiras mais frequentes que as últimas.
Segundo Adorno et al. (1965), a ação de definir tipos psicológicos não abarca uma simples tentativa de ordenar a diversidade de personalidades humanas, mas sim um meio de conceitualizar essa diversidade conforme sua própria estrutura, no intuito de possibilitar uma compreensão mais profunda da mesma. Semelhantemente, Carone (2012) assinala que a análise realizada por Adorno que deu origem as classificações dos perfis psicológicos não derivou da nosologia psiquiátrica ou das tipologias presentes nos manuais da psicologia, uma
vez que os perfis psicológicos ordenados pelo autor são, em primeira instância, perfis ideológicos.
Nessa perspectiva, Adorno et al. (1965) defende que as razões para a busca de tipos psicológicos se encontram no fato da sociedade estar tipificada e produzir diferentes tipos de pessoas, em decorrência de sua divisão em classes, em ordens hierárquicas, em campos opostos cujos extremos são o individualismo e o agrupamento, fatores esses que terminam por imprimir marcas no pensamento, nas atitudes e no comportamento dos seres humanos.
Porém, torna-se pertinente enfatizar que, conforme resgata Amaral (1997) com base em Adorno, as origens dos fenômenos ideológicos não estariam nas disposições psicológicas dos indivíduos, porquanto as forças que promovem as ideologias o fazem por interesses próprios, não psicológicos. Nesse sentido, as predisposições psicossociais das estruturas de personalidade compreenderiam as tendências de apropriação dos pensamentos ideológicos.
Por isso, o fator da personalidade para a compreensão do envolvimento dos professores brancos na educação das relações étnico-raciais necessita ser levado em consideração, uma vez que o fato de estarem envolvidos com essa questão reflete um posicionamento que ao menos difere do indiferente silêncio frequentemente adotado frente à ideologia do racismo por parte da maioria dos brasileiros, seja por conta dos discursos de negação dessa ideologia, seja por conta da consciência silenciada da branquitude nos indivíduos brancos.
3. A PESQUISA: DO OBJETO AO CAMPO