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CONCLUSION

In document The success of ATTAC in Norway (sider 137-159)

Os projetos de educação desenvolvidos por radiodifusão, necessitavam de um espaço onde os alunos se reunissem para ouvir o rádio e receber a orientação do Monitor. Com o PMR, não foi diferente, naquele momento, em Sergipe, existam uma quantidade significativa de radiopostos, embora não haja registro do endereço geográfico de onde funcionava cada um deles. Há indícios da existência de vários espaços: quartéis, Igrejas, Centros Sociais urbanos e rurais, Escolas, Presídios, SESC, SENAC e qualquer espaço que fosse possível colocar cadeiras e ligar um rádio. Os locais de maior incidência, eram as escolas públicas, estaduais e municipais, dependendo da demanda. Sabemos que o presidio foi um espaço onde o radioposto funcionou permanentemente. Situado no bairro América, periferia da capital, foi um dos poucos endereços constantes de radioposto que funcionou até a extinção do PMR. Embora os jornais não noticiem os locais dos radiopostos, as coordenadoras e a Monitora entrevistadas fazem referências ao presídio.

Durante as entrevistas notei uma preferência, tanto das coordenadoras quanto da Monitora, pelo radioposto do presídio, pois era o mais lembrado e constantemente citado pelas entrevistadas. Foi um radioposto que tinha uma condição especial, inclusive os exames eram feitos no próprio local, uma vez que os presos, tratados carinhosamente por ela de internos, não podiam sair.

Sendo o Radioposto do presidio, um espaço onde o projeto tinha boa aceitação restava saber: como acontecia o trabalho naquele local? Havia um Monitor? Como acontecia a logística de avaliação? Onde eram feitas as provas?

Este questionamento foi elucidado por Lima (19/04/2014) afirmando que:

Em todo radioposto havia Monitor. Eu mesma fazia questão de fazer o acompanhamento no presídio, considerando a excepcionalidade da clientela. Hoje avalio que o PMR lá, teve um papel a mais do que só de escolarização, que foi o de dar um suporte mais humano aos participantes internos. Guardo

marcantes lembranças daquela turma de jovens internos. A maioria deles não tinha o curso primário e conseguimos que a Secretaria de Educação e Cultura, elaborasse provas para a obtenção do certificado desse grau de ensino, que foi aplicada no próprio presídio. (LIMA, 19/04/2014)

Lima fala sugere que havia tratamento diferenciado para atender aos presidiários, quando lima afirma que elaborava provas específicas, o que permitia depreender que havia uma política distinta de aplicação das provas entre os presidiários e os demais alunos. As lembranças marcantes que Lima tinha “daquela turma de jovens internos32”, decorria do fato

de serem pessoas apenadas que estavam naquele local por ter cometido crime. Talvez o fato de serem jovens, privados de liberdade, causasse compaixão e o sentimento de que deveria ajudar aquelas pessoas para superarem suas dificuldades, tendo acesso a escolaridade, inclusive criando condições favoráveis a sua aprovação como bem disse na sua fala.

Souza (2013), foi Monitora e, também, passou pelo radioposto do presídio, mas foi apenas aplicar testes, substituindo sua colega Monitora, a qual chamou de Shirley, que trabalhava naquele espaço. A experiência de Souza no presidio, embora tenha sido breve, marcou sua lembrança , pois também tratou com simpatia sobre aquele radioposto:

Existia um radioposto na penitenciária, numa ala masculina, eu fui até aplicar um teste lá, que era essa colega minha, Shirlei, quem ensinava […] Então quem ensinava era ela, mas foi solicitação, não sei se foi da direção do presídio, pra dar esse supletivo, ter uma sala de radioposto lá na penitenciária.(SOUZA, 28/09/2013)

Não obstante a demonstração de interesse das entrevistadas no radio posto do presídio, não localizei notas em jornais que fizessem referência direta.

Com exceção do radioposto do presídio, os demais funcionaram como espaços itinerantes, serviam para atender aos alunos, em duas modalidades: organizada e controlada. Neste espaço havia um Monitor que a exemplo dos projetos desenvolvidos através do SRE assistia ao aluno no espaço do radioposto, escutava a aula pelo rádio, junto com os alunos, e, em seguida, atuava.

Góis (2004) foi coordenadora do PMR, revelou o fato do Radioposto ser itinerante, “Cada delegacia, hoje diretoria regional, [...] tinham suas demandas, sempre contamos muito com as Igrejas e com as escolas, então onde tinha demanda e havia possibilidade de instalar um rádio a gente estava lá.” (GÓIS, 20/10/2004).

32 O termo “interno” é utilizado pelos próprios presos, enquanto que, para os funcionários do presídio, eles são

denominados de detentos. Como chamou um representante do diretor, quando da minha visita ao presídio, para obter informações sobre o radioposto. Entrei para falar com alguns presos e identifiquei o termo “interno” utilizado por Souza e Lima, sendo utilizado por estes: “sou interno aqui desde 2005 [...]”.

Instalar um radioposto não era difícil nem demandava grande custo. Aproveitavam-se as estruturas das escolas que já contavam com salas equipadas com cadeiras e quadro negro. Assim, para transformar uma sala em radioposto necessitava-se apenas de um rádio receptor e um Monitor. Nas escolas da rede pública estadual, havia um rodizio de radioposto, que eram instalados enquanto houvesse necessidade e transferidos para onde a nova demanda surgia, conforme o imperativo se apresentava, bastando haver um espaço que facilitasse o acesso dos alunos. Souza (28/09/2013) foi Monitora, passou por mais de três radiopostos, sendo dois em escolas públicas estaduais e um Centro Social Urbano (CSU), mas também, identificou uma experiência rápida que teve no presídio.

Segundo Souza (28/09/2013), para implementar um radioposto era preciso: “Ter uma sala suficiente, mais ou menos grande, que houvesse um quadro e carteiras. Na penitenciaria tinha tudo isso”. Lima (19/04/2014), que também era coordenadora, explicita onde eram os radiopostos: - “em sua grande maioria utilizamos a rede estadual, escolas, salões paroquiais, capelas de presídio do bairro América etc...”

Os estudos sobre o MEB e as Escolas Radiofônicas ou mesmo os demais projeto que usavam o SRE, fazem referência à importância do radioposto, mas não trazem seus endereços geográficos. Depreendemos que isso decorre do fato que o interesse principal era manter o espaço do radioposto o mais próximo possível dos alunos, como forma de incentivo, portanto, eram instalados em prédios e bairros ou cidades onde surgisse a demanda, convertendo-se com o tempo, em uma característica.

As Igrejas também requeriam radioposto e eram atendidas em suas demandas, bastando para isso disponibilizar uma sala com cadeiras, onde o Monitor pudesse levar um rádio para atender aos alunos.

Souza (28/09/2013), em seu depoimento, afirma que: assim que ingressou no Serviço Público Estadual foi lotada em uma cidade do interior, distante da capital, onde residia. Essa distância criava dificuldades para exercer suas atividades. Passados alguns meses, resolveu que deixaria o emprego, pois não queria ficar no local no qual foi alocada. Para sua surpresa, quando resolveu comunicar o fato, lhe ofereceram um radioposto, no Centro Social Urbano33, localizado no bairro Presidente Costa e Silva. Souza enfatiza:

Quando eu disse que não ia querer mais trabalhar no interior, eles me ofereceram essa vaga pra ensinar no supletivo no centro social que fica no conjunto Costa e Silva, existia um centro social e o presidente da associação

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O Centro Social Urbano (CSU) é um espaço público gerenciado pela Secretaria de Ação e Desenvolvimento Social. Tem por objetivo integrar atividades de lazer, esporte, informação, formação e qualificação profissional visando a organização e integração das comunidades. Atua como um espaço de diálogo e no desenvolvimento de ações coletivas, em parceria com órgãos governamentais, setores privados e organizações da sociedade civil.

de bairros de lá pediu na Secretaria de Educação e Cultura, que colocasse um radioposto, como era chamado, era uma sala de aula dentro do centro comunitário. (SOUZA, 28/09/2013)

O radioposto que funcionou no Centro Social Urbano (CSU), atendeu a um requerimento do presidente do CSU à Secretaria de Educação e Cultura. Neste caso, percebemos um interesse por parte da associação de moradores que talvez, numa manobra política tenha solicitado o radioposto, com a intenção de sanar problemas de escolaridade no bairro, contudo não observou se haveria demanda, tampouco a Secretaria de Educação e Cultura observou este fato. Essa demanda não atendia à expectativa de Souza, quando afirma

Eu acho que era a solicitação, porque esse presidente da associação pediu pra lá, porque pediram a ele e ele viu necessidade, depois nós saímos divulgando, só tivemos doze alunos. Elas viram a possibilidade no outro dia de eu não ficar mais ali, por que não viam a possibilidade de chegarem outros alunos. Elas me perguntavam: “tem chegado? tem procurado?” eu respondia: Não, não. (SOUZA, 28/09/2013)

No depoimento de Souza, encontramos um dos pontos fracos do PMR. Percebemos que não havia uma pesquisa por demanda, mas a instalação do radioposto se deu baseado na solicitação do presidente da associação. O fato de ter 12 alunos apenas poderia representar, para a Secretaria de Educação, uma demanda baixa, mas para o presidente do centro talvez fosse suficiente. De qualquer forma, este radioposto ficou instalado apenas para atender a esta demanda. Em seguida, extinguiu-se e Souza foi para outro radioposto onde teve mais de 40 alunos. A esse respeito Souza diz:

Eu ensinei uma etapa no Costa e Silva e quando encerrou a etapa, que era um ano e seis meses cada etapa. […] Era rotativo, nós tínhamos um mês de férias e aí retornava. Eu já fui dar outra etapa no Médici, na Escola Médici no primeiro grau. Lá a diretora me deu todo o apoio, foi ela que fez a divulgação nas salas para os alunos que quisessem mudar para o supletivo poderiam. No fim enchia a sala, e ela foi quem se preocupou em ir buscar os livros lá na secretaria da educação. (SOUZA, 28/09/2013 )

A permanência do radioposto em determinado espaço estava atrelado à demanda de alunos, contudo o tempo mínimo de permanência era de dezoito meses, decorrido esse tempo, o projeto reiniciava seu ciclo com o radioposto ficando ou não no mesmo espaço.

No radioposto da Escola Presidente Emílio Garrastazu Médici, que recebia o nome do Presidente da República, Souza teve a sala cheia. Afirma que teve mais de quarenta alunos e considerou um sucesso. Mas como vimos, o radioposto era rotativo e ao encerrar seu ciclo, se mudava para onde houvesse nova demanda.

Podemos considerar outras questões importantes, como o fato de ser uma escola onde o aluno já estava estudando e sendo reprovado. Neste caso, a diretora se interessou em resolver o problema de repetência incentivando os alunos, que estavam naquela condição, a participarem de um projeto que viria a acelerar as etapas de sua formação.

A forma como foi apresentada a proposta para os alunos, parecia, aos seus olhos, vantajosa, pois terminaria aquela etapa dos estudos em um ano e seis meses, quando o tempo de frequência normal seria de quatro anos, no mínimo. Contudo havia desvantagens no processo, como o risco de ser reprovado na avaliação final, além da necessidade de adaptação a uma modalidade distinta de ensino.

Ainda assim a demanda foi satisfatória, e o Monitor teve participação importante no processo, pois fez, como veremos no próximo tópico, um trabalho de captação dos alunos repetentes para montar sua nova turma.

In document The success of ATTAC in Norway (sider 137-159)