5. THE ORDER OF DISCOURSE
5.1 D ETERMINANTS OF ORGANISATIONAL SUCCESS
Somado ao fator da convivência, a ação de estudar a temática racial também cooperou para a sensibilização dos docentes em relação ao problema do racismo e da desigualdade racial:
Na adolescência eu comecei a fazer parte do grupo de jovens da igreja católica. E a gente tinha uma orientação, que a gente chama de Teologia da Libertação, que é uma das teologias presentes dentro da igreja católica, e a gente tinha essa preocupação com as minorias. Então preocupação com o jovem, com a mulher e com o negro. E aí então assim, eu participei de alguns encontros que a gente trabalhou essa temática. Então aí começa a ter um despertar maior, um olhar além do senso comum para essa realidade. Então a gente sempre... Tinha essas discussões. Aí depois fui para a faculdade, na faculdade eu me lembro que a gente viu muito pouco. Eu tive uma disciplina de Educação Quilombola no curso de Pedagogia, mas bem, bem, bem, assim, rudimentar, assim. A professora... Ela mesma não tinha nenhuma vivência, não tinha um conhecimento legal, foi bem assim, de parâmetros mesmo, legais, mas não de ter contato com essas experiências e tal. Depois eu fiz o ERER, é uma especialização de Educação para as Relações Étnico-raciais, e eu tive um aprofundamento, mesmo com as discussões que eu já tinha comigo mesmo, com meu esposo, com os outros professores na escola, o ERER acho que ele é um ponto de amarração disso, do que era incerteza do que é certeza, o que que é racismo, até onde é, até onde não é, é... Essa questão histórica do Brasil, foi amarrando tudo o que eu vinha pensando assim solto. O ERER ele veio, amarrando algumas coisas e deixando outras coisas assim, para pensar mais e mais, mais e mais (Prof.ª Marcela/Entrevista).
Marcela afirma que as primeiras aproximações do estudo da temática racial se deram no grupo de jovens da igreja católica que a docente frequentou no período da adolescência. Marcela cita como ponto de partida a “Teologia da Libertação”, corrente do catolicismo pautada na luta contra as injustiças sociais no contexto da América Latina (LÖWY, 1989). Para a docente, esse contato possibilitou um “despertar maior, um olhar além do senso
comum para essa realidade”, ou seja, uma percepção e sensibilização mais aguçadas do que
as que a docente possuía anteriormente.
A fala de Marcela demonstra que o estudo acadêmico na graduação pouco auxiliou nesse processo de formação sobre a temática, apesar do currículo de seu curso de Pedagogia abranger uma disciplina voltada à Educação Quilombola, uma vez que esse componente curricular se limitava ao estudo da legislação, não estendendo a reflexão sobre à experiência de exclusão das comunidades remanescente de quilombos.
Nesse sentido, Gomes (2012) alerta sobre a importância da formação de professores reflexivos, capazes de lidar com o silêncio e a negação por parte dos currículos escolares acerca de determinadas culturas, que requer, por sua vez, um movimento de descolonização dos currículos. Processo esse que demanda inclusive um olhar sobre os próprios currículos dos cursos de formação de professores, os quais também se encontram colonizados, nos quais as histórias dos grupos que foram marginalizados pelo colonialismo são silenciadas e negadas, na maioria dos cursos superiores ofertados por instituições públicas e privadas.
Sobre o estudo do tema, Marcela atribui significativa importância à especialização que cursou, por esta ter possibilitado articular as reflexões e discussões emanadas das vivências e convivências da docente com pessoas negras, bem como a compreensão “...do que era
incerteza do que é certeza, o que que é racismo, até onde é, até onde não é, é... Essa questão histórica do Brasil”.
Nessa perspectiva, pode-se depreender que a ação de estudar o tema possibilitou a docente compreender as raízes históricas do problema no Brasil, contextualizando e fornecendo sentido às suas percepções, afirmação essa expressa na sentença “...essa questão
histórica do Brasil, foi amarrando tudo o que eu vinha pensando assim solto”, movimento
esse que reflete o interesse de Marcela em aprofundar sua compreensão sobre a questão da desigualdade racial.
...para poder compreender melhor... Compreender melhor, inclusive a história do negro no Brasil, que a gente acabou vendo de uma maneira ou de outra e... Poder, quando falar, falar com mais segurança, acho que isso é interessante também (...) Você tem que ter esse amparo de leitura, de leitura inclusive, porque tem que tomar muito cuidado (Prof. Gustavo/Entrevista).
A ação de Gustavo em atribuir importância ao estudo da temática das relações étnico- raciais está relacionada à sensibilidade do docente no reconhecimento que o simples fato de
abordar a questão pode fazer emergir reações intensas e contraditórias por parte de negros e brancos, as quais, se ignoradas, tendem a diminuir o rapidamente o interesse dos atores com quem se dialoga (BENTO, 2002c).
Por que às vezes fica uma coisa meio de... Quando a gente... Quando a gente não convive com a temática racial passa despercebido algumas coisas, conforme você vai se instrumentalizando, você treina o seu olhar para ver que não é por acaso, que barraram ela e não eu. Não é por acaso, mas acho que no dia a dia, se você não tem o instrumental mesmo, e você fica com o senso comum que a mídia passa, que todo mundo fala, passa despercebido... Eu acho que quanto mais eu estudo, quanto mais eu escuto, quanto mais eu vejo os meus amigos contando o dia a dia deles mais eu vejo, porque eu me sinto instrumentalizada também, para ver alguma coisa que antes eu não percebia (...) Mas eu precisei me instrumentalizar, sem... Eu acho que... Sem estudar o tema eu não seria capaz de perceber a gravidade do problema social do Brasil, e muito menos levar isso para a sala de aula. Foram muitos anos, foram anos de sensibilização. Como foi estudando pelas beiradas, começa lá, acho que vem vindo, foram muitos anos, onze anos de estudo, que não necessariamente, como falei, não necessariamente da temática racial, mas sempre envolvendo essa questão da hierarquização que é muito forte, na literatura africana isso aparece muito, o quanto que os africanos foram hierarquizados pelos europeus, e era muito maluco olhar aquilo e pensar “Nossa, isso também acontece aqui!”(Prof.ª Bianca/Entrevista).
Bianca enfatiza que necessitou se “instrumentalizar” para conseguir desenvolver uma melhor percepção das situações de desigualdade racial, no sentido de “treinar o olhar” para além da naturalização. Para a docente, o estudo sobre o tema e a convivência com os amigos foram “ferramentas” nesse processo de “instrumentalização”, afirmando que quanto mais estuda, quanto mais escuta, mais consegue ver algo que não via antes, que passava despercebido em função de sua condição de branca e das relações aparentemente harmônicas mantidas em seu núcleo familiar com pessoas negras.
Ainda no que diz respeito à importância de se estudar o tema, Bianca concebe que o mesmo foi fundamental para adquirir uma melhor compreensão, porquanto “sem estudar o
tema eu não seria capaz de perceber a gravidade do problema social do Brasil, e muito menos levar isso para a sala de aula”, fato esse que auxiliou em seu processo de
sensibilização, diminuindo sua lacuna branca de percepção superficial das relações de desigualdade.
...o que eu descobri nessa aula é isso, o quão não sensibilidade eu tenho, e eu acho que tem a ver com o ser branco, porque o negro está muito mais sensível a essas situações, de crítica, e é mais difícil quando você é branco para ficar se criticando, você não... Porque eu acho que você não percebe um monte de coisa! Falta noção mesmo, assim, então o esforço é sempre tentar rever essa situação... (Prof.ª Renata/Entrevista).
A aproximação de Renata dos estudos sobre a temática racial lhe permitiu perceber sua pouca sensibilidade em relação ao racismo, atribuindo essa lacuna ao fato de ser branca, afirmando ser “mais difícil quando você é branco para ficar se criticando”, em função da naturalização apregoada pela branquitude sobre a “normalidade” branca, que concede ao indivíduo uma posição confortável na sociedade. No Brasil, essa experiência da “normalidade” isenta de reprovações associadas à aparência fenotípica tende a conduzir os indivíduos brancos a não se atentarem para a experiência do racismo, violência simbólica que não vivenciam, podendo fazer com que, de fato, não percebam muitas coisas, tal como afirma Renata. Daí emana a necessidade de empreender esforços para essa percepção, cuja ação de estudar a temática, somada a convivência com negros, também se mostra de grande valia.