3. Assessment
3.1. Occurrence data
3.1.1. Current occurrence data in food
O triunfo da vontade e Noite e neblina foram idealizados em razão de concepções e propósitos distintos.
O primeiro como um dispositivo de propaganda do Terceiro Reich, “produzido por ordem do Führer” (O TRIUNFO da vontade, 1935) – conforme esclarece a legenda no início do filme – com a intencionalidade de registrar a história dos primeiros anos do Partido Nazista.
O segundo, de acordo Jean Cayrol, como “um dispositivo de alerta” (NOITE e neblina: uma introdução, s. d., p. 6) quanto às atrocidades que tiveram lugar nos campos de concentração durante o regime nazista. A sua realização deveu-se a uma encomenda do Comitê de História da Segunda Guerra Mundial ao diretor Alain Resnais, com a intencionalidade de gerar uma espécie de testemunho sobre os fatos dolorosos do holocausto, naquela feita ainda recentes.
Mais de sete décadas após o lançamento de O triunfo da vontade, ainda persistem as suas qualidades de registro histórico e de instrumento de percepção da dimensão política do Reich naquele momento. Embora não mais sirva para os propósitos iniciais de informação às futuras gerações herdeiras do regime, ele ainda hoje carrega potencial para angariar simpatias quanto à doutrina que, como um vulcão adormecido, pode voltar a se manifestar em movimentos neonazistas.
Essa é uma das razões pelas quais o filme permanece banido da Alemanha, onde grupos conservadores demonstram, a partir de movimentos de caráter xenófobo, a intolerância com minorias de origem imigrante que parecem destinadas a ser consideradas eternamente estrangeiras.
Grosso modo, o sentimento de pertencimento é tomado na perspectiva de crença numa origem comum ou pela existência de símbolos, valores, medos e aspirações, dentre outros vínculos, que unem indivíduos. Este sentimento pode se fundamentar em características culturais e raciais e nos aspectos de familiaridade e de filiação, conforme Cyrulnik. Em O
triunfo da vontade, a noção de filiação, como representação psíquica e social, foi determinante e se espraiou no contexto cultural e político.
Aliou-se a esta noção uma concepção arbitrária – justificada por suspeitos indicadores científicos de superioridade racial – para diferenciação dos indivíduos e como argumento para a sua estratificação em camadas sociais, estruturadas por forte princípio hierárquico. No contexto nazista, as vinculações também se sujeitavam aos processos de apego e de aceitação difundidos por representações.
Cyrulnik (1995, p. 72) sustenta que
os relatos são compostos de proibições que bloqueiam certos comportamentos, de regras que favorecem outros, de lendas que criam impressões, de mitos que dão sentido e de símbolos que transformam as coisas em signos. Isso significa que os romancistas, os cineastas, os artistas, os ensaístas e outros criadores de mitos são responsáveis pelo mundo que nos rodeia.
Assim sendo, o filme de Riefenstahl situa-se entre as representações constituídas pelo Reich com o intuito de favorecer aos processos de apego e aceitação do regime e, por outro lado, de justificação indireta das barbáries cometidas em defesa do mesmo.
Para espectadores capazes de adotar atitudes de distanciamento e crítica, O triunfo da Vontade vem se configurando ao longo da sua existência num aparato antinazista e em fonte fecunda de indicadores das patologias relacionadas à noção de pertencimento, de concepções degeneradas de humanidade e de relação com o poder; muito embora só recentemente ele tenha sido readmitido no circuito cultural.
Como a intencionalidade na criação de uma representação pode resultar em efeito contrário ao pretendido conforme o discernimento de quem assiste, o que foi pensado como fonte de influência e inspiração da doutrina nazista pode resultar em reserva e repulsa e, desta maneira, O triunfo da vontade torna-se tão eficaz como dispositivo de alerta quanto Noite e neblina.
O filme de Resnais constitui-se uma representação “do horror do assassínio massivo, a sobrevivência e a morte, o tempo que passa e o desafio da memória, mostrando claramente a especificidade do fenômeno concentracionário” (NOITE e neblina, s. d., p. 5) da perseguição nazista aos judeus. Tais fatos representavam uma vergonhosa lembrança tanto para aqueles que, protegidos pela justificativa pacifista, demoraram a tomar posição diante dos acontecimentos; como também para os judeus que conviviam com sensação da existência de um espectro ainda ameaçador.
A sua atualidade é indiscutível. Para Paulo Cunha (s. d.), ela se deve a dois fatores. Primeiro, ele destaca que “a idéia por trás de Noite e neblina [...] é que ele trata de um problema seríssimo [...], o problema do holocausto”. Ele ressalta também que, a rigor, “o filme trata do problema da intolerância e de como em certas ocasiões da história a intolerância atinge ares de sofisticação [...] que são impensáveis”.
A intransigência e o desprezo pelo outro, não raramente manifestos em fenômenos contemporâneos, resultaram no desespero das vítimas e em marcas profundas, traumas irremediáveis e angústia naquelas que sobreviveram a tal condição extrema de desumanidade. Mais que sobreviventes, tais vítimas são resilientes, ou seja, de acordo com Cyrulnik, sujeitos e capazes de desenvolver mecanismos de superação e convivência com traumatismos psíquicos e emocionais. E ele fala com propriedade sobre este conceito que desenvolveu, uma vez que é, ele próprio, sobrevivente de um campo de concentração.
A força da representação de Resnais encontra-se na dimensão humana. O cenário vazio das imagens produzidas em 1955 cria uma metáfora fortíssima da ausência daqueles que tiveram suas vidas ceifadas em decorrência de uma patologia de pertencimento e da sede de poder de homens sobre homens, camuflado pelo argumento de um nacionalismo doentio. Assim sendo, pode-se pensar Noite e neblina como reverência à memória das vítimas ausentes, enquanto O triunfo da vontade revela-se um culto aos seus algozes.
São claro e escuro de um mesmo objeto que comporta inúmeras facetas ainda a serem reveladas e cujo entendimento encontra-se em processo. Este entendimento é fundamental para se tecer analogias com fenômenos de distintas grandezas, próximos ou distantes, que espetacularmente transmitidos nos nossos dias, podem ter seus sentidos esvaziados e banalizados pela familiaridade e recorrência.
Ao que tudo indica, a sociedade assiste hoje, de vigília baixada e muitas vezes indiferente, às invasões de territórios autônomos sob falsos pretextos, ao acirramento das intransigências entre judeus e muçulmanos, à violência neonazista, ao espancamento de domésticas confundidas com prostitutas – como se fosse natural e legítimo se espancar prostitutas, à morte de mendigos atacados de surpresa e à queima de índios indefesos, dentre outras intolerâncias e contradições da contemporaneidade.
3.2.2 Fixação e revisão das crenças do espectador: o controle pelo medo e