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1. Introduction

1.3. Additional information

No começo era o nada e Deus ordenou: Faça-se a luz! Não satisfeito, fez o homem à sua imagem e semelhança para, de certa maneira, representar-se. Deu-lhe voz para expressar- se, deu-lhe movimento e imaginação para deslocar-se, deu-lhe intuição para perceber e talento para criar. Esta é uma representação, concebida pela crença, imaginação e intencionalidade do homem e uma versão possível da gênese, dentre tantas outras.

O filósofo crítico e pensador da “razão logopática” (CABRERA, 2005, p. 12) Arthur Schopenhauer (2001, p. 9), sustenta:

O mundo é a minha representação. – Esta proposição é uma verdade para todo ser vivo e pensante, embora só no homem chegue a transformar-se em conhecimento abstrato e refletido. A partir do momento em que é capaz de o levar a este estado, pode-se dizer que nasceu nele o espírito filosófico. Possui então a inteira clareza de não conhecer nem um sol nem uma terra; em uma palavra ele sabe que o mundo que o cerca existe apenas como representação, na sua relação com um ser que o percebe, que é o próprio homem.

A palavra representação, conforme esclarece Jacques Aumont e Michel Marie (2003, p. 255-256),

designa sempre uma operação pela qual se substitui alguma coisa (em geral ausente) por outra, que faz as vezes dela. Esse substituto pode ser de natureza variável: uma imagem (representação pictórica, fotográfica, cinematográfica), uma performance em um palco (representação teatral) etc.

Para cada indivíduo, a percepção das representações, em razão do princípio da limitação e de toda individuação, está sujeita aos pontos de vista, à experiência e à consciência de cada um na sua singularidade. Esta é uma acepção utilizada por Arthur Schopenhauer, para quem a experiência interna permite que o sujeito se mova e se expresse conforme a sua vontade.

As idéias, por sua vez, ao contrário das representações, não se submetem ao referido princípio, permanecendo, para Schopenhauer (2001, p. 177), “estranhas à esfera do conhecimento do sujeito”. Segundo ele, “a idéia não é integral, mas apenas condicionalmente comunicável” (SCHOPENHAUER, 2003, p. 176).

Ao sustentar que a idéia é apenas “condicionalmente comunicável”, Schopenhauer concebe a revelação desta como uma experiência proporcionalmente sujeita ao valor do espírito que a contempla. Também a toma como um germe do presente que pode contaminar e que expressa a essência do objeto de modo intuitivo, concreto e nunca é possível de conhecimento pleno.

Por ser expressão concreta, a idéia é, por natureza, apresentada por qualquer objeto de conhecimento singular, individual, concebido pela intuição e passível de ser captado pelos sentidos. Revelando-se apenas em conformidade com o nível de percepção do sujeito1, será,

para alguns, sempre um enigma e, para outros, uma fonte inesgotável.

Nessa perspectiva, a idéia percebida pelo sujeito comporta diferentes representações, podendo haver incidência e reincidência de abordagem de uma mesma idéia, dado o seu caráter de permanência no tempo e uma vez que ela traz em si o germe do qual podem resultar novas idéias. Schopenhauer (2001, p. 247) defende que a idéia “é como um organismo vivo, que cresce prolífico, capaz, em uma palavra, de produzir aquilo que não se introduziu lá”.

1 O conceito de sujeito refere-se àquele que é dotado de “capacidade autônoma de relações ou de iniciativas, capacidade que é contraposta ao simples ser ‘objeto’ ou parte passiva de tais relações” (ABBAGNANO, 2003, p. 930). Ou, ainda, como “o eu pensante, consciência, espírito ou mente enquanto faculdade cognoscente e princípio fundador do conhecimento” (HOUAISS, 2001, p. 2635). Ambas definições citadas consideram o sujeito por oposição ao objeto.

Dessa forma, a idéia é capaz de fomentar percepções não necessariamente conscientes no ato da concepção de um objeto e encontra-se num continuum intersemiótico.

A acepção de continuum utilizada por Ibri (2006c, p. 3) e adotada aqui se refere ao processo no qual

ocorrências, ações constituem, elas mesmas, instâncias interpretativas, de tal modo que se possa considerar, sob o plano da significação, um continuum entre o particular e o geral, num processo indefinidamente infinito no qual instauram-se novas mediações ou se reforçam mediações eficientes, isto é, aquelas que subsidiam o agir racional.

A ação racional se pauta no conceito. Este, por sua vez, diferentemente da idéia, é uma representação pura e abstrata que tem por objetivo identificar, descrever e classificar os objetos ou fenômenos de dada realidade. Ao identificar, descrever e classificar ele se torna processo mental, ou seja, conhecimento pautado pelo princípio da razão e resulta na quebra da surpresa; torna-se, portanto, poder de adivinhação. Schopenhauer (2003, p. 175-176) assim o caracteriza:

O conceito é abstrato, discursivo, completamente indeterminado no interior de sua esfera, determinado apenas segundo seus limites, alcançável e apreensível por qualquer um que possua razão, comunicável por palavras sem ulterior intermediação, esgotável por inteiro em sua definição.

Porém, o conhecimento como processo mental pode esbarrar, em razão da imprecisão do aparelho perceptivo, na impossibilidade ou na falha de previsão. Também, por ser impreciso o aparelho perceptivo, nenhuma proposição dele resultante envolve cem por cento de certeza. Por outro lado, a imprecisão do conhecimento se relaciona à inexistência de determinação no mundo, que contém o princípio de liberdade do acaso.

E o que o livre faz? Para Charles Sanders Peirce (apud IBRI, 1992, p. 10), “livre é aquilo que não tem o outro atrás de si determinando suas ações”. A resposta possível a essa pergunta, conforme Ibri, é, então, que o livre tem comportamento indeterminado e, portanto, sua atuação é imprevisível.

Na perspectiva do pragmatismo peirciano, o significado de uma idéia, de um objeto, de um signo é a totalidade das conseqüências práticas que o conhecimento de tal idéia, objeto ou signo acarreta, assim, os índices percebidos pelo sujeito cognoscente que os observa influenciam conduta. Tais índices revelam padrões de comportamento e fundamentam os

conceitos que tratam da realidade, da existência, e são capazes de afetar, reafirmar ou mudar o modo de proceder daqueles que os conhecem.

Além dos padrões que ancoram o conhecimento, Peirce (ibidem), afirma que o mundo está cheio do que é assimétrico, espontâneo, singular, errático. Dessa maneira, o mundo é composto também de diferenças e singularidades que não podem ser nomeadas como aquilo que é padrão.

Tais padrões expressam características e circunstâncias conhecidas, dão conta das classes, do que é possível ver, do que pode ser generalizado. Sendo passíveis de conhecimento, os padrões podem ser convencionados e nomeados pela linguagem, tomada como meio de comunicação e de expressão daquilo que está dado à experiência. Portanto, é o sujeito do conhecimento que colhe os dados que atendam à sua questão no universo da multiplicidade experiencial, da infinidade de sensações vivenciadas, segundo o seu aparelho perceptivo e os seus critérios de relevância.

A percepção das idéias, por sua vez, promove uma reparametrização resultante da interação entre o sujeito e o mundo. Tal percepção exige desarme do conceito, do saber e da mediação. Ela requer outro grau de interação com o objeto ou fenômeno, requer uma postura a partir da qual o sujeito em contemplação permite-se a descoberta. Nessa esfera da contemplação, o pensamento é lúdico, imaginativo, ele joga; portanto, encontra-se, conforme o entendimento de Ibri (2006c), em meio a um “comércio de signos”.

As trocas e influências no processo semiótico dão-se, conforme o biossemioticista Jacob Von Uexküll (cf. UEXKÜLL, 2004, p. 25), num continuum no qual as observações “são interpretações de outras interpretações – ou seja, meta-interpretações”, sendo também que os modos de percepção do conhecimento neste primeiro são plurais e variáveis, resultando em ciclos de estabilidade.

Assim, àqueles objetos que se reapresentam ciclicamente e revelam suas características por meio de comportamento regular, portanto identificável, pode-se prever a sua conduta com base nos índices que eles emitem.

Ademais, quando os padrões são identificáveis a partir da regularidade do objeto, dizemos que ele se encontra, conforme a semiótica peirciana, na esfera da terceiridade, a partir da qual é possível determinar modelos ou padrões passíveis de serem reproduzidos em simulacros ou em objetos semelhantes. A terceiridade, portanto, é pautada na racionalidade que torna possível a mediação e o conhecimento, enquanto a primeiridade, categoria do impacto de percepção inicial, caracteriza-se pela intuição da idéia.

Schopenhauer (2001, p. 222) sustenta que os graus de representação das idéias são comparáveis às notas de uma orquestra, cotejando a intensidade das primeiras às notas profundas ou abafadas, conforme sua condição em exprimir essência. Esta última é da categoria da primeiridade para Peirce, sendo possível ao espectador observar, mesmo em objetos artificialmente elaborados, propriedades desta categoria na matéria neles utilizada.

Essas propriedades são fundamentais nos processos de criação e de fruição da arte, nos quais a intuição tem papel relevante.