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3. Assessment

3.4. Critical effects, dose – response assessment and derivation of a health-based guidance value

3.4.1. Critical effects

Apesar de possuir uma atmosfera Sci-fi, falando de extraterrestres que invadem a terra, Sinais é um filme de tremenda originalidade. A trama do filme não revolve em torno da humanidade, lutando por sua sobrevivência – o que seria o chavão – mas sim, sobre um núcleo familiar lidando com o desconhecido. O roteiro opera sobre quatro personagens, seus relacionamentos, medos e afetos diante da realidade que lhes é imposta. O verdadeiro tema do filme é a fé. Toda a situação narrativa é arquitetada de forma a questionar se existe realmente uma ordem metafísica que zela e dá sentido para vida das pessoas, ou se é tudo obra do acaso.

O protagonista do filme é Graham. Um pastor cristão que perdeu a fé depois da morte acidental da esposa. O abandono da fé deriva da problemática já discutida da morte. Diante dela, Graham não encontrou sentido. Ficou a vislumbrar o caos, o acaso do acidente, e parou de acreditar em Deus, o promotor da ordem cósmica na perspectiva do personagem. Sua separação da fé é uma ruptura trabalhada logopaticamente de forma a indicar uma cicatriz dolorosa na vida de Graham. Em seu quarto, vemos uma marca de bolor e poeira na parede. A marca se formou ao redor de uma Cruz, símbolo da fé, que foi retirada dali, deixando para traz os resquícios dolorosos e inapagáveis de sua passagem.

No meio do filme, ao observar as primeiras naves espaciais notificadas na televisão, Graham e seu irmão Merrill estão tremendamente assustados. Graham então diz:

“Pessoas podem ser divididas em dois grupos. (PAUSA) Quando elas experimentam algo fantástico, as pessoas do grupo número um (1) vêem o ocorrido como mais do que sorte, mais do que coincidência. Elas o vêem como um sinal, uma evidência de que existe alguém lá em cima, tomando conta delas. O grupo número dois (2) vê o ocorrido como pura sorte, um

103 resultado feliz do acaso. Eu estou certo que as pessoas do grupo dois estão olhando estas catorze luzes de forma muito suspeita. Para eles, a situação é cinqüenta - cinqüenta. Pode ser ruim, pode ser boa. Mas lá no fundo, eles sentem que, independentemente do que aconteça, eles estarão sozinhos. E isso os enche de medo. (PAUSA) Sim, existem estas pessoas. Mas também, existem muitas pessoas do grupo um (1). Quando elas vêem estas quatorze luzes, elas estão olhando para um milagre. E lá no fundo, elas sentem que, independentemente do que aconteça, haverá alguém lá para ajudá-las. E isso as enche de esperança. O que você tem de perguntar a si mesmo é que tipo de pessoa é você? Você é do tipo que vê sinais, milagres? Ou você acredita que as pessoas simplesmente tem sorte? Ou veja a pergunta desta forma: É possível que não hajam coincidências?”

Tudo nos leva a crer que Graham é um homem que se considera pertencente ao grupo (2). Conforme Graham nos foi apresentado, ele é um homem que se tornou incapaz de crer na existência de sentido. Sem sentido, a vida opera na ordem do medo. Aqueles que crêem –as pessoas do grupo (1)- encontram sentido, contemplam uma organização metafísica do universo que lhes garante um lugar, um significado. Fato que não lhes traz medo, mas esperança.

Se a morte de sua esposa significou para Graham a prova de que não há uma ordem escatológica, o mesmo fato é sabiamente trabalhado por Shyamalan de forma a se constatar, nele, a existência desta ordem.

Através de uma série de flashbacks, espécie de pesadelos do protagonista, vemos a noite em que, retornando da igreja, Graham encontra com uma patrulha policial interditando a estrada que o conduziria até sua casa. Graham é informado por uma policial que a sua esposa estava envolvida no acidente. Ela foi atropelada por um motorista sonolento, que a prensou com seu carro contra o tronco de uma árvore. Ela ainda estava viva, mas a morte viria logo e era inevitável. Atônito, Graham é lavado à esposa. Eles tem um último diálogo. Ela dá

104 recomendações para Graham com relação aos filhos e, quando parece já não ter mais forças, com sua voz fraca e inconsistente, ela suspira diante do marido suas últimas palavras:

“Diga a Merill que veja... E rebata...”

Graham interpretou a frase como sendo um lapso celebral, uma conseguência da pane que seu sistema nervoso corrompido teria produzido. Ouvindo as palavras da esposa, Graham viu o mal, viu a morte, a finitude, lançou seu pensamento ao paradigma do acaso, a falta de sentido. Esta frase dita pela esposa de Graham toma, contudo, outra conotação no final do filme.

Na cena final, quando Graham vê toda sua família ameaçada pelo extraterrestre, ocorre a virada epistemológica do roteiro, o momento em que a inefabilidade logopática opera, amarrando toda narrativa no clímax do filme. O mesmo motivo que o fizera abandonar a crença, é o motivo que o faz retornar a ela. Graham – e o espectador – descobrem que tudo o que aconteceu obedecendo uma arquitetura perfeita. A decupagem de Shyamalan contribui com esta arquitetura, revelando em planos detalhe o bastão de baseball, os copos de água, e o nariz do filho. Estes planos, feitos com um travelling ou zoom-in para priorizar os assuntos, funcionam como as peças operam logopáicamente de forma a gerar o conceito-imagem da ordem escatológica do mundo. O filho tinha asma, então o veneno do extraterrestre não o poderia matar. A criatura era sensível a áqua42 e haviam copos dágua deixados por sua filha em todo o ambiente, havia uma maneira de vencê-la. Merril era um rebatedor que só sabia bater forte, e ao seu lado, pendurado na parede estava o bastão.

Graham, o descrente, que a pouco havia negado compulsivamente ao filho o direito de orar, agora diz ao irmão:

“Merril, rebata!”

42 A água é um símbolo narrativamente importante e recorrente na obra do diretor. Já a vimos como o ponto- fraco do protagonista de “Corpo fechado” e como a origem do mundo mitológico em “A dama na água”.

105 Graham está afirmando sua percepção do milagre. Deixa-se tomar pela cadeia de eventos que determinam a não existência de coincidências, mas uma ordem escatológica organizada. Se até então o filme operava na ordem do medo – muito bem trabalhada logopaticamente em cenas como a da perseguição noturna no milharal, a da faca utilizada como ferramenta de reflexo para expiar o monstro por debaixo da porta e a da escuridão total no porão - encontramos repouso no fato de que há ordem. A ordem, enquanto estrutura geradora do sentido, produz paz. Depois que a platéia vislumbra a arquitetura da cena final, para de ter medo, é tomada de esperança. Sabe, lá no fundo, que tudo acabará bem. A narrativa logopática conduz o expectador da condição do grupo (2), os que tem medo, para o grupo (1), os que tem esperança. O público passa por uma experiência pática da visão de