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Critique  of  Research  Design  and  Limitations  of  Study

3   Methodology

3.9   Critique  of  Research  Design  and  Limitations  of  Study

Atualmente, a resiliência é um conceito complexo que se apreende, metaforicamente, a partir da ciência dos materiais. Devido à disseminação do conceito em outras áreas científicas, foram agregados um conjunto de significados e de perspetivas que importa clarificar, no sentido de compreender os contornos da resiliência das organizações, nomeadamente, em relação a outras áreas contíguas, tais como o conceito de Continuidade Operacional.

Devido às inúmeras perspetivas e aplicações do termo “resiliência”, na época em que este trabalho de revisão bibliográfica foi realizado, vários autores consideravam que a resiliência representava um conceito polissémico resultante da sedimentação interdisciplinar ocorrida ao longo do tempo. Esta questão levantou especificidades conceptuais que poderiam pôr em causa a pertinência heurística e operacional do conceito, pelo que, o mesmo requer uma clarificação de modo a apresentar uma sustentação teórica que permita garantir o rigor metodológico (Djament-Tran et al., 2012). Uma das questões abordadas por estes autores diz respeito à relação da resiliência com a noção de temporalidade. Com efeito, os autores sugerem que a resiliência pode ser analisada em função de duas perspetivas distintas; uma perspetiva diacrónica e uma perspetiva acrónica22.

Numa perspetiva diacrónica, a resiliência é simultaneamente um processo, de acordo com UN/ISDR (2005) e um estado (Robert et al.). Referir que o sistema foi resiliente significa que ele teve a capacidade de manter/suportar ou restabelecer/superar a crise resultante do impacto de um choque,

de modo a continuar a exercer as suas funções sem perder a sua identidade. Nesta perspetiva, a resiliência é considerada um processo dinâmico, pautado por temporalidades e ritmos próprios que é importante considerar, nomeadamente o tempo de retorno de um sistema a uma situação de normalidade ou de nova normalidade após a ocorrência de um choque (Djament-Tran et al., 2012). Numa perspetiva acrónica, a resiliência é perspetivada como uma propriedade, uma qualidade ou uma capacidade intrínseca que se manifesta no momento do choque, mas que já existia anteriormente de forma latente no sistema. Neste caso, a relação com o tempo é diferente, a resiliência preexiste ao choque, ela é potencial e é revelada pelo próprio choque. De acordo com Djament-Tran et al. (2012) perspetivar a resiliência como uma qualidade significa que ela pode ser inata ou adquirida. Estes autores referem ainda que, apesar de estas duas perspetivas se encontrarem por vezes interligadas, normalmente elas refletem conceções teóricas diferenciadas que reforçam a polissemia do conceito. Apesar de não ser nossa intenção aprofundar este debate, consideramos que uma revisão das principais teorias da resiliência se mostra relevante, no sentido de abordar quatro dimensões diferenciadas que mobilizam e operacionalizam o conceito.

A literatura sugere que o conceito de resiliência tem evoluído, a partir do conceito de vulnerabilidade, por sucessivos alargamentos setoriais (Koninckx & Teneau, 2010). Tal alargamento tem contribuído para o desenvolvimento de quatro grandes áreas científicas de base: o desenvolvimento dos materiais; o desenvolvimento humano; o desenvolvimento ecológico; e o desenvolvimento sócio-ecológico. No âmbito do desenvolvimento sócio-ecológico, a resiliência expandiu-se em diversas áreas relacionadas com dinâmicas de transformação social, nomeadamente orientadas para a sustentabilidade, a gestão de eventos extremos e suas consequências ambientais nos territórios, sejam eles Estados, comunidades ou organizações.

Partindo deste princípio orientador, a nossa intenção é compreender o padrão da resiliência nas várias dimensões científicas e contextos onde ele foi desenvolvido, com vista a operacionalizar o conceito.

2.5 A dimensão da resiliência dos materiais

A literatura é unânime em reconhecer que o conceito de resiliência foi apropriado metaforicamente por outras áreas para se referir ao fenómeno que é literal na ciência dos materiais. Porém, o domínio do conceito de resiliência que permitiu alavancar a civilização industrial e tecnológica, tal como chegou até aos nossos dias, levou séculos de incubação. No âmbito desta ciência, a resiliência é definida, de uma forma linear, como sendo a propriedade mecânica de um material23 que tem “a

capacidade de absorver e libertar energia de deformação por unidade de volume, desde um estado com ausência de carga até à sua tensão de cedência” (Callister, 2002, p. 90). Por outras palavras, aquilo a que se chama resiliência é a energia armazenada nas ligações dos átomos de uma estrutura elástica, quando o material é submetido a uma tensão. Basicamente, o que existe é uma estrutura que tem a possibilidade de armazenar/acomodar energia de uma tensão externa. Essa matéria, representada em materiais diversos, estásujeita a receber choques do ambiente. Por conseguinte, a resiliência permite conhecer a resposta de um material submetido a uma tensão, de modo a introduzir processos de otimização e de inovação (Fournier, 1999).

Historicamente, o estudo da resiliência remonta à Grécia Clássica, com o estudo da resistência e da estática. Todavia, por não possuírem um conhecimento suficientemente profundo sobre as deformações dos materiais, os estudiosos gregos não tiveram a oportunidade de desenvolver o conceito (Bento, 2003). É o advento da Revolução Científica, no séc. XVI, que marca uma mudança paradigmática ao romper com uma visão orgânica do mundo, isto é, com uma visão medievalista, baseada em Aristóteles e na Igreja Romana, para dar lugar a uma visão mecanicista do mundo centrada num novo tipo de abordagem empírica e matemática que permitirá o nascimento da ciência moderna (Kuhn, 1967).

A literatura apresenta Galileu (1562-1642), como sendo o percursor da emergência da ciência dos materiais, uma vez que foi o primeiro autor a formular, na obra intitulada Dialoghi dell due nuove

scienze, de 163824, uma explicação para o comportamento e as propriedades de alguns corpos

submetidos a cargas, no âmbito da resistência dos materiais, do estudo do movimento e da estática. Anos mais tarde, Isaac Newton (1642-1727) formulou o princípio da ação e da reação, também conhecido por 3.ª lei de Newton, se um objeto exerce uma força sobre um outro objeto, então este outro objeto exerce uma força da mesma intensidade, na mesma direção, mas em sentido oposto. Não obstante, tais leis não explicam as forças de reação intrínsecas dos materiais (Timoshenko, 1983). Como é sabido, a ciência evolui com perguntas. Relativamente à resiliência, a pergunta que foi colocada foi, basicamente, “como e por que uma estrutura resiste aos choques?”. Estas questões de investigação seriam respondidas por Robert Hooke25 (1679) ao enunciar, no tratado intitulado De

potentia restitutiva, a lei da elasticidade, segunda a qual as forças deformantes são proporcionais às deformações elásticas produzidas. Observando o comportamento mecânico de uma mola, Hooke descobriu que as deformações elásticas obedecem a uma lei muito simples: quanto maior for o peso de um corpo suspenso numa das extremidades de uma mola cuja outra extremidade se encontre presa

24 Depois de escapar à fogueira. 25 Robert Hooke (1635-1703).

a um suporte fixo, tanto maior será a deformação traduzida pelo aumento de comprimento sofrido pela mola (Charmet, 1980).

Hooke foi o primeiro autor a apreender a relação existente entre uma força aplicada a um corpo e a deformação elástica que daí resulta. Baseado no método empírico, ele estudou de forma pragmática o efeito de forças sobre diferentes materiais (1660), realizando experiências numa variedade de materiais como arames, molas metálicas e barras de madeira, sujeitando-os a forças aplicadas progressivamente, tendo também medido as deformações produzidas (Callister, 2002). Embora fosse expectável que os trabalhos de Hooke pudessem ter contribuído, de uma forma mais rápida, para o desenvolvimento do estudo dos materiais, foi necessário esperar mais de cem anos para Thomas Young introduzir o conceito de resiliência (Timoshenko, 1983).

2.5.1 Breve referência da avaliação da resiliência dos materiais

Embora o conceito de resiliência estivesse identificado, carecia de um formato específico para ser quantificado. Foi o matemático Henri Navier (1785-1836) quem formulou matematicamente os conceitos desenvolvidos por Young, baseado nos conceitos de constrangimento e de deformação formulados anteriormente por Auguste Cauchy. Estavam, desta forma, lançadas as bases para empreenderem a resolução analítica dos problemas de cálculos das estruturas26. Se, por um lado, as

bases para a resolução de alguns problemas de cálculos estavam lançadas, por outro lado, as questões relacionadas com a resposta dos materiais face a choques careciam de processos de experimentação e de avaliação.

Em 1897, Russell publica um artigo no American Society of Civil Engineers: "Experiments with a New Machine for Testing Materials by Impact", onde é referida a necessidade de medir a força residual necessária para obter a rutura de um material (Siewert & Manahan, 2000). Com efeito, em 1897, o francês Frémont propôs uma máquina na qual a força de rutura é medida através de uma mola. Contudo, é George Charpy, em 1901, que concebe uma máquina com determinadas características, designada por teste Charpy, que se destinava a classificar os materiais (em particular os metais) em função da sua resiliência, ou seja, da capacidade de um material armazenar a energia quando sofre uma deformação elástica e de libertar essa energia quando a carga de impacto é retirada (Pineau, 2001). Este autor refere que o desenvolvimento deste ensaio foi determinante para o desenvolvimento inicial da siderurgia, tendo encontrado variadíssimas aplicações na construção

naval, no transporte do gás e do petróleo, na industria nuclear e em muitos outros setores industriais e tecnológicos.