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6   Urban  Farming  and  the  Potential  in  Urban  Informality

6.4   Creative  Potential  of  Farming  the  City

Em uma Itália – a do séc. XIX – marcada, acima de tudo, pela total segregação das classes mais pobres, principalmente aquelas que habitavam a Região Meridional, foi uma inovação escrever um romance que falasse dessa gente. Portanto, mais que inovar, o escritor Giovanni Verga, com seu romance I Malavoglia, ousou falar de uma problemática que a classe burguesa hegemônica italiana preferia renegar ao esquecimento.

Dessa forma, o escritor siciliano, nas páginas de seu romance, representa as coordenadas materiais e culturais do ambiente arcaico-rural de uma pequeníssima aldeia de pescadores, afastando-se das narrativas de Gabriele D’Annunzio e Fogazzaro. Enquanto esses autores tratavam dos dramas que afligiam o homem, tematizando o individual, Verga e outros veristas falavam dos aspectos externos da sociedade italiana, de seus conflitos de classe, tematizando o coletivo.

O romance I Malavoglia tem como espaço narrativo a pequena aldeia de Aci Trezza, próximo a Catania, na costa oriental da Sicília.

O protagonista do romance é a família Toscano, melhor conhecida pelo epíteto de Malavoglia. O chefe da família é Padron ‘Ntoni, um velho pescador; depois vêm seu filho Bastianazzo, a esposa dele Maruzza – conhecida como la Longa – e os netos ‘Ntoni, Alessi e Lia.

Os Malavoglia possuem a casa do Nespolo (Nespereira) e um barco -

Provvidenza. Não são ricos, mas têm do que viver. Para melhorar sua condição

do local, para vender fora da aldeia, o que era uma atividade que não condizia com a sua ocupação habitual, já que eram todos pescadores.

O barco naufraga, o carregamento de tremoços é perdido e Bastianazzo morre. Para pagar o débito dos tremoços, os Malavoglia perdem a casa e daí por diante tudo vai de mal a pior: o filho Luca morre como soldado em uma batalha marítima; Maruzza morre de cólera; Padron ‘Ntoni não resiste ao desgosto de ver o neto ‘Ntoni se transformar em um vagabundo alcoolizado. O rapaz irá para a prisão e sua irmã Lia fugirá de casa. Uma vez morto o avô, a família terá seu fim.

O esfacelamento da família, com o desaparecimento de seus pilares, é uma antecipação do que ocorrerá no final do século XIX, tema presente no Decadentismo, sob um outro prisma e de fundamental importância para a narrativa que se instaura na Itália, principalmente, nas primeiras décadas do século XX.

Da teoria da evolução de Darwin, Verga tira o conceito da luta pela sobrevivência, como base do desenvolvimento da história humana. Nesta luta serão os mais fracos a perecer.

A família compra os tremoços, na intenção de vendê-los fora da aldeia. Mas, por causa de uma tempestade, o barco naufraga e Bastianazzo morre. Quando o barco parte, com o auspicioso carregamento, a descrição da atmosfera que acompanha a morte de Bastianazzo está de acordo com a ótica darwiana. A desgraça parece quase que anunciada, até mesmo os sinais da natureza a antecipam. Fica óbvio que a empresa da família Malavoglia não será bem sucedida, porque estão fadados à pobreza. Os meios dos quais dispõem para realizar seus objetivos são escassos perante as forças poderosas do destino imutável:

La Provvidenza partì il sabato verso sera, e doveva esser suonata l'avemaria, sebbene la campana non si fosse udita, perché mastro Cirino il sagrestano era andato a portare un paio di stivaletti nuovi a don Silvestro il segretario (....) Maruza colla bambina in collo se ne stava sulla riva, senza dir nulla, intanto che suo marito sbrogliava la vela, e la Provvidenza si dondolava sulle onde rotte dai fariglioni come un'anitroccola. - Scirocco chiaro e tramontana scura,

mettiti in mare senza paura,' diceva padron 'Ntoni dalla riva, guardando verso la montagna tutta nera di nubi.

Menico della Locca, il quale era nella Provvidenza con Bastianazzo, gridava qualche cosa che il mare si mangiò. 'Dice che i denari potete mandarli a sua madre, la Locca, perché suo fratello è senza lavoro; ' aggiunse Bastianazzo, e questa fu l'ultima sua parola che si udì. 30

A catástrofe é antecipada ao leitor, que a pressagia nas informações articuladas no trecho. Menica della Locca grita algo che il mare si mangiò. Verga utiliza uma metonímia, pois o mar não engolirá somente a voz de Menico, mas a vida de todos.

E quando se refere às últimas palavras de Bastianazzo – e questa fu l’ultima

sua parole che si udì -, ali está a metáfora do momento em que é marcada a sua morte.

O barco, ironicamente chamado Provvidenza, no momento em que parte, não recebe nem mesmo a bênção divina, porque doveva esser suonata l'avemaria,

sebbene la campana non si fosse udita, perché mastro Cirino il sagrestano era andato a portare un paio di stivaletti nuovi a don Silvestro il segretario.

Padron ‘Ntoni, guardando verso la montagna tutta nera di nubi, tenta ludibriar os claros sinais da natureza, com a interferência da certeza-magia de um provérbio - scirocco chiaro e tramontana scura, mettiti in mare senza paura-, que se demonstra ineficaz. O provérbio não tem o poder de mudar os fenômenos da natureza, tampouco o destino da família, já traçado pela cruel lei do determinismo.

No domingo, depois da partida de Bastianazzo para o mar, a família aguardava angustiada pela volta do barco Provvidenza, mas ele havia naufragado. La Longa, esposa de Bastianazzo, não vai à igreja e, mais uma vez o destino, cruelmente traçado, é antecipado pela fala de um personagem:

30

Comare la Longa non ci viene in chiesa, eppure ci há il marito in mare con queso tempaccio! Poi no bisogna stare a cercare perché il Signore ci castiga!31

O trecho denota uma forma de presságio, uma profecia do que está por vir: la Longa será “punida” pela culpa de não ter ido à igreja. Ela morrerá de cólera.

Um tema tratado por Antônio Cândido com relação ao romance é o da ruptura. Embora Verga fale de uma sociedade fechada em si, há uma tentativa de rompimento no romance. Do momento em que padron ‘Ntoni decide vender uma carga de tremoços, fora de sua aldeia, para melhorar a situação econômica da família, ele está tentando romper o círculo vicioso a que estão aprisionadas as suas vidas. Mas a sua decisão termina por ser malograda e, como um castigo, ela se desdobra em nefastas conseqüências: a morte do filho Bastianazzo, a perda da casa do Nespolo, a morte da nora la Longa, a prisão do neto ‘Ntoni, a saída de Lia de casa para viver uma vida sobre a qual ninguém podia, nem mesmo, falar.

O velho patriarca foi contra os seus próprios princípios de jamais tentar a sorte, de suportar passivamente a pobreza e de praticar somente a profissão que desde sempre praticara – Fa il mestiere che sai, che se non arricchisci, camperai32 -, por isso

pagou caro. Quando soube da morte do filho Bastianazzao, o seu atordoamento era enorme, porque além de ter perdido o filho, havia perdido também a carga de tremoços. Mas ele era um homem de palavra e deveria pagar o débito que tinha com Zio Crocifisso. Mesmo sabendo que dificilmente o conseguiria, ele tentou e, com isso, levou com ele toda a família para a ruína.

Lia e ‘Ntoni são transgressores porque, mesmo contra suas vontades, tomam outros caminhos, diversos daqueles percorridos desde sempre por seus familiares. Mas padron ‘Ntoni não é menos transgressor, do momento em que tenta fraturar a mesmice de suas vidas: ele deseja fazer algo diferente daquilo que de costume faziam.

O rompimento, porém, não se dá para sempre, porque o retornar dos problemas e de suas mesmas soluções é inevitável. Alessi, o neto mais novo, consegue

31

Giovanni Verga. 1980, 1983. p.44

32

reaver a casa do Nespolo, onde dá início a uma nova família, retomando a corrente que havia sido interrompida por seu avô.

Um importantíssimo tema no romance é o efeito que o progresso produz sobre as pessoas mais simples e a sua incapacidade de se defender desse mesmo progresso.

Eles não entendem a maior parte das inovações que são introduzidas em suas vidas. Pensam que os fios do telégrafo levam embora a chuva. Esse trecho reproduz a conversa que as pessoas improvisam no quintal da casa dos Malavoglia:

(....)Che non lo sapevano che il telegrafo portava le notizie da un luogo all'altro; questo succedeva perché dentro il filo ci era un certo succo come nel tralcio della vite, e allo stesso modo si tirava la pioggia delle nuvole, e se la portava lontano, dove c’era bisogno; potevano andare a domandarlo allo speziale che l’aveva detta; e per questo ci avevano messa la legge che chi rompe il filo del telegrafo va in prigione.33

Têm medo das cartas com insígnias, porque não sabem ler e não conseguem entender por qual misterioso poder uma folha de papel, com desenhos em cima, possa mudar suas vidas. É o que acontece quando eles recebem uma carta que pede a casa do Nespolo como pagamento da dívida dos tremoços:

Pure qualche cosa bisognava fare, perché quella carta bollata, posata sul canterano, avevano inteso dire, si sarebbe mangiato il canterano, la casa e tutti loro. 34

Poderia parecer que esta explicação sobre a chuva e os fios do telégrafo, o medo dos papéis com insígnias seriam um motivo caricatural, uma maneira pungente e satírica de mostrar a ingenuidade e ignorância daquele povo. Mas não é assim. Alberto Cirese35 diz que

33 Giovanni Verga. 1980, 1983. p. 57 34 Idem, p. 83 35

Molti poeti dialettali hanno tale atteggiamento facilmente critico: introducono il popolo credulo e immaginoso sulla scena, come fosse un bambino, per sorriderne dietro le quinte. Nel Verga c’è invece un’altra allegoria: accomunare gli ignoranti ai saputi, ché tutto nel mondo è ignoranza, e il mistero è un altro dei bei regali che il destino ha fatto all’umanità.

E ainda para ilustrar a temática da ingenuidade daquele povo, transcrevemos o trecho em que eles falam sobre a crença popular que atribui a responsabilidade da epidemia da cólera a untori. Ou seja, pessoas contaminadas untariam os lugares por onde passavam com gotas da doença. Esse tema nos reporta à questão da peste, no romance I Promessi Sposi, de Manzoni.

(....) ma ci pensò dopo, che uno sconosciuto, il quale pareva stanco anche lui, poveraccio, c'era stato seduto pochi momenti prima, e aveva lasciato sui sassi delle gocce di certa sudiceria che sembrava olio. Insomma ci cascò anche lei; prese il colera e tornò a casa che non ne poteva più, gialla come un voto della Madonna, e colle occhiaie nere (....)36

O povo é contrário a todas as inovações, por medo e desconfiança. Não são retrógrados no sentido político, porque nem mesmo sabem o que seja a política. É interessante quando o próprio Verga, na introdução do romance, fala da fiumana del

progresso, ele afirma que

Quando si conosce dove vada questa immensa corrente dell'attività umana, non si domanda al certo come ci va. Solo l'osservatore travolto anch'esso dalla fiumana, guardandosi attorno, ha il diritto di interessarsi ai deboli che restano per via, ai fiacchi che si lasciano sorpassare dall'onda per finire più presto, ai vinti che levano le braccia disperate. 37

36

Giovanni Verga. 1980, 1983. p. 190

37

O observador que assiste a este triste espetáculo é, obviamente, o escritor, que

non ha il diritto di giudicarlo, ma rendere la scena nettamente, coi colori adatti, tale da dare la rappresentazione della realtà com'è stata, o come dovrebbe essere.38

Como verista, ele não quer se expor; não quer cair no artifício. Os personagens verguianos agem, mas Verga não os mostra no ato de pensar. Os fatos são um pouco obscuros, porque o leitor não tem um guia para o auxiliar no julgamento.

O Verismo tinha por finalidade a representação de um fato humano que realmente acontecera. A história da família Malavoglia, mesmo não sendo verdadeira, é seguramente verossímil e muito bem situada no momento histórico dos primeiros anos da unificação do Estado Italiano.

Os personagens que habitam o micro universo de Aci Trezza estão dispostos de forma a representar muito bem o esquema social vigente naquele período. Esquema que vem se repetindo através dos tempos, em muitas outras sociedades. Contra padron ‘Ntoni está uma casta agrária de parasitas, usurários, improdutivos, representada por zio Crocifisso. Don Silvestro é o secretário da prefeitura, portanto, o representante da casta administrativa. Ele é um corrupto, que enriquece com todo tipo de falcatruas. Padron Fortunato Cipolla possui terras, nas quais não trabalha e barcos de pesca, para os quais se utiliza de homens que trabalham por uma diária. Piedipapera é atravessador, faz negócios tanto com os ricos do vilarejo, quanto com os contrabandistas.

A propósito da relação entre os personagens, Fido39 observa que em uma narrativa de um lado estão os oprimidos, do outro lado, estão os opressores. Angelo Marchese40, quando fala sobre os personagens em uma narrativa, cita Segre, e afirma

38

Giovanni Verga. 1980, 1983. p.4

39

F. Fido Per uma descrizione dei Promessi Sposi: il sistema dei personaggi, in Strumenti critici, ottobre, 1974, p. 345

40

SEGRE. C. le strutture e il tempo. Torino: ...(?). 1974. pp. 45-46, in Angelo Marchese. L’officina del racconto. Milano: Arnoldo Mondadori Editore S.p.A. 1987. p. 186

que o personagem que tem nome e sobrenome e é inscrito em um cadastro, mesmo que fictício, constitui um apanhado de atitudes e de características, quer seja ele um indivíduo atípico, ou um tipo tradicional, ou uma máscara – conforme a poética e o gênero literário -, constitui ipso facto a explicação de suas atitudes e contém a possibilidade de desenvolvimentos ulteriores. Dessa maneira, fica patente que outros narradores regionalistas como Verga, nesse caso podemos citar Pirandello, Silone, dentro outros, se utilizam do mesmo recurso na construção de seus personagens caricatos.

Dentro dessa interpretação, a idealização de Padron ‘Ntoni, da sua cultura e dos seus valores, se insere em um panorama social bem preciso. Mas Verga não tinha a intenção de propor soluções, ele queria simplesmente mostrar o funcionamento daquele modelo social. Como não tinha confiança nas reformas, ao criar o personagem padron ‘Ntoni, o escritor não se iludia quanto às possibilidades de um final feliz para os empreendimentos de seu personagem.

Ele já havia acenado no prefácio de seu romance Eva a ineficácia dos programas de reformas econômicas e políticas. Esse “progresso” que vinha sendo anunciado não levaria a outro desfecho senão ao massacre de padron ‘Ntoni, sob os pés brutais dos vencedores de hoje, como consta do prefácio do romance I Malavoglia.

Não é possível falar de positivismo, de exaltação ao progresso. Nesse romance, Verga se coloca em uma posição de contraste com os ideais políticos da burguesia e com o progresso científico e industrial. O profundo pessimismo, causado pelo conhecimento do triste destino dos mais fracos, é atenuado unicamente pela heróica resignação dos oprimidos:

C'è che sono un povero diavolo! Ecco cosa c'è!

Bè! Che novità! E non lo sapevi? Sei quel che è stato tuo padre, e quel che è stato tuo nonno! Più ricco è in terra chi meno desidera. Meglio contentarsi che lamentarsi. 41

41

Não se trata de fatalismo, porque essa gente procura melhorar. Mas, quando as coisas não vão bem, eles não se revoltam.

Um trecho muito singular é o episódio em que os Malavoglia saem em procissão para pedir o parecer do advogado Scipioni sobre a carta que haviam recebido, pedindo sua casa como pagamento da dívida dos tremoços. A figura do advogado é discretamente mencionada, enquanto grande relevo é dado ao embaraçado colóquio dos três componentes da família e ao seu retorno à casa do Nespolo. Como se a sociedade e os sofismas legais não dessem conta de deteriorar as simples razões daquela gente. E, assim, Verga dissolve o palavreado do advogado, dando relevo aos motivos dos Malavoglia:

- Dunque ha detto di non pagare?

- ‘Ntoni si grattò il capo, e il nonno soggiunse: - È vero, i lupini ce li ha dati, e bisogna pagarli.

Non c’era che dire. Adesso che l’avvocato non era più là, bisognava pagarli. Padron ‘Ntoni scrollando il capo borbottava:

Questo poi no! questo non l’hanno mai fatto I Malavoglia. Lo zio Crocifisso si piglierà la casa, e la barca, e tutto, ma questo poi no!

Il povero vecchio era confuso, ma la nuora piangeva in silenzio nel grembiule. 42

Padron ‘Ntoni é representado com uma natural solenidade, com a austera grandeza de seu espírito antigo. É uma figura humana simples: a sua sabedoria elementar ele a herdou de outros patriarcas. O avô crê na casa e, acima de tudo, no dever e na virtude. Ele é um herói e o seu heroísmo é instintivo, baseado em imutáveis certezas. Ele havia feito um débito e deveria honrá-lo. Para isso, arriscaria perder sua casa e ver sua família sem um teto. Mais tarde, ele assistirá à desagregação dessa família e fará de tudo para vê-la unida.

Interessado pela questão meridional, o escritor deixa a alta sociedade milanesa e florentina das suas primeiras obras pela Sicília dos pobres. O estreito vínculo entre o homem e o território nos permite falar de regionalismo. Verga nos apresenta um

42

lugar absoluto, imutável, territorialmente fechado, embora ameaçado pelo progresso que vem de fora.

Neste espaço vive uma comunidade cuja cultura também é imutável: as festas, as superstições, as profissões tradicionais (tecedeira, pescador, calafate), os hábitos – ninguém pode agir diversamente do que é a tradição, principalmente quando se trata das mulheres -, marcam esse espaço narrativo real e ideal ao mesmo tempo.

La sola che non gli strinse la mano fu Sant'Agata, la quale stava rincantucciata vicino al telaio. Ma le ragazze si sa che devono fare così. 43

As moças sabem que devono fare così, mas não devem perguntar o motivo, porque não há explicação. A única resposta é que, se não agem conforme os ensinamentos antigos, desonrarão toda a família. Cabe muito mais a elas, do que aos homens, o peso das tradições.

O tema da subordinação e do tratamento diversificado, quando se tratava das mulheres, aparece bem claro no capítulo III da obra. O barco Provvidenza estava no mar, com dentro os membros da família Malavoglia e o carregamento de tremoços, quando uma terrível tempestade assola a região. Todos estão preocupados, inclusive as mulheres:

(....) le donne invece si facevano la croce, quasi vedessero cogli occhi la povera gente che vi era dentro.44

O motivo psicológico da compaixão pelos marinheiros, em alto mar, em meio às tempestades, estava bem presente na vida daquela gente que vivia da pesca. Eram as mulheres, aguardando em suas casas por seus maridos e filhos, que ficavam com seus corações apertados e quase conseguiam vê-los com os olhos. A

43

Giovanni Verga. 1980, 1983. p. 124

44

incompreensível diferença dos sentimentos das mulheres é retratada no trecho acima como uma capacidade visionária.

As mulheres tinham um papel diferenciado na sociedade: frente ao perigo iminente e ao medo, cabia -lhes rezar e nada dizer:

Maruzza la Longa non diceva nulla, com’era giusto (....)45

Mesmo no seio da família Malavoglia, a mesquinhez materialística se fazia presente entre seus membros, que ficavam divididos e isolados quanto a seus interesses e afetos.

Repetimos, eram as mulheres aquelas que deveriam se enquadrar, com maior rigor, nos costumes que vigoravam desde sempre, como mudar o penteado das moças quando estavam para casar:

Intanto a Sant'Agata le avevano messa la veste nuova, e aspettavano la festa di San Giovanni per toglierle la spadina d'argento dalle trecce, spartirle i capelli sulla fronte, prima d'andare in chiesa, sicché ognuno al vederla passare diceva: Beata lei! 46

La spadina d'argento era uma espécie de pente de prata que as moças

usavam até o momento do noivado.

O romance I Malavoglia é uma obra de ficção e como tal, segundo Romano Luperini47, apresenta algumas contradições. Sendo um romance ambientado entre os pescadores, a cultura da terra prevalece sobre a do mar.

O fato é que no romance se fundem duas realidades diversas: uma tirada do conto inicial Padron ‘Ntoni, sobre pescadores; a outra tirada da análise da sociedade de