7 Taking A Collaborative Approach to Urban Farming
7.2 Dialogue and The Vancouver Urban Farming Forum
As várias passagens dos textos verguianos até agora utilizados nos permitiram observar o mecanismo de estruturação que vai dar vida aos personagens. Nesse sentido, vale a pena recordar os ensinamentos de Vítor Manuel102 quanto à construção dos personagens.
O teórico nos dá a conhecer (apud E.M.Forster, 1963) que há duas espécies fundamentais de personagens romanescos: os desenhados (ou planos) e os modelados (ou redondos). Os personagens desenhados, ou planos, se distinguem porque, durante toda a obra, não se desviam de um traço único que os caracteriza; enquanto que os personagens redondos, ou modelados, se distinguem por serem mais complexos, sendo caracterizados por diversos aspectos.
Dentro da temática verista, são os personagens planos que se apresentam nos romances. O traço único que caracteriza esses personagens faz com que eles tendam à caricatura, evidenciando neles aspectos algumas vezes burlescos, outras lhes dando uma feição irônica. Os personagens dos romances veristas se acham rigorosamente condicionados pelo meio onde nasceram e estão ligados, com o mesmo rigor, ao destino que lhes cabe. Qualquer tentativa de mudança é fatal, significa a morte, ou a loucura. Portanto, circularão pelas narrativas sempre distinguidos por traços imutáveis, embora em situações diversas. Lembramos o exemplo de que nos valemos de don Michele il
brigadiere, no item 3.2.1.
Como já dissemos, Verga se utiliza de vários artifícios na construção de seus personagens, que têm como ponto distintivo as marcas da oralidade siciliana, como o uso das inciurii, dos nomignoli, dos provérbios, dos modos de dizer que se repetem ao longo da narrativa, além de muitos outros a que fizemos referência anteriormente. A animalização é mais um modo sobejamente usado pelo escritor siciliano para
102
AGUIAR E SILVA, Vítor Manuel de. Teoria da Literatura. 2ª ed.Coimbra: Livraria Almedina, 1969. pp.269- 273
caracterizar seus personagens, estabelecendo entre o humano e o animal uma relação de semelhança.
Ao comparar seus personagens a animais, o escritor ora lhes ressalta a dificuldade em expressar seus sentimentos com palavras, já que possuem escasso vocabulário e seus discursos são delimitados por lacunas. Recordamos o romance
Nedda, cujo relacionamento amoroso da protagonista com o seu amante é retratado não
por palavras, mas por bruscas manifestações selvagens – como urros -, como se fossem animais.
Ora Verga, ao comparar seus personagens a animais, ressalta neles aspectos desagradáveis e destorcidos. Em Rosso Malpelo, o jovem é rejeitado até por sua mãe, que achava que o filho havia nascido para viver debaixo da terra, tal como as toupeiras que fogem ao contato com a luz, ou como os asnos que trabalhavam nas minas e de lá nunca saíam, nem mesmo depois de mortos. Os olhos do rapaz eram como os dos gatos, que à luz do sol brilhavam e causavam medo nas pessoas.
Em outro momento, Verga, ao animalizar um personagem, chama atenção para a transgressão das regras sociais da moral, da lei e da religião vigentes em um grupo. No conto La Lupa, o título da narrativa já nos indica quem é a protagonista: uma mulher estranha, sensual que, segundo o narrador, era insaciável e incutia medo nos habitantes do vilarejo onde morava, porque caminhava sempre só, como uma cadela no cio e sem dono.
No romance I Malavoglia, a animalização dos personagens coloca o homem no mesmo nível dos animais, quanto ao trabalho árduo a que são submetidos, ou à pouca importância que se dá ao ser humano, ou quanto à sua incapacidade de se defender.
A comparação dos personagens a animais estabelece uma relação de semelhança entre ambos, revelando sempre o lado pior do homem. Na fala popular, essa comparação, na falta de um discurso mais elaborado, serve para abreviar, facilitar e tornar compreensível a comparação:
Io non sono una passera. Io non sono una bestia come loro! 'rispondeva 'Ntoni'. Io non voglio vivere come
un cane alla catena, come l'asino di compare Alfio, o come un mulo da bindolo, sempre a girar la ruota; io non voglio morir di fame in un cantuccio, o finire in bocca ai pescicani. 103
Quando ‘Ntoni diz que não é uma passera, o personagem está empregando um vocábulo para expressar sua desaprovação, usando uma palavra de significado chulo:
passera, em língua italiana, tem o sentido pejorativo de vulva, o mesmo que uma
pessoa tola. Ser uma bestia, em sentido figurativo, significa ser uma pessoa ignorante e violenta. Viver como un cane alla catena é o mesmo que ser obrigado, pela força, a viver uma vida que não se quer. Um mulo da bindolo vive com um cabresto, e ‘Notin estava dizendo que não queria um cabresto, que se recusava obstinadamente àquela vida. Ele não queria ser desconsiderado, a ponto de morrer de fome em um canto, ou pior, acabar na boca dos pesci cani, ou seja, terminar por cair entre os dentes dos tubarões, passar sua vida trabalhando para comerciantes gananciosos, que se valiam de quaisquer meios para aumentar os seus lucros.
Observemos o exemplo abaixo:
I bambini stettero a sentire, e poi si rimisero a pigolare tutti in una volta, e il più grandicello, appollaiato su di un gran sasso, rispose dopo un pezzetto (....)104
Ao invés de usar o verbo pianucolare (choramingar), Verga diz que as crianças pigolavano (piavam), ou seja, emitiam piados, como fazem os pequenos pássaros e os pintinhos. Quando diz que o menino maior s’era appolaiato – ou seja, havia tomado a posição de uma galinha no poleiro – em cima de uma pedra, mais uma vez ele faz a comparação com as aves, animais completamente indefesos.
A metáfora é retomada para mostrar que os filhos são pintos que necessitam da galinha mãe para sua proteção:
103
Giovanni Verga. 1980, 1983. p. 186
104
La ragazzina accese il lume, e si mise lesta lesta ad apparecchiare ogni cosa per la cena,mentre i suoi fratellini le andavano dietro per la stanzuccia, che pareva uma chioccia coi suoi pulcini.105
Uma chioccia é a galinha no período em que está chocando os ovos, ou que está cuidando dos pintinhos. No trecho acima transcrito, Nunziata é paragonada a uma galinha que cuida da sua cria, ou seja, uma mulher dotada de um forte sentido da maternidade e muito protetora. No romance, o tema central é a família. Luigi Russo106 diz que os Malavoglia, no trabalho, eram uma única mão; nas desgraças, eram um único coração; nas decisões, eram uma vontade só, exatamente como os dedos da mão. E, antes de todos, estava padron ‘Ntoni, o dedo maior, que comandava as festas e o trabalho. Padron ‘Ntoni é a família e esta é o coração do velho patriarca e todos juntos são a vida e o coração do vilarejo.
O esfacelamento dos Malavoglia, no fim do romance, significa um esfacelamento maior: o da família, como célula mater da sociedade, e os prejuízos que a sua desagregação irão impor na vida do final do século XIX, início do século XX.
A sinédoque, figura de retórica que consiste na transferência semântica, ao estender, ou restringir o significado de uma palavra, está bem presente na língua siciliana e Verga a reproduz em sua obra:
(....) Comare Grazia Piedipapera, sentendo che nella strada c'era conversazione, si affacciò anch'essa sull'uscio, col grembiule gonfio delle fave che stava sgusciando, e se la pigliava che le avevano bucherellato il sacco come un colabrodo, e pareva che l'avessero fatto apposta, come se ci avessero il giudizio dei cristiani (....)107
A palavra cristiani está para os homens em geral - cristãos. Vale ressaltar que neste trecho os ratos é que são comparados aos homens. Comare Grazia 105 Giovanni Verga. 1980, 1983. p. 30 106 Luigi Russo, 1955. p. 139 107 . Giovanni Verga. 1980, 1983. p.27
Piedipapera reclama que o saco onde estavam as favas estava todo roído. Ela, então, diz que quem havia feito aquilo (os ratos) parecia ter feito de propósito e que, seguramente, tinha juízo como os cristãos.
Verga escolheu escrever em uma língua de expressão popular, dando a ela uma cor dialetal, fazendo uso de palavras, expressões e modos de dizer sicilianos.
4. O TEXTO VERGUIANO E A DESAUTOMATIZAÇÃO DO MODELO