Figura11 – Logomarca Planeta Sustentável
Fonte: Planeta Sustentável (2013).
Planeta Sustentável é um projeto liderado por uma grande empresa de comunicação, o Grupo Abril, que tem o objetivo de debater, informar e produzir conhecimento sobre sustentabilidade e conta com o apoio de empresas parceiras, que são: CPFL Energia, Bunge, Sabesp, Petrobras, Grupo Camargo Correa e Caixa Econômica e faz regularmente eventos para divulgar esse conceito, como o Planeta Parque Ibirapuera, no qual investem em shows e oficinas, sempre remetendo à sustentabilidade para o público do parque.
Além desse evento, que já faz parte do calendário da cidade de São Paulo, há o Prêmio Planeta Casa, uma iniciativa da Revista Cláudia, que premia profissionais das áreas da arquitetura, construção e decoração, engajados em conciliar conforto e bem-estar com respeito ao planeta Terra, e também a divulgação em anúncios de revistas da editora com campanhas de conscientização.
Nós faremos uma análise da logomarca criada, cujo objetivo do movimento é propagar o desenvolvimento sustentável, lembrando que, segundo a Comissão Mundial sobre o Meio- Ambiente e Desenvolvimento das Organizações Unidas, desenvolvimento sustentável
significa: atender às necessidades do presente sem comprometer a possibilidade de as gerações futuras atenderem as suas próprias necessidades.
Conforme é colocado por Peirce (1993) em Semiótica e Filosofia, um signo faz uma mediação entre o que ele representa de fato e o seu interpretante. Dessa forma, temos que a imagem do logo serve como um signo que se refere a algo que indica que é a relação do ser humano com o desenvolvimento sustentável e que por sua vez, além de se referir a algo, causa um efeito. Partimos para novas perguntas: Qual o efeito que esse objeto causa e qual o impacto que esse logotipo desperta no público?
Temos, portanto, “A que o signo se refere? A que ele se aplica? O que ele denota? O que ele representa?” (SANTAELLA, 2012, p. 34). E é esse objeto que irá por sua vez causar determinado efeito no público.
Os signos apresentados nessa imagem referem-se a um objeto e causam um determinado efeito, justamente a partir de signos que, segundo a semiótica peirceana, apresentam-se a partir de outros signos que possuem primeiramente qualidades, em segundo lugar um existente concreto e em terceiro lugar algumas convenções que expressam algo nas mentes interpretadoras. O que queremos dizer é que todos os elementos apresentados têm três poderes, são eles: o poder sugestivo, o poder indicativo e o poder representativo.
No que tange ao poder sugestivo, temos, portanto, vários signos que possuem uma potencialidade capaz de nos sugerir algo, como é o caso das cores escolhidas, das formas e cores dos indivíduos, da linha azul sinuosa que envolve os indivíduos, da planta verde que é segurada acima pela figura do adulto e da escolha do tipo de letra que está abaixo dos indivíduos.
Todas essas escolhas sugerem algo que vai se materializar a partir de outros poderes indicativos, ou seja, a revista ou o evento que o público irá ver. Nesta leitura, a partir da teoria peirceana, a imagem tem uma característica predominantemente icônica, “pois a imagem de formas e cores que exibe é dominante” (SANTAELLA, 2012, p. 22).
Dessa forma, a logomarca que apresentamos antes mesmo de referir ao que já colocamos acima, que é a relação do homem com a sustentabilidade, carrega em relação ao objeto outros signos, que são os que remetem a outros elementos a que ele se assemelha, como é explicado abaixo:
Quando a cor azul-clara lembra o céu ou os olhos azuis límpidos de uma criança, ela só pode lembrá-los porque há uma semelhança na qualidade desse azul com o azul do céu ou dos olhos. O ícone só pode sugerir ou evocar algo porque a qualidade que ele exibe se assemelha a outra qualidade. (SANTAELLA, 2012, p. 17).
O que vemos, portanto, é que esse signo traz uma série de elementos que indicam diretamente qualidades de um homem com uma criança segurando uma planta de modo triunfal. Um sentido de domínio da natureza. A intenção deles era materializar qualidades sustentáveis em uma imagem, porém a mesma denota um antropocentrismo claro do signo real que persiste.
Ainda no plano da primeiridade, que se liga à “impressão que brota da primeira olhada” (SANTAELLA, 2012, p. 70), surgem associações que aparecem predominantemente a partir de comparações de semelhança e se apresentam finalmente a uma mente interpretadora.
Aqui não falamos de precisão nem tão pouco de fatos que serão medidos, trata-se de um momento de suspensão, em que o olhar é tomado pela primeira impressão, um momento solitário que antecede a verbalização e, apesar de nos oferecer apenas hipóteses, é capaz de sugerir qualidades abstratas, como força, severidade e competição.
Por semelhança, o logotipo nos remete a imagens nas quais em uma luta triunfa o homem heroico, que tem o prêmio em suas mãos e que lhe pertence e por semelhança podem surgir figuras já assimiladas em nosso imaginário como podemos visualizar na figura 12.
Figura 12 – Logomarca Planeta Sustentável
Fonte: Planeta Sustentável (2013).
Figura 13 – Imagem da Estátua da Liberdade
Figura 14 – Imagem da estátua do Deus Poseidon
Fonte: Citelighter (2012).
Na figura 13 temos a Estátua da Liberdade, um monumento que foi um presente dos franceses, após os americanos terem derrotado a Inglaterra numa batalha. Já na figura 14 temos Poseidon, que descontava a sua ira através de terremotos, mas que também podia ser benigno, como no episódio em que ajudou os gregos a vencerem a Guerra de Troia. Os navegantes pediam a ele águas calmas e ventos favoráveis, mas ele era um deus imprevisível e nunca era possível saber o que ele iria fazer.
Se voltarmos ao nosso logotipo e considerarmos que, além do poder sugestivo que ele tem, há também o poder indicativo, que está no que Peirce (1993) chama de secundidade e está relacionado ao existente, o poder, as vitórias e até mesmo a imprevisibilidade humana é reforçada no logotipo.
Consideramos, portanto, que tal materialidade é incoerente com as pretensões voltadas à sustentabilidade. Soma-se a isso a forma do arco olímpico que tem o traço azul da figura, provavelmente com a ideia de remeter e valorizar a existência da água na natureza, porém, no modo que se apresenta, pode reforçar a partir de nosso repertório um existente que triunfa sobre a natureza, e o arco pode remeter a mais um de nossos esportes.
Além disso, existem os índices de seus ambientes de uso. Esse logotipo aparece nos eventos do Parque Ibirapuera e acontece na marquise do mesmo (figura 15), onde o público participa de shows e oficinas que apresentam práticas sustentáveis.
Figura 15 –Imagem do evento Planeta no Parque
Fonte: Spitzcovsky (2013).
O ambiente do parque é um local onde o público está descontraído, procurando se libertar de suas preocupações reais do dia a dia. Nesse contexto entram os shows e oficinas das práticas sustentáveis. Uma distração politicamente correta para um público que não está em um momento de real engajamento, mas apenas satisfazendo alguma curiosidade e olhando um assunto de modo rápido e superficial.
Figura 16 – Imagem do evento Planeta no Parque com crianças
Fonte: Braz (2012).
Os shows e oficinas acabam sutilmente alterando o papel dos reais agentes que buscam praticar a sustentabilidade (figura 16). Em vez de a instituição ser realmente engajada, esta começa a construir um contexto em que o público é que tem que ser educado e se responsabilizar pela sustentabilidade. A instituição passa a ser uma espécie de orientador e não mais de autor.
E finalmente, há campanhas com anúncios sobre conscientização que são regularmente divulgadas em revistas do Grupo Abril, como o exemplo que apresentaremos a seguir.