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Correlations between prefixes and particles

A relação do arquiteto com o desenho geralmente inicia-se em período anterior ao da graduação. Não são poucos aqueles que ingressaram no curso de Arquitetura porque tinham aptidão ou interesse por desenho e acreditavam que a arquitetura era uma disciplina que, para usar o jargão, não era tão técnica quanto a Engenharia e não tão artística quanto a Belas-Artes. Esse interesse pode ser justificado pela possibilidade que o desenho oferece em comunicar, com alguma precisão, uma

176 "So the fault in method-making was that we made methods as 'products' and handed them on to the designers expecting them to use

them, as 'tools', as means to an end. Which became a logical trap, turning the idea of process into its opposite?

We didn´t realize that the design-as-a-p o ess out o e is the desig p o ess…….fo e e o e……. ot fo desig e s……. e did ´t li e ate oursel es f o ei g desig e s…….desig e s of p edi ted out o es……. e did ´t d op the ole…….

...we didn´t realise that the people inhabiting the world-designed, if we changed to process-design, have to be designers, everyone of the ….."JONES, Christopher. Designing designing., London, UK: Architecture Design and Technology Press, 1991. p.158-165

ideia a respeito de uma edificação a uma outra pessoa. Embora o desenho tenha carregado desde o início de sua utilização como ferramenta a função de comunicação, sua finalidade foi alterada sensivelmente ao longo dos anos.

Para Vitruvius, no já citado tratado De Architectura Libri Decem do século I a.C, a educação do arquiteto deveria compreender, dentre outros conhecimentos, a geometria e o desenho, devendo ser o arquiteto capaz de prontamente realizar esboços de suas propostas. Vitruvius propõe três técnicas de representação, ichnographia, ortographia e sciographia. Segundo Pérez-Gómez (1992), embora ichnographia e ortographia¸ sejam frequentemente traduzidos respectivamente por planta e elevação, estes termos não correspondem exatamente as definições da geometria descritiva177.

Segundo este mesmo autor, a sciographia, corresponde ao desenho da seção ou corte da edificação e não ao desenho em perspectiva como figuram em algumas traduções do tratado178. Os desenhos

produzidos pelos arquitetos nesta época estavam mais relacionados a assegurar a coerência propor io al da edifi aç o, o ue i pli a ue os dese hos u a e a defi iti os, as te ia uito mais o caráter de esboços 179. Segundo Diana (2012), embora o tratado de Vitruvius seja de grande

i po t ia pa a o dese ho a uitet i o ode o, te do sido edescoberto e reinterpretado em várias épocas, o seu conteúdo ainda não traz o conceito de antecipação da construção através do dese ho, as si da utilizaç o do dese ho o o o ie taç o do t a alho do o st uto 180.

Na Idade Média, período histórico em que parte do conhecimento antigo é perdido, prevalece a tradição oral das corporações de ofício, sendo os cadernos de desenho de Villard de Honnecourt (século XIII) o registro mais importante sobre as atividades do arquiteto da época181. Segundo Borges

Filho (2005) entender os cadernos de Honnecourt é uma tarefa árdua para os não iniciados na tradição oral do século XIII182. Segu do Tsuko o , os dese hos ue o p e o ade o o s o

desenhos de execução, para uma obra específica, mas sim indicações que representam objetos ou o u e tos e iste tes ou p ojetados, e o o p o edi e tos pa a a e e uç o , contudo, os desenhos de Honnecourt eram cifrados para preservar os segredos sobre construção das so iedades de o pa hei os , grupos secretos formadas por pedreiros, canteiros e carpinteiros, responsáveis pela construção das edificações (FIG. 22).183 Nesse momento os desenhos eram

177 PÉREZ-GÓMEZ, Alberto, PELLETIER, Louise. Architectural representation beyond perspectivism. In: Perspecta. Nova Iorque: The Yale Architectural Journal Inc and Rizzoli International. n.27, 1992. p.27.

178 Ibidem.

179 RODRIGUES (2000, p.123) apud DIANA, Tatiana B. O desenho do projeto de arquitetura e sua produção atual. 2012. 233p. Dissertação (Mestrado) – FAUUSP. São Paulo, 2012. p.42

180 DIANA, Tatiana B. O desenho do projeto de arquitetura e sua produção atual. 2012. 233p. Dissertação (Mestrado) – FAUUSP. São Paulo, 2012. p.43

181 Ibidem.

182 BORGES FILHO, Francisco. O desenho e o canteiro no renascimento medieval (séculos XII e XIII): indicativos da formação dos arquitetos mestres construtores. 2005. 262p. Tese (Doutorado) – FAUUSP. São Paulo, 2005. p.68.

instrumentos de projeto e também de construção. Não estavam ainda determinados por um sistema de medidas, escalas, ou de convenções gráficas, sendo expressões individuais de seus produtores, mas já serviam como suporte para a discussão em torno da obra que iria ser construída.184

Segundo Baltazar (1998),

a arquitetura medieval não lidava com os desenhos da forma como fazemos hoje, e os a uitetos o o e ia o edifí io o o u todo, e a u p o esso oleti o, i lo o , ue ge al e te du a a ais ue u a ge aç o, ou seja, ue o eça a a o a não estava mais vivo quando de seu término. 185

Figura 22 - Fragmento do caderno de desenhos de Honnecourt.

FONTE: [Online]. Disponível em:< http://farm6.staticflickr.com/5504/10228243133_0da8735690.jpg>. Acesso em 24 de fev. de 2015.

A partir do Renascimento (século XV) em função do aperfeiçoamento das técnicas de representação gráfica, a prática do arquiteto foi drasticamente modificada. O desenho passa a ser o desenho para a produção e não mais da produção, nesse sentido, Tsukomo (2009) afirma que é no Renascimento que origina-se o a uiteto ode o, pois at e t o o dese ho esta a di eta e te ela io ado ao a tei o, e o a uiteto e a ta est e o st uto 186. Segundo Ferro (1976), quase

todos os historiadores são unânimes em localizar a cúpula de Santa Maria del Fiore em Florença (FIG. 23), do arquiteto Filipo Brunelleschi, como o ponto de inflexão em direção a arquitetura moderna: o desenvolvimento da escala gráfica e, principalmente, da perspectiva cumprem uma dupla função: eduze a e o e o a a u a es ala ue pe ite o o t ole de todos os seus o e tos e pa tes e a a o t a os ope ios ue, i pedidos de e a i a o p ojeto, o pode ais ola o a

184 Ibidem, p.54.

185 BALTAZAR, Ana Paula. Multimídia Interativa e Registro de Arquitetura: a imagem da arquitetura além da representação. 1998. 196p. Dissertação (Mestrado) – EAUFMG. Belo Horizonte, 1998. p.83.

inteligentemente — e contra — os a uitetos 187. Segu do Dia a a pa ti deste po to, e

ue as e ig ias do edifí io s o dete i adas a p io i , que o arquiteto passa a deter a ciência da construção e toma para si toda a teoria da concepção do edifí io 188.

Figura 23 – Catedral de Santa Maria del Fiore de Brunelleschi

FONTE: [Online]. Disponível em <

http://www.arch.mcgill.ca/prof/sijpkes/arch374/winter2001/sfarfa/philopanoramica.jpg>. Acesso em 24 fev 2015. Contudo, segundo Baltazar (1998), o método empírico da perspectiva começa a ser devidamente sistematizado apenas a partir do século XVI com Vignola e o método do ponto de distância, com Dürer que desenvolve equipamentos perspectívicos que permitem a representação rigorosa de objetos e com Desargues, que estabeleceu a base científica para a utilização da perspectiva a partir de um ponto no infinito189. Até então as teorias sobre a perspectiva eram bem mais

complicadas e baseavam-se no ponto de convergência de linhas paralelas no ápice do cone de visão projetado na linha do horizonte. A teoria de Desargues foi complementada no século XVIII com o surgimento da Geometria Descritiva desenvolvida por Gaspard Monge, cujo objetivo era "estudar os métodos de representação gráfica das figuras espaciais sobre um plano"190. A possibilidade de reduzir

187 FERRO, Sérgio. O canteiro e o desenho.(1976). ______. Arquitetura e trabalho livre. São Paulo: Cosac Naify, 2006. p.193

188 DIANA, Tatiana B. O desenho do projeto de arquitetura e sua produção atual. 2012. 233p. Dissertação (Mestrado) – FAUUSP. São Paulo, 2012. p.45.

189 BALTAZAR, Ana Paula. Multimídia Interativa e Registro de Arquitetura: a imagem da arquitetura além da representação. 1998. 196p. Dissertação (Mestrado) – EAUFMG. Belo Horizonte, 1998. p.85.

190 DIANA, Tatiana Borgonovi. O desenho do projeto de arquitetura e sua produçao atual. Tese de Doutorado. Universidade de São Paulo. p.49.

de forma sistemática um objeto tridimensional para um plano possibilitou o surgimento do desenho técnico arquitetônico e deu condições de controle e precisão para que a Revolução Industrial fosse possível. Segundo Pérez-Gómez (1992), a computação gráfica é simplesmente uma sofisticação dos mecanismos de projeção desenvolvidos nessa época191.

Em seus cursos ministrados na École Polytechnique no final do século XVIII e início do século XIX, Nicolas-Louis Durand populariza seu mécanisme de la composition, que simplifica a resolução de plantas através da sobreposição de uma malha regular de linhas que guiava as decisões do arquiteto: as colunas deveriam ocupar as interseções, as paredes os eixos e as aberturas o centro dos módulos. Neste método a planta é o desenho mais importante, a partir do qual fachadas, volumetria, cobertura etc. derivam. Para Durand qualquer edifício deveria ser representado apenas por plantas, seções e elevações, preferencialmente num único formato de papel, sendo qualquer outro desenho supérfluo e capaz de levar a falsos julgamentos. Segundo Pérez-G ez , o dese ho a uitet i o e a o mais e não menos que um instrumento para representar precisamente uma edificação. Pela primeira vez na história da arquitetura, o desenho torna-se um meio e é percebido como desprovido de valor e si es o 192.

Figura 24 – Os edifí ios ge ados a pa ti do é a is e de la o positio de Du and

FONTE: [Online]. Blog de Danilo Matoso Macedo. Disponível em <

http://daniloarquiteto.files.wordpress.com/2008/11/fig-03-taxis.jpg?w=300&h=204>. Acesso em 25 fev 2015. O Movimento Moderno, durante a primeira metade do século XX, desenvolveu-se na direção apontada por Durand, prezando pela eficiência, economia e funcionalidade. Tal ideologia é patente e u a das f ases ais itadas do a uiteto í o e do Mo i e to Mode o, Le Co usie : u a asa

191 PÉREZ-GÓMEZ, Alberto; PELLETIER, Louise. Architectural representation beyond perspectivism. Perspecta, 1992. p.34

192 Fo the , a hite tu al d a i g as o o e a d o less tha a i st u e t fo p e isel ep ese ti g a uildi g. Fo the first time in the

histo of a hite tu e, d a i g e a e a ea s a d as pe ei ed de oid of alue i itself . PÉREZ-GÓMEZ, Alberto et al. Architecture and

u a ui a de o a 193. Esse arquiteto, em seu livro-manifesto Por uma arquitetura de 1931,

a partir da análise da planta de um templo primitivo, afirma que já existia ali a necessidade de ordenar o espaço por meio de relações matemáticas.

Note que estas plantas são regidas por um cálculo matemático elementar. Elas são o produto de medições. A fim de construir bem e distribuir vantajosamente seus esforços, a fim de obter solidez e utilidade em seu trabalho, unidades de medida são a primeira condição de todas. O construtor considera como medida o que é mais fácil e mais constante, a ferramenta que ele está menos propenso a perder: seu ritmo, seu pé, seu cotovelo, seu dedo. [...] ele tomou medidas, ele adotou uma unidade de medida, ele regulou seu trabalho, ele trouxe a ordem.194

Le Corbusier deduz daí o conceito de t açados egulado es (FIG. 25), a ase pa a a o st uç o e a satisfaç o 195, que segundo ele guiaram o desenvolvimento de grandes obras ao longo

da história, dos templos gregos à Catedral de Notre Dame e, claro, seus próprios projetos.

O traçado regulador é uma satisfação de ordem espiritual que leva a engenhosas e harmoniosas relações. Confere ao trabalho a qualidade do ritmo.

O traçado regulador introduz essa forma matemática tangível que proporciona a tranquilizadora percepção da ordem. A escolha do traçador regulador determina a geo et ia fu da e tal do t a alho; dete i a po ta to u a das a a te ísti as fu da e tais . A es olha do t açado egulado u desses o e tos de isi os de inspiração, uma das operações vitais da arquitetura.196

As plantas, fachadas e volumes são determinados por relações matemáticas supostamente harmoniosas de maneira desconectada tanto do usuário quanto da construção e das técnicas construtivas. Sérgio Fe o ha a este tipo de dese ho de dese ho sepa ado , ue desde o século XIX funciona como mediador generalizado na construção e que por trás de uma suposta busca por harmonia e equilíbrio há a opressão ao trabalhador do canteiro de obras, que não participa em nenhum momento das decisões projetuais, e a hegemonia da produção capitalista do espaço, condicionando os esforços em direção à uma sempre crescente produtividade.

Com efeito, o desenho de arquitetura é mediação insubstituível para a totalização da produção sob o capital. Dados seus pressupostos habituais (o programa, enumeração ge al e te des osida de peças e fu ç es salpi ada de agos p op sitos; o p eço limite; a técnica, menos escolhida que imposta pela conjuntura da procura de mais- valia; etc.), é o desenho a partir de lá elaborado que orientará o desenvolvimento da produção. [...] O que vale é que esse desenho fornece o solo, a coluna vertebral que

193 A house is a a hi e fo li i g i . LE CORBUSIER. Towards a new architecture. Courier Dover Publications, 1931. p.95.

194 Note i these pla s that the a e go e ed ele e ta athe ati al al ulatio . The a e the p odu t of easu e e t. I o der to

construct well and distribute your efforts to advantage, in order to obtain solidity and utility in the work, units of measure are the first condition of all. The builder takes as his measure what is easiest and most constant, the tool that he is least likely to lose: his pace, his foot, his elbow, his fi ge . […] he has take easu es, he has adopted a u it of easu e e t, he has regulated his work, he has ought i o de . Ibidem,

p.70-71. 195 Ibidem, p.72.

196 The egulatio li e is a satisfa tio of a spi itual o de hi h leads to the pu suit of i ge ious a d ha o ious elatio s. It confers on the

work the quality of rhythm. The regulating line brings in this tangible form of mathematics which gives the reassuring perception of order. The hoi e of a egulati g li e fi es the fu da e tal geo et of the o k; it fi es the efo e o e of the fu da e tal ha a te s . The hoi e of the egulati g li e is o e of the de isi e o e ts of i spi atio , it is o e of the ital ope atio s of a hite tu e. Ibidem, p.75.

a tudo conformará, no canteiro ou nas unidades produtoras de peças. Em particular — e é o principal — juntará o trabalho antes separado, e trabalho a instrumento.197 Figura 25 - Os traçados reguladores de Le Corbusier. Maison La Roche.

FONTE: [Online]. Disponível em <

http://classconnection.s3.amazonaws.com/414/flashcards/785414/jpg/capture211330724223417.jpg>. Acesso em 25 fev 2015.

Nos escritórios de arquitetura, até a década de 1980, os desenhos eram produzidos sob a mesma lógica artesanal dos canteiros: com o auxílio de alguns instrumentos — régua T, esquadros, escalímetros, compassos, lapiseiras, canetas-nanquim, normógrafos etc. — os desenhistas em suas pranchetas produziam, em papel-manteiga, os primeiros rascunhos em grafite, redesenhando quantas vezes fossem necessárias até o desenho de apresentação, em papel vegetal e nanquim, onde qualquer erro ou descuido resultava em desgastante retrabalho. Segundo Arantes (2012)

O desenho abarca, assim, um canteiro. Nele há trabalho intelectual e manual, seja unificado no arquiteto-artesão, seja na forma manufatureira de projeto, no caso de escritórios maiores, em que há divisão do trabalho mais avançada. O produto que dali é obtido, contudo, não tem um fim em si, como no trabalho do artista. Ele é um meio, uma instrução para a execução do objeto final: o edifício construído. O jogo de plantas, maquetes e perspectivas, não deixa, contudo, de ser mercadoria, antes mesmo da arquitetura se tornar edifício. O valor de uso da mercadoria-desenho é ser a instrução e o comando do trabalho separado para a transformação da matéria em artefato construído.198

A partir de 1982 os primeiros softwares de desenho começaram a ser comercializados e em pouco tempo as pranchetas foram substituídas por computadores e

o antigo ateliê do arquiteto estava cada vez mais próximo, inclusive visualmente, de uma empresa de processamento de dados, ou até das mesas de operação do mercado financeiro. Os escritórios passaram por uma espécie de assepsia, com pranchetas

quase sempre limpas e mesas povoadas de computadores.199

197 FERRO, Sérgio. O canteiro e o desenho.(1976). ______. Arquitetura e trabalho livre. São Paulo: Cosac Naify, 2006. p.107.

198 ARANTES, Pedro. Arquitetura na era digital-financeira: Desenho, canteiro e renda da forma. São Paulo: Editora 34. 2012. p.134-135. 199 Ibidem, p.138.

O desenho feito com o auxílio do computador200 é uma versão digital do que antes era feito à

mão porém com algumas vantagens. Embora os desenhos ainda sejam produzidos um a um, os esforços envolvidos na modificação de um desenho foram reduzidos drasticamente, bem como, com a introdução das camadas (layers) — que funcionam como papéis vegetais sobrepostos — a conferência dos desenhos e a coordenação entre os diversos projetos foi facilitada. Os desenhos, antes guardados em arquivos de aço e sujeitos à ação do tempo, podem ser armazenados em discos, ou mais recentemente, na nuvem.201

Se por um lado os softwares CAD facilitaram a produção dos desenhos, automatizando e facilitando uma série de etapas, por outro houve um avanço da precarização das relações de trabalho. Com a digitalização dos desenhos, tornou-se possível a contratação de projetistas virtuais em várias partes do mundo, em especial de países subdesenvolvidos. Os CAD monkeys (macacos do CAD), como são chamados, não tem autonomia e não exercem suas habilidades como arquitetos ou designers, mas como operadores de computador.

Figura 26 – Tirinha do personagem Dilbert, de Scott Addams

FONTE: ADDAMS, Scott. Disponível em < http://cdn2.miragestudio7.com/wp- content/uploads/2006/03/dilbert_architect_comic_cad_monkey.jpg>. Acesso em 27 fev 2015.

Segundo Arantes (2012) a popularização dos softwares CAD inaugura um novo momento da abstração da arquitetura, distanciando ainda mais o projeto do fazer material e aproximando a noção do projeto como coisa mental, sem amarras físicas. Dessa forma, o p ojeto desprende-se, assim, de sua ate ialidade a al gi a pa a a a ça o ue ele te de ais esse ial: a p es iç o 202. A nova

geração de softwares para edificações, os chamados Modelos de Informação da Construção — Building

Information Modeling (BIM) — avançam ainda mais no sentido da prescrição, centralizando em um

único arquivo praticamente todas as informações sobre um edifício: dos desenhos de arquitetura à quantidade total de tijolos na edificação. Apesar da possibilidade aberta pelos softwares BIM para o cálculo (com muito esforço, devido a necessidade constante de atualização dos bancos de dados) dos

200 A sigla CAD quer dizer justamente isso, computer aided design, ou desenho auxiliado por computador. 201 Ibidem, p.139-140.

custos de uma edificação, raramente os arquitetos tem consciência desses custos. Quando dei início a minha prática profissional por vezes fui questionado por clientes sobre os possíveis custos de uma determinada obra e, na época, não tive condições de responde-los com a devida estimativa de custos. Embora os softwares BIM ainda não sejam a ferramenta predominante entre os arquitetos, assim que isso acontecer

o arquiteto concluirá sua transformação de arcaico desenhista em programador, ou seja, atingirá o trabalho intelectual em estado puro, sem qualquer vestígio de

e ia ot iz, pois o o putado , o o se diz, u a fe a e ta pa a a e te e

o pa a as os. 203

O dese ho sepa ado e io ado a te io e te, e o a o st uído a pa ti das determinações do programa de necessidades, não sofre interferência dos usuários durante sua concepção, o que pode resultar, muitas vezes, na inadequação de algumas soluções para o uso dos usuários. Nesse sentido, o relato do morador Sr. Luciano do edifício Montevidéu, um dos empreendimentos estudados nesse trabalho, é esclarecedor:

A primeira é o seguinte, o preconceito que eu tenho...eu acho, sempre tive essa experiência e aqui foi comprovado que é o seguinte, que os arquitetos eles só pensam até a hora que faz o projeto e fica uma coisa bonita no papel. Dali pra frente não interessa quem vai morar e nem quem vai construir. Eu sempre pensei nisso e aqui aconteceu isso mesmo. O prédio que nós compramos no papel era muito bonito, certo? Mas na hora que você vai morar e na hora que você vai construir, o cara você vê que, o cara não pensou nisso. Ele só vê isso depois. Eu acho que as vezes o..o engenheiro civil vai fazer um prédio, faz um prédio simples mas faz mais funcional. O arquiteto faz uma coisa super bonita mas na hora de construir da problema e na hora de morar dá problema. Então quando nós compramos esse prédio aqui nós compramos porque achamos ele muito bonito. Tinha uma vista 3D, uma renderização 3D lá super bonita, mas por exemplo aqui fora, ia ter uns brises, umas...jardineiras aqui fora que a primeira coisa que a gente teve que fazer foi derrubar tudo, porque não funcionou.204

O nível de prescrição cada vez maior dos projetos arquitetônicos faz com que os espaços sejam