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3.2. Prepositions cross-linguistically (Russian, English and French)

3.2.2. Complex prepositions

Segundo De Carlo (1969), embora a profissão do arquiteto tenha sido modificada substancialmente ao longo do tempo, passando de uma posição de colaborador, quando trabalhava nos canteiros de obras até a Idade Média, à uma posição de controle da produção desde o Renascimento até a atualidade, uma característica manteve-se inalterada: a sujeição do arquiteto à visão de mundo daqueles que detinham (e detém) o poder.205 Dessa maneira, os arquitetos puderam

desenvolver seus trabalhos disfrutando de algum prestígio, desde que não se preocupassem com as motivações e consequências de suas atividades, isso é, contanto que ignorassem as implicações políticas de sua atuação.

Mesmo os arquitetos modernos do início do século XX, tidos como revolucionários pelo campo arquitetônico, ao se concentrarem nas maneiras de resolver determinados problemas arquitetônicos negligenciaram as causas, ou os porquês, da existência de tais questões. No Congresso Internacional de Arquitetura Moderna de 1929 em Frankfurt, por exemplo, ao tratarem da grande demanda por habitações no período pós-Primeira Guerra Mundial, causada pela migração em massa de pessoas da zona rural para as cidades, os arquitetos optaram pela construção em série de residências o mais barato possível e com áreas internas reduzidas ao mínimo tolerável. Como questiona De Carlo (1969), por que

as habitações deveriam ser as mais baratas possíveis e não, por exemplo, bastante caras; por que ao invés de empregar esforços para reduzir ao mínimo as áreas de piso, espaço, espessura, materiais etc., nós não devêssemos tentar produzir moradias espaçosas, protegidas, isoladas [termicamente], confortáveis, bem equipadas, ricas em oportunidades para privacidade, comunicação, trocas, criatividade pessoal etc. [...] A escala de prioridades estabelecida pelas estruturas de poder não fazem sentido exceto pela sua própria autopreservação, e além do mais, ninguém pode ou deve aceitar a baixa prioridade atribuída a moradia, a cidade e a paisagem.206

Ao favorecerem os clientes, os arquitetos ignoraram os usuários, uma das razões pelas quais esse mesmo autor sugere que a arquitetura venha perdendo progressivamente sua credibilidade. De Carlo (1969) propõe que uma verdadeira metamorfose é fundamental para que a arquitetura recupere um pouco de sua credibilidade, sendo necessário o desenvolvimento de novas características na prática arquitetônica e uma mudança de posicionamento por parte dos arquitetos, que devem abandonar o lado das estruturas de poder e escolher o lado dos usuários. Para que isso aconteça, o autor sugere que não existam barreiras entre construtores e usuários, fazendo com que o edifício e seu uso sejam duas partes de um mesmo processo, igualando as condições criativas e de decisão entre arquitetos e usuários. A metamorfose

[...] deve coincidir com a subversão das condições atuais, onde ser arquiteto é o resultado do poder delegado de maneira repressiva e ser arquitetura é o resultado de uma referência a códigos de classe que legitimam a exceção com uma ênfase proporcional ao grau de separação de seu contexto.207

O deslocamento do arquiteto para mais perto do usuário tem uma implicação fundamental que diz respeito à participação do usuário no desenvolvimento do projeto, alterando a noção do

206 [...] housi g should e as heap as possi le a d ot, fo e a ple, athe e pe si e; h i stead of aki g e e effo t to edu e it to

minimum levels of floor área, space, of thickness, of materials, etc, we should not try to make dwellings spacious, protected, insulated, comfortable, well-e uipped, i h i oppo tu ities fo p i a , o u i atio , E ha ge, pe so al eati it , et . […] The p io it s ale established by the power structures has no sense except that of its own self-preservation, and therefore no one can or should accept the low p io it assig ed to housi g, the it a d the la ds ape. DE CARLO, Giancarlo. Architecture´s public. In: JONES, Peter B. et al. (Org.).

Architecture and Participation. London: Spon Press, 2005.p.8

207 […] ust oi ide with the subversion of the present condition, where to be an architect is the result of power delegated in a repressive

fashion, and to be architecture is the result of a reference to class codes which legitimate only the exception, with an emphasis proportional to the deg ee to hi h it is ut off f o its o te t. DE CARLO, Giancarlo. Architecture´s public. In: JONES, Peter B. et al. (Org.). Architecture

arquiteto como o profissional que projeta para alguém, para o profissional que projeta com alguém. O processo de se projetar para algu , se se p e auto it io e ep essi o, po ais li e t ias ue sejam as inte ç es i i iais 208. Ao abrir o processo de projeto à participação, projetando com os

usuários, o projeto pode permanecer aberto e sujeito à modificações, renovando-se e adaptando-se, o que por fim altera a qualidade do próprio projeto, que legitima-se por meio de um processo democrático.209

Contudo, a participação dos usuários no processo de projetos tem algumas limitações, como por exemplo o número de participantes, a dificuldade de estabelecer um consenso entre todos, o extenso período necessário para discussões etc., o que poderia resultar em um projeto com características similares àqueles não participativos:

O resultado continuaria avesso à dinâmica da ação em tempo presente e a um espaço capaz de absorvê-la. Um projeto ou plano só escapa do dilema quando é elaborado por todos os envolvidos e numa situação em que pode ser revisto, criticado e

reformulado com agilidade condizente com a dinâmica dos eventos reais.210

Baltazar e Kapp (2010) discutem a questão da participação por meio do conceito de agenciamento políti o, defi ido o o "a apa idade de o jeti a e te i i ia a t a sfo aç o so ial , utilizando três esquemas de atuação: o esquema Renascentista-Moderno, o da participação-mediada e um esquema para a autonomia.211

O primeiro pode ser associado à prática convencional de arquitetura, na qual o papel do arquiteto consiste em articular espacialmente o poder político e econômico estabelecidos, impondo uma visão de mundo, por vezes ingênua, e que raramente opera em função de transformações sociais. O trabalho do arquiteto nesse primeiro esquema substitui o agenciamento por uma lógica de solução de problemas, consistindo em

[...] simplesmente resolver um problema definido de forma técnica e um tanto sofisticada, mas sem questionar seus fins, consequência ou nexo. Ele [o arquiteto] não está consciente de seu papel na sociedade e não está interessado no que suas ações possa ausa out as pessoas at ue ele es o se to e u usu io .[...] A população não tem nada a fazer, a não ser aceitar e admirar.212

208 [...] e ai s fo e e autho ita ia a d ep essi e, ho e e li e al the i itial i te tio s. Ibidem, p.13. 209 Ibidem, p.13.

210 BALTAZAR, A.P.; KAPP, S. Por uma arquitetura não planejada: o arquiteto como designer de interfaces e o usuário como produtor de espaços. Impulso, Piracicaba, v. 17, p. 93-103, 2006.

211 BALTAZAR, Ana Paula; KAPP, Silke. Against determination, beyond mediation. In: Florian Kossak; Doina Petrescu; Tatjana Schneider; Renata Tyszcuk; Stephen Walker. (Org.). Agency: working with uncertain architecture. Abindon: Routledge, 2010. p.5

212[...] simply in solving by a predefined problem with some technical means and a bit of fancy, but without questioning its ends, consequences

or nexus. He is not aware of his role in society and is not interested in what his actions could do to other people u til he o es to e a use hi self. I this se se, e take hi as a a i atu e of a uite effi ie t p ofessio als hose p a ti es fit i this s he e: the architect determines a design, negotiates it with patrons, in some cases justifies it vis-à-vis an intellectual community, and represents it in a code that gua a tees do i atio o e the uildi g site. The ge e al populatio has othi g to do ut to a ept a d ad i e . I ide , p.8.

No segundo esquema, da participação-mediada, os usuários participam das decisões de projeto em diferentes graus, podendo ser apenas manipulados, consultados, trabalharem em sistema de parceria com os arquitetos ou controlarem de fato as decisões. Apesar desse esquema ser significativamente melhor sob a ótica do agenciamento político que o anterior, mesmo quando os arquitetos e urbanistas engajam-se de fato nesse tipo de arranjo, estes ainda encontram-se numa posição de poder, determinando o framework da discussão, provendo informações especializadas, julgando a adequação das soluções e tendo a última palavra sobre as decisões de projeto. Como apo ta as auto as: O esultado desse odelo pa ti ipat io o dado pela est utu a do p o esso, mas depende em larga es ala da pe so alidade de ada p ofissio al .213

Já o terceiro esquema diz respeito ao projeto de interfaces para produção autônoma, com o objetivo de ampliar o potencial criativo dos usuários sem prefigurar soluções. Essas interfaces, que podem ser digitais, físicas, híbridas ou abstratas, devem ser abertas o suficiente para não obstruir os usuários e devem ser desenvolvidas de forma a aumentar a autonomia dos usuários e construtores, e por consequência, aumentar a possibilidade do agenciamento político.214

Esse últi o a a jo olo a e he ue o p p io papel do a uiteto, ue o o siste ais e dese ha o jetos a uitet i os ou u a ísti os, as p oduzi i te fa es . Dessa a ei a o a uiteto pode da u passo at s e, e luga de p edete i a espaços, criar instrumentos para que usuários e construtores possam determiná-los, eles p p ios .215

Embora a utilização de interfaces não implique automaticamente um processo de design a e to e a aio auto o ia dos usu ios, as aç es desses s o pote ializadas quando usam instrumentos cujos resultados não estão pré-p og a ados 216. O aumento da possibilidade do

agenciamento político via participação-mediada ou via interfaces, implica

[...] mudanças de atitude e não meras substituições metodológicas no âmbito de um processo tradicional de projeto cunhado pelo propósito da previsibilidade máxima. Tanto a noção de processo quanto a de produto precisam ser revistas, de modo que não mais se busquem procedimentos ou arquiteturas ideais, e sim possibilidades de cada indivíduo ou grupo decidir sobre o procedimento mais adequado a cada situação.217

213 The pa ti ipato out o e is ot gi e the st u tu e p o ess, but depends to a large extend on the personality of each professional .

Ibidem, p.8.

214 Ibidem, p.11-17.

215 BALTAZAR, A.P.; KAPP, S. Por uma arquitetura não planejada: o arquiteto como designer de interfaces e o usuário como produtor de espaços. Impulso, Piracicaba, v. 17, 2006. p.100.

216 Ibidem, p.102.

217 BALTAZAR, A.P.; KAPP, S. Por uma arquitetura não planejada: o arquiteto como designer de interfaces e o usuário como produtor de espaços. Impulso, Piracicaba, v. 17, 2006. p.101.

Para este trabalho, em função da possibilidade de maior autonomia por parte dos usuários nas decisões sobre a produção de seus espaços, optou-se pelo terceiro esquema, do projeto de interfaces. Além disso, para que essa interface tenha potência para transformar a prática arquitetônica, são necessárias algumas análises sob o ponto de vista econômico, estudando a própria definição clássica de empreendedorismo e a possibilidade de modificar a lógica econômica baseada na troca para uma outra mais interessante.