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A região Sudoeste do Paraná foi ocupada, numa primeira etapa, por descendentes de origem luso-brasileira, que se instalaram, a partir do início do século XIX, num espaço já povoado por populações indígenas de diferentes etnias (Kaingang, Guaranis e Xetás). Ao longo das décadas que se seguiram, o encontro dessas populações vai gerar um grupo social típico da região: o chamado caboclo. Em função de suas características sócio-econômicas, esse grupo de caboclos forjou historicamente um modus operandi próprio que se refletia em suas concepções de tempo e espaço, de apropriação dos recursos naturais, em particular a terra, de formas de organização social, de relação com o mercado, dentre outros traços culturais específicos. Essas populações dedicaram-se ao extrativismo da erva-mate e à criação de suínos, com finalidades comerciais, bem como ao cultivo de produtos de subsistência, principalmente milho e feijão, à caça e à pesca. Com o declínio do ciclo econômico da erva- mate, outra atividade extrativista passou a ser predominante: a exploração de madeira, em particular do pinheiro (Araucaria angustifolia), madeira nobre que caracteriza o ecossistema regional.

Por volta da década de 1940, o esgotamento dos solos nas zonas rurais dos estados do Rio Grande do Sul e Santa Catarina contribuiu para a expansão da fronteira agrícola em direção ao Paraná. Isso gerou um forte ciclo migratório de colonos gaúchos e catarinenses, principalmente de origem italiana e alemã, tendo por base três movimentos simultâneos: a ocupação de terras devolutas, a compra de posses dos caboclos e a colonização oficial, realizada por empresas colonizadoras que distribuíram lotes de terras aos colonos, tal como a CANGO – Colônia Agrícola Nacional General Osório, criada em 1943.

O encontro dos colonos de origem européia com os caboclos e as populações indígenas locais, que habitavam de forma dispersa o território, estabeleceu um conflito de culturas, de formas de relação e apropriação do espaço social. De um lado, as populações mais tradicionais praticamente desconheciam a noção de propriedade privada da terra e eram movidos por uma lógica extrativista, usufruindo dos recursos naturais a partir de um sistema de pousio florestal, que implicava na utilização de extensas áreas de terras. De outro lado, os colonos possuíam uma concepção de trabalho baseada na exploração agrícola e na propriedade familiar das terras.

Paralelamente a esse conflito cultural, um outro tipo de conflito, muito mais intenso e violento, ocorreu na região, originando a chamada Revolta dos Colonos, em 1957. A partir da década de 1950, os colonos que se instalaram na região passaram a sofrer ameaças e violências feitas por jagunços contratados pela CITLA – Clevelândia Industrial Territorial Ltda. Esta empresa, após quase duas décadas de litígio, recebera uma indenização do governo

federal: a titulação das terras da gleba Missões e de parte da gleba Chopim, cuja extensão compreendia quase toda a região Sudoeste. A CITLA pretendia expulsar os posseiros que não pagassem pelas terras ocupadas. Revoltados os colonos invadiram importantes cidades, tais como Capanema e Pato Branco, expulsaram as companhias colonizadoras da região e exigiram do governo federal o reconhecimento de seus diretos à posse das terras. Então, o governo federal desapropriou as terras supostamente pertencentes à CITLA e aprovou a instalação do GETSOP – Grupo Executivo para as Terras do Sudoeste do Paraná, que efetivou a titulação de mais de 32 mil propriedades nas áreas rurais da região.

O resultado dessa luta social marcou profundamente a história da região e constitui-se num forte elemento de identidade coletiva, na medida em que criou as condições para que em grande parte do território se instalasse uma forma de exploração da terra fundada no trabalho familiar desenvolvido predominantemente em pequenas unidades de produção.

Outro elemento estrutural da formação sócio-econômica da região Sudoeste tem como ponto de partida a implementação do modelo da Revolução Verde, a partir da década de 1960. O intenso processo de modernização conservadora que se efetiva nessa região, tendo como fundamento básico uma forte intervenção do Estado, por meio de um conjunto de políticas governamentais, em particular os incentivos à instalação de empresas agroindustriais e as políticas de crédito rural e de assistência técnica e extensão rural, promoveu mudanças profundas no meio rural, sob várias perspectivas. Do ponto de vista tecnológico, a introdução de máquinas e equipamentos agrícolas, e de insumos químicos alterou a matriz produtiva regional e gerou uma crescente dependência dos agricultores em relação a essas tecnologias. Numa perspectiva sócio-demográfica, a pressão exercida pela mecanização gerou um excedente de força de trabalho que, por sua vez, provocou uma acentuada onda migratória para os centros urbanos, desestruturando as relações sociais nas comunidades rurais locais. A dimensão ambiental desse espaço territorial sofreu impactos significativos, dentre os quais se pode destacar o desmatamento das florestas para o uso agrícola, o esgotamento dos solos em função do uso de agrotóxicos, a contaminação das águas pelos dejetos de animais (suínos e aves) e a ausência de formas de manejo adequado das bacias hidrográficas.

Paralelamente a esses processos sociais, desde meados da década de 1960, pode-se constatar o início de um intenso trabalho de formação e de organização social de lideranças rurais da região. Esse trabalho de reflexão e renovação da ação pastoral da Igreja, promovendo a criação de grupos de catequese e incentivando a organização dos agricultores familiares em sindicatos e cooperativas, foi articulado inicialmente pela Assesoar, entidade criada em 1966 por padres belgas ligados aos setores eclesiais comprometidos com a Doutrina Social da Igreja. O saldo político desse contínuo e persistente trabalho desenvolvido junto às famílias de agricultores consubstanciar-se-á na formação de grupos de agricultores com capacidade para intervir nos processos políticos locais. Paulatinamente, a partir de fins dos anos 70, esse trabalho levará à criação das primeiras formas de organização social (associações, oposições sindicais, movimentos de luta pela terra) e ao desencadeamento de diversas lutas do interesse dos agricultores familiares (Notas Promissórias Rurais, preços dos produtos, seguro agrícola) e dos agricultores sem terra, por meio das ocupações de latifúndios e dos acampamentos à beira de estradas (Ferreira, 1987). Particularmente, após a década de 1980, esse processo

formação de um sistema de cooperativismo de crédito solidário, a articulação de uma rede regional de associações de produção, agroindústrias e cooperativas de comercialização, a constituição de um sistema integrado de cooperativas de produção de leite e o surgimento de novas organizações não-governamentais de apoio a esses processos.

Portanto, pode-se afirmar que, sob uma perspectiva histórica mais ampla, o território do Sudoeste resulta de um feixe de relações sociais que combinou, nas últimas décadas, esses dois processos interdependentes que conviveram conflitivamente num mesmo espaço social: uma presença marcante da ação do Estado na indução das mudanças sócio-econômicas no meio rural e um intenso trabalho de organização social, econômica e política da agricultura familiar. Devido à acentuada desigualdade na correlação de forças, é evidente que os setores do capital ligados à implantação do modelo conservador de desenvolvimento agrícola e rural hegemonizaram a condução desse processo, conformando um perfil econômico regional voltado para a produção de grãos, leite e derivados, carnes e derivados, e, em menor escala, hortifruticulturas. Todavia, ainda que aparentemente de forma contraditória, ambos processos confluíram para a conformação e consolidação de um sentimento de identidade regional que tem as suas raízes históricas nas lutas sociais travadas no final dos anos 50.