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1. INTRODUCTION

1.3 Contribution of the thesis

A questão acerca da possibilidade de uma análise completa das proposições usuais e a sua relação com a autonomia da lógica reaparece, de maneira mais direta nos Notebooks, a partir de 1915. O problema incide, neste período, sobre o modo como a lógica deve se relacionar ao simples: “nós podemos passar (auskommen) sem objetos simples na LÓGICA?” (NB, 09/05/1915). Wittgenstein ainda busca um critério que permite distinguir aquilo que pode ser encontrado ao final do processo de análise das proposições usuais e se é necessário à lógica efetuá-lo. Se os objetos simples são indispensáveis à lógica e se eles podem ser considerados como o resultado final da análise, então, ainda persiste a questão de como é possível chegar até eles. Dito de outro modo, resta esclarecer o critério lógico que nos autorize determinar o sentido pleno de nossas proposições por meio da análise.

Após questionar-se a respeito da necessidade dos objetos simples para a lógica, a resposta de Wittgenstein parece, a princípio, ser negativa: “obviamente, são possíveis proposições que não contenham nenhum sinal simples, i.é., nenhum sinal que tenha uma referência imediata. E elas são realmente proposições, elas têm um sentido, e também as definições de suas componentes não precisam estar nelas” (Ibid.). Wittgenstein retoma um argumento já apresentado no início de 1914, de que as proposições da linguagem comum estão em perfeita ordem lógica, elas expressam um sentido determinado sem que seja necessário definir os sinais que nelas ocorrem. A lógica de nossas proposições é perfeita e não carece do significado dos sinais simples para expressarem os seus sentidos, elas não podem ir de encontro às regras da sintaxe lógica. Desse modo, em 1915, retoma- se aqueles dois aspectos que caracterizam a expressão “a lógica deve cuidar de si mesma”: por meio das regras sintáticas é possível construir proposições com sentido, sem a necessidade de recorrer a qualquer sinal simples que tenha uma referência imediata; isso também revela que é impossível cometer erros na lógica, a proposição usual tem sentido, mesmo que as suas partes ainda não tenham uma definição determinada.

No momento em que Wittgenstein se questiona acerca do simples e sobre a possibilidade de expressar um sentido claro através das proposições usuais, o problema da análise completa é recolocado em 1915:

Mas é claro que os componentes de nossas proposições podem ser esmiuçados, e têm de ser, se nós queremos nos aproximar da real estrutura da proposição. Em todo caso, portanto, existe um processo de análise. E agora não podemos perguntar se esse processo virá a ter um fim? E se sim: qual será esse fim? (NB, 09/05/1915)

Mesmo que um processo de análise exista, que seja possível desmembrar as proposições usuais através das definições de suas componentes, ainda falta um critério lógico que forneça um padrão de análise. Por esse motivo, talvez, as questões sobre o “fim da análise” são retomadas na passagem supracitada. Sem um parâmetro lógico para efetuar o processo de análise, como é possível determinar se tal processo terá um fim? Ou, dito de outro modo, talvez as proposições do cotidiano poderiam “ser esmiuçadas” ad infinitum e, se assim fosse, como seria possível mostrar a “real estrutura da proposição”? E mesmo que admitíssemos que a análise das proposições usuais deva ter um fim, que um tal processo não pode perdurar infinitamente, resta ainda esclarecer qual será esse fim, isto é, qual o critério lógico que nos permita identificar que a análise chegou ao seu final.

As entradas subsequentes do dia 09/05/1915 discorrem sobre a importância do processo de análise de nossas proposições: a análise completa das proposições usuais esclarece a maneira pela qual elas podem ser “decompostas” em proposições mais simples e revela como as suas componentes se definem através dos sinais simples. Se há uma razão para afirmar que a análise deve ter um fim, é que “um sinal definido designa via suas definições” (ibid.), isto é, um sinal está completamente definido quando se reconhece a cadeia definições pelas quais ele pode designar. Se assim fosse, a cadeia de definições teria de ter um fim (ibid.), teria de haver um sinal que não pode mais ser desmembrado por uma definição e que serviria como base para a definição de outros sinais. Uma proposição decomposta, que tem os seus sinais completamente definidos, diz mais que uma proposição não decomposta (ibid.). Quer dizer, a proposição expressa um sentido plenamente determinado quando os seus sinais forem totalmente definidos, quando ela for completamente analisada. À primeira vista, é por meio desse processo que a estrutura real da proposição poderia ser esclarecida.

A proposição completamente analisada tem de ser tão complexa quanto a sua referência e, a partir disso, é possível caracterizá-la como uma figuração do fato representado: figuração e fato têm a mesma multiplicidade lógica. As operações lógicas me permitem construir diferentes figurações de um mesmo fato, elas me permitem projetar diversas figuras sobre o mesmo fato (Ibid.). Há algo de característico no fato, que é comum a todas as figurações, e que, todavia, não depende de mim (ibid.). Talvez essa característica comum às figurações seja aquilo que Wittgenstein chamou de “protótipo”: “Mesmo que as proposições por nós utilizadas contenham todas as generalizações, ainda assim, os protótipos das componentes dos seus casos especiais têm de nelas ocorrer. Portanto, persiste a questão de como chegamos a eles” (Ibid. 07/05/1915). Um protótipo não pode ser representado por uma proposição e nem pode ser um objeto que é substituído por um sinal na proposição; o protótipo é determinado a partir de uma relação interna entre sinal e sinalizado (Ibid.

08/05/1915). Nesse sentido, o protótipo já ocorre nas proposições decompostas e nas generalizações que podemos construir a partir delas, pois i) a proposição completamente analisada mostra claramente a relação interna entre sinal e sinalizado; ii) esta relação determina um protótipo e, por meio dele, é possível construir uma gama de proposições com uma característica em comum.

Seguindo essa perspectiva, é possível dizer que através da classe de sinais da proposição “p” já está dada a classe de todas as proposições que dela podemos construir – por exemplo, a partir da classe dos sinais da proposição “φa” é possível construir “~φa” como uma proposição que nega a primeira. Isso indica algo necessário às proposições, é algo que tem de acontecer para reconhecê-las enquanto classes. Entretanto, Wittgenstein se questiona sobre o modo como uma classe de proposições pode ser dada: “Mas isso não pressupõe que a classe de todas as proposições foi dada? E como chegamos até elas?” (Ibid. 09/05/1915). Ora, se é possível esclarecer a classe de sinais das proposições elementares, então, através dos operadores lógicos, podemos construir classes de proposições que delas se seguem. Uma vez dadas todas as proposições elementares, estão dadas todas as classes de proposições que delas se originam. A questão incide sobre a maneira como nos é dada a classe de todas as proposições e, portanto, resta ainda esclarecer como é possível realizar uma análise completa delas.

As questões apresentadas por Wittgenstein no dia 09/05/1915 convergem sobre um mesmo ponto: sem um critério que permita reconhecer o simples, é impossível estabelecer que a análise completa das proposições usuais deva se assentar em sinais simples numa relação imediata com objetos simples. A relação interna entre sinal e sinalizado determina um protótipo que ocorre não apenas nas proposições elementares, mas também nas proposições que delas se originam, isto é, as proposições usuais contêm os protótipos das proposições que lhes servem de base. Entretanto, em meados de 1915, a possibilidade da determinação plena do sentido proposicional através da análise completa das proposições usuais ainda se apresenta como um problema não resolvido: restava ainda estabelecer um critério para a determinação plena dos protótipos, para reconhecer a relação interna entre sinal e sinalizado. Sem um parâmetro para a realização do processo de análise e um critério para a determinação do simples, torna-se problemático esclarecer como os protótipos das proposições elementares devem ocorrer nas usuais por intermédio da generalização.

Estas questões estão solidificadas no itinerário lógico-filosófico dos Notebooks. Como vimos anteriormente, as questões sobre a possibilidade de uma análise completa das proposições usuais caracteriza-se como um problema para a lógica: é necessário esclarecer o parâmetro lógico para o processo de análise e o critério que permita elucidar o seu final. Nas primeiras anotações dos

Notebooks, a análise completa deveria mostrar qual a forma lógica das proposições completamente

analisadas, deveria esclarecer a sintaxe lógica das proposições usuais. Entre os meses de abril a junho de 1915, a questão da análise completa das proposições usuais é redefinida a partir da possibilidade de determinação dos objetos simples, retomando um problema que afeta diretamente a autonomia da lógica. Se a lógica não pode passar sem objetos simples, é necessário um critério lógico que permita reconhecer o simples e se ele pode ser completamente determinado ao final do processo de análise das proposições usuais, quando os sinais simples forem completamente definidos. Nos meados do ano de 1915, uma alternativa intentada por Wittgenstein consiste em tomar o pronome da primeira pessoa do plural “nós” como critério para a determinação do simples. Ainda podemos compreender a problemática do simples por outro viés. Talvez, o ponto crucial do problema não seja caracterizado pela possibilidade/impossibilidade de estabelecer um critério para o simples, mas se no uso cotidiano de nossas palavras faz sentido dizer que há um simples. Quer dizer, para que as nossas proposições usuais tenham sentido, é necessário recorrer aos objetos simples como significado dos nomes? Mas parece que por meio dessa perspectiva a problemática acaba por ter de ser tratada a partir de “critérios” lógicos para reconhecer a necessidade ou a “dispensabilidade” de um processo de análise. Ou seja, se cabe à lógica esclarecer como as proposições usuais apresentam um sentido, então, é necessário esclarecer quais são os critérios lógicos para a determinação do sentido proposicional.