Flood, Socio-Economic Impediments and Impacts on Gender Relations
7.3 Contribution of Cultural Norms and Taboos in Shaping Women’s Lives
85 SIMMEL, Georg. O conceito e a tragédia da cultura. In: ÖELZE, Jessé Souza B. Simmel e a modernidade, Brasília: Ed. UNB, 2005, p.19.
86 ALONSO, Angela. “Crítica e mobilização”. In. Ideias em movimento. A geração de 1870 na crise do Brasil- Império. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2002. p. 277. ; CRUZ, Heloisa de Faria. São Paulo em papel
e tinta: periodismo e vida urbana 1890-1915. São Paulo: Edusp/Fapesp, 2000.
87 Estranho aqui também pode ser entendido conforme destacou Zygmunt Bauman, ou seja, algo que surge na ambivalência e nos permite desviar de uma analise dualista do mundo. Que possibilita subverter escapar das interpretações dicotômicas. BAUMAN, Zygmunt. Modernidade e Ambivalência. In: FEATHERSTONE, Mike (cord.). Cultura Global. Nacionalismo, globalização e modernidade. Petrópolis: Vozes, 1994. p. 155-182. Conforme Márica Regina Capelari Naxara, apontou usando o mesmo termo: o estranho não se acomoda ou se deixa acomodar com facilidade; não é repelido como um
outro e não é, ou dificilmente é, assimilado como igual. NAXARA, Márcia Regina Capelari. Pertencimento e alteridade: romance e formação – leituras de Brasil. In: NAXARA, Márcia Regina Capelari; MARSON, Isabel Andrade; MAGALHÃES, Marion Brepohl de (orgs.). Figurações do outro
na história. Uberlândia: EDUFU, 2009. p.244.
88 DARNTON, Robert. O grande Massacre dos gatos: e outros episódios da História Cultural Francesa. Rio de Janeiro: Graal, 1986. p. XIV, XV.
Ao tratar sobre os caminhos de Francisco Ayres da Silva, antes dos títulos e funções que o transformaram no Dr. Francisco Ayres da Silva, levo em consideração a crítica feita pelo sociólogo Pierre Bourdieu, no texto A ilusão biográfica, sobre uma prática comum nas produções que se dedicam a contar a história de uma vida. De acordo com o autor, é preciso evitar o caminho previamente orientado, já definido de antemão, que busca, nos acontecimentos de uma vida, com significados e direção já preestabelecidos, os elementos que confirmam ou condizem com a imagem já consagrada do sujeito. Pierre Bourdieu critica a postura que consiste em evidenciar tudo aquilo que corresponde a um fim específico, que tenta conferir, a partir da escrita, continuidade, essência e previsibilidade para existência do biografado.89
Assumir tal posicionamento seria qualquer coisa como mostrar que Francisco Ayres da Silva, desde criança, apresentava características de médico, jornalista e deputado. Não conformado com essa ilusão retórica é que procuro ponderar que os caminhos assumidos por Francisco Ayres são mais resultados das possibilidades que estavam disponíveis em sua época, do que propriamente fruto de escolha pessoal baseada na aptidão, predisposição e vocação para determinadas áreas e funções.
A primeira questão que salta aos olhos é a razão pela qual não se encontram, nos arquivos e livros que o citam, muitos registros sobre sua infância e adolescência. Sua visibilidade na fase adulta, sobretudo quando já havia se sagrado médico, jornalista e político, é disparadamente maior do que quando era apenas o filho do Coronel Joaquim Ayres da Silva. Certamente isso ocorre em virtude daquilo que se considera como digno de lembrança, ou seja, o momento em que a figura de Francisco Ayres da Silva ganha proeminência no cenário estadual, quando ganha distinção devido aos títulos associados ao seu nome.
O interesse maior em sua figura se dá no exato momento em que começa a participar, de forma mais efetiva, nas decisões políticas de Porto Nacional e da então região compreendida como Norte de Goiás. Pouco se sabe dos caminhos percorridos por ele nos últimos anos do século XIX até se tornar umas das figuras mais distintas daquelas paragens, no período que compreende os primeiros anos do século XX. A ausência de documentos sobre o período anterior a sua fase adulta tem alguns significados que gostaria de destacar. Primeiro, a imprevisibilidade de que este sujeito
89 BOURDIEU, Pierre. A ilusão biográfica. In: AMADO, J. ; FERREIRA, M (Coord.). Usos e abusos da
possuiria um nome próprio, que o tiraria da vala comum. Caso houvesse garantias de que Francisco Ayres da Silva se tornaria o Dr. Francisco Ayres da Silva, os vestígios deixados quando ainda era apenas um garoto portuense, com tenra idade, provavelmente seriam arquivados. Segundo significado, os acervos de Porto Nacional dão especial atenção aos aspectos da memória política e econômica, o que acredito não ser uma peculiaridade apenas daquela cidade. Terceiro, que a memória de Ayres só interessa na medida em que promova de alguma maneira a cidade Portuense, dando a entender que seu nascimento ocorre junto com a obtenção do título de médico, ou com a criação do Jornal Norte de Goyaz.
Certamente se faz necessário perscrutar a vida pregressa de Ayres antes da fase da maturidade adulta, porque expressa particularidades daquela época, importantes na definição dos contornos que ajudam a tornar mais inteligível o campo de possibilidades de ação numa região central do Brasil em plena configuração. Por isso dedico certa atenção para esse momento pouco documentado da trajetória do personagem/sujeito social em questão. Foi preciso escarafunchar os acervos para encontrar os rastros dessa passagem que estão, em boa parte, espalhados nos periódicos que circularam pelo país, especialmente, no Estado de Goiás, em meados do Século XIX, mas que agora servem como documentos reunidos para tratar sobre a história de uma vida, embora tenham sido arquivados com outros propósitos.
Então vejamos o que foi possível mapear da vida de Francisco Ayres da Silva antes do título de doutor, do veículo de comunicação que dirigiu e dos cargos políticos que ocupou. Francisco Ayres da Silva nasceu na cidade de Porto Imperial, pouco mais de uma década depois do momento em que aquele lugar deixaria a condição de Vila, do ponto de vista legal, para adquirir o status de cidade.90 Nos anos de 1870, Porto Imperial era uma das oito cidades que constituíam a organização administrativa da Província de Goiás.91 É interessante observar que Francisco Ayres nasceu numa cidade que acompanhou, através do próprio nome, todo o debate político e administrativo na história do Brasil oitocentista.
Quem sabe uma das poucas cidades que teve o nome alterado em razão das principais mudanças políticas e administrativas, que expressa a atenção por parte das autoridades, em todos os níveis, para com o lugar. Antes de ser denominada Porto Imperial, o lugar era uma vila chamada Porto Real. Foi no contexto do processo de
90 Conforme resolução provincial lei n. 333 de 13 de Julho de 1861. 91 Correio Official. Goyaz, 21/03/1874, p. 3.
emancipação política do Brasil, durante as primeiras décadas do século XIX, como uma forma de estabelecer, pela via legal, o domínio do Império sob aquele lugar, mesmo diante dos diferentes projetos que concorriam na província de Goiás, com o Império Brasileiro ainda em construção, que se tornou então Porto Imperial92, como forma de demarcação de território, estratégia para o estabelecimento do poder e domínio do governo Imperial de um país emancipado politicamente, até mesmo nos lugares mais distantes do Rio de Janeiro, naquele momento o centro do poder e capital do país.
Sendo assim, Francisco Ayres da Silva, com nascimento registrado em 11 de setembro de 1872, tem como palco inicial de sua formação uma cidade da província de Goiás, que ainda estava se construindo enquanto tal. Mas que, mesmo assim, já gozava de certo destaque para a realidade de Goiás, sobretudo porque era uma das pouquíssimas cidades que se localizavam na região chamada de Alto-Tocantins, talvez uma das primeiras definições do que se configurou como Norte de Goiás. O Rio Tocantins, como referência para aquele espaço ocupado, é significativo na medida em que teve papel decisivo para visibilidade da cidade Porto Imperial.
Devido a ligação com o rio, foi possível desenvolver atividades comerciais, especialmente com o estado do Pará, e de influência sobre as Vilas e Povoados que o cercavam. Tendo em vista que naquele contexto, as poucas ações efetuadas em termo de transporte, no nível de Goiás, estavam relacionadas com a navegação fluvial, por isso o Rio Tocantins era visto como uma via de esperança para possibilidades de desenvolvimento econômico da província, e consequentemente para o Brasil.93 De acordo com a autora Ana Lucia da Silva, Porto Imperial era um município estratégico comercialmente em relação ao norte, “por ser importante porto do Rio Tocantins, seus comerciantes possuíam flotilhas cujas embarcações de 18, 20 e 24 toneladas, que desciam até Belém, estabelecendo um ativo comércio entre Goiás e Pará”.94
A cidade em que Francisco Ayres da Silva nasceu já tinha lugar de destaque na organização administrativa da província de Goiás, embora não tão próxima da Cidade
92 Mais informações sobre como foi o processo de emancipação política do Brasil, na província de Goiás, ver: VIEIRA, Martha Victor. O movimento separatista do Norte Goiano (1821-1823): Desconstruindo o discurso fundador da formação Territorial do Estado do Tocantins. In. Revista Sapiência: sociedade,
saberes e práticas educacionais. UEG/Unu Iporá, v. 3, n. 1, p.63-84 – jan/jun 2014, ISSN2238-3565.; ALENCASTRE, José Martins Pereira de. Anais da Província de Goiás (1863). Brasília: Gráfica Ipiranga, 1979.; RIBEIRO, Fabrízio de Almeida. A invenção do Tocantins: memória, história e representação. Goiânia. Dissertação (Mestrado em História), Universidade Federal de Goiás, 2001.
93 OLIVEIRA, Maria de Fátima. Cidades Ribeirinhas do Rio Tocantins: Identidades e fronteiras. Goiânia. Tese (Doutorado em História), Universidade Federal de Goiás, 2007. p. 77-135.
de Goyaz, como as cidades da região sul, mas também não tão distante da Capital como a cidade Boa Vista, do extremo norte, atual Tocantinópolis. Porto Imperial era uma das sedes na divisão política e administrativa, e uma das comarcas na divisão judiciária que ocupava a região do Araguaia e Tocantins. Conforme indicou a autora Ana Lucia da Silva, em meados do século XIX, Porto Imperial, apesar de exercer figura de destaque e influência no norte de Goiás, já era menos desenvolvida, do ponto de vista econômico, que a maioria das cidades da região sul, visto que estas estavam mais próximas das regiões economicamente mais dinâmicas do país naquele momento, como por exemplo, Minas Gerais e São Paulo.95
É significativa a década em que Francisco Ayres da Silva veio ao mundo, trata- se de um período em que algumas mudanças ocorreram no Brasil, que resvalaram de uma maneira ou de outra na província de Goiás, acabando por preparar o terreno que tornou possível alguns dos caminhos posteriormente trilhados pelo então recém-
95 SILVA, Ana Lucia. A revolução de 30 em Goiás. op. cit. p. 87-88.
De acordo com Ana Lucia da Silva, que toma como referência as bacias hidrográficas do Tocantins e Araguaia, acima do paralelo 16, a província de Goiás se dividia em região centro-norte e região sul. A região norte, que abrange a região do Planalto, o nordeste, as bacias do Tocantins e do Araguaia e o extremo norte do estado. A região sul, que abrange o Mato Grosso Goiano, o sudoeste e o sudeste. Segundo a autora: “Em 1872, a região centro-norte abrangia 60% do território goiano. Os habitantes somavam 72.807 pessoas, que representavam 40% da população global. A área compreendia 14 unidades municipais. Pode-se dividir a região em duas áreas de ocupação: 1. A faixa centro-oriental, com cerca de 80.430 Km², dividida em 8 municípios: Formosa, Forte, Posse, Cavalcante, São Domingos, Arraias, Taguatinga e Conceição. A população totalizava 39.298 habitantes. A comunicação com o sul da província era feita pela estrada do norte que, partindo de Meia Ponte, passava pelas vilas de Cavalcante, Arraias, Conceição, e arraial de São Miguel das Almas. Outra estrada partia de Santa Luzia em direção a Vila Formosa da Imperatriz, alcançando pelo vão do Paranã a povoação do Chapéu e a vila de Arraias. As articulações econômicas da região eram principalmente com a Bahia e Pernambuco, para onde exportavam gado e de onde importavam sal, ferragens, secos e molhados. Por meio de Formosa da Imperatriz, via Paracatu, a região ligava-se também com Minas, para onde exportava gado.
2. A região do Araguaia e Tocantins, com uma população de 33.590 habitantes, espalhada em 302.007 km², compreendendo os municípios de Pilar, São José do Tocantins, Palma, Natividade, Porto Imperial e Boa Vista. As articulações da região eram principalmente com o Pará, por meio da exportação de gado, couros, peles e da importação de produtos manufaturados essenciais ao consumo. As comunicações inter- regionais eram feitas utilizando-se os rios que servem a região. No mesmo período a região sul do estado abrangia 40% do território, com uma população de 87.588 habitantes, formada por 12 unidades administrativas. Era a área economicamente mais desenvolvida já que a região gozava de melhores condições naturais (...) E, principalmente, a região se beneficiava de sua proximidade com as regiões mais dinâmicas da economia nacional, com as quais mantinha relações econômicas constantes por intermédio do comércio de exportação e importação, além de beneficiar-se de constantes fluxos migratórios, que se deslocavam para a região atraídos pela fertilidade do solo. Convém notar porém que excetuando-se o sudoeste, a área estava relativamente ocupada, tendo administrativamente 13 municípios: Goiás (capital), Jaraguá, Meia Ponte, Bonfim, Pouso Alto, Vila Bela de Morrinhos, Santa Cruz, Santa Luzia, Entre Rios, Catalão, Pilar, Rio Verde e Rio Bonito. Suas estradas interligavam os núcleos sedes dos municípios e os articulavam com a Corte. A estrada do sul, que conduzia a província de São Paulo, ligava a caital a arraia de Anicuns e à Vila Bela de Morrinhos e daí ao Paranaíba, continuando pelo Triângulo, rumo a São Paulo. A estrada do sudeste, saindo da capital, passava por Meia Ponte, Jaraguá, Corumbá, Santa Luzia, Bonfim, Santa Cruz, Entre Rios, Catalão e depois Minas.”
chegado cidadão portuense. Não se trata necessariamente de mudanças efetivas na política, mas, no mínimo, de se olhar para a forma como a configuração política brasileira sofreu alterações.
A historiadora Angela Alonso, na obra Ideias em Movimento, ajuda a pensar o Brasil nessa década de 1870, quando o desmoronamento do Império se tornava cada vez mais evidente. Enquanto Francisco Ayres da Silva estava nos primeiros anos de vida, havia crise no Império, surgiram vários grupos de contestação ao status quo imperial que se organizavam em torno de partidos, clubes, associações, jornais, entre outros. Isso não quer dizer que antes não havia críticas à tradição imperial, contra a escravidão e monarquia, bem como a defesa da República, no entanto, essas críticas foram acentuadas e ganharam grande visibilidade e circulação através das mobilizações por meio de passeatas, recitais, banquetes, comícios, viagens, obras de interpretação de conjuntura etc.As autoridades goianas estavam atentas aos novos rumos dos debates, sobretudo em razão das possíveis alianças políticas que seriam necessárias para manutenção e ampliação do poder. Essas mobilizações se alastraram pelo país de forma descentralizada, porém, não anárquica do ponto de vista doutrinário, através do que a autora chama de redes informais de solidariedade, que deram suporte aos movimentos de contestação para germinarem nas diversas províncias do país apontando para uma nova forma de fazer política. 96
Segundo a autora, trata-se de um contexto em que se acentuou a urbanização e aumentou o acesso ao ensino superior, de maneira que as instituições de ensino se tornaram meios de ação, mais úteis do que a própria política. Formaram-se então grupos contestadores que ambicionavam mais as novas possibilidades de poder frente à marginalização política característica do Segundo Reinado do que efetivamente novas alternativas políticas. De maneira que a formação dos grupos não se explica tanto pelas ideias, mas sim pelas oportunidades políticas que cada grupo poderia oferecer, estabeleceu-se, portanto, uma nítida política de oportunismo. Por isso em Goiás, principalmente a partir desse momento, tornou-se difícil, praticamente impossível, compreender o trânsito dos membros de um grupo para o outro pela lógica das ideias, mas nem tanto pela lógica da oportunidade política. Goiás era uma província que sofria marginalização política e viu nessa guerra contra o regime monárquico uma forma de
96 ALONSO, Angela. Ideias em movimento: A geração de 1870 na crise do Brasil- Império. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2002. p. 265-268.
mudar a situação.97
No seu relacionamento com as províncias, a política imperial brasileira caracterizou-se pela imposição de presidentes. Eles normalmente não tinham nenhuma representatividade e legitimidade local. Mesmo que os grupos locais se beneficiassem da política econômica imperial, a partir da década de 1870 buscaram se articular em algumas tendências partidárias, a fim de exercerem maior influência junto ao poder politico local, tentando controla-lo.
Não possuindo interesses econômicos fundamentalmente divergentes, na medida em que pertenciam à classe dominante agropastoril, as lutas entre as diferentes facções locais travam-se na instância política.98
As alianças, rupturas, articulações, rearticulações, conflitos, dissidências entre as classes dominantes se tornaram mais frequentes e intensas nos últimos anos da Monarquia. Não houve homogeneidade de pensamento nos movimentos contestadores do regime monárquico, os projetos que se apresentaram pelo Brasil são diversos, por vezes contraditórios, unificados, em certo sentido, apenas pelo antagonista, ou seja, pela crítica e oposição à tradição imperial que limitava o acesso de muitos ao poder político.99 Goiás entra nessa discussão como uma província pouco assistida pela corte imperial, que deu eco às insatisfações dos grupos oligárquicos por maior participação no poder e controle. Embora Goiás não tenha se transformado de forma significativa do ponto de vista da estrutura social e econômica, as ideias republicanas ganharam espaço no cerne das oligarquias dominantes, resultando num emaranhado de posições dentro de tendências partidárias, todavia nenhuma delas ameaçou diretamente os interesses da elite agrária e comercial goiana.
Enquanto Francisco Ayres da Silva crescia em estatura, cresciam também os debates sobre Abolicionismo, República, Monarquia, Federalismo, Positivismo, reformas, revolução dentre outros temas. As questões nacionais eram discutidas não apenas na capital do império, mas também nas províncias, cada um interpretando as
97 Idem; ibdem; p. 268.
98 SILVA, Ana Lucia. A revolução de 30 em Goiás. op. cit. p. 61-63
99 Para Angela Alonso existia uma pluralidade de projetos que conviviam e concorriam. Havia aqueles que defendiam a revolução, outros que queriam apenas reformas, alguns que desejavam simplesmente medidas pontuais, outros que dissociavam República de Abolição, como também aqueles que defendiam a indissociabilidade entre a Abolição e República. Para alguns o momento ainda não era ideal para a República, defendendo uma implementação gradual das reformas possíveis na monarquia, sob a responsabilidade dos republicanos.
ALONSO, Angela. Ideias em movimento: A geração de 1870 na crise do Brasil- Império. Op. cit. p. 320- 322.
informações conforme seus próprios interesses.100 Conforme elucida Maria Tereza Chaves de Mello, para além das questões de dimensão política, social e econômica é necessário observar o sistema simbólico que tomou forma nesse momento de crise do Império. Trata-se de um quadro de “disposição mental para o novo, socialmente difundida no Brasil do final do Oitocentos. A palavra de ordem era, então, reforma. Reformas para acelerar o advento do télos – de qualquer maneira inevitável, segundo entendiam – do progresso e civilização”.101
Prevaleceu a ideia de que as reformas eram absolutamente indispensáveis para uma construção futura, porém, irrealizáveis pelo regime monárquico e suas instituições, que foram severamente dessacralizadas e desestabilizadas. Goiás, nesse contexto, foi invadido por um novo repertório intelectual, mas também adaptou, criou e disseminou a seu modo, não necessariamente nessa ordem, as chamadas “ideias novas”, “ideias avançadas”, sobre o progresso, o futuro rumo à civilização, à democratização, que foram atreladas à República e incorporadas aos discursos dos liberais, conservadores ou republicanos. A percepção da crise monárquica e das suas instituições foi acompanhada por uma percepção de futuro que almejava reformas que colocariam o país no “nível do século”, adequando o estado de Goiás à civilização.