Para analisar o reconhecimento tátil das imagens em relevo neste estudo, foram participantes da pesquisa treze crianças e adolescentes clinicamente diagnosticados cegos, na faixa etária entre oito e dezesseis anos.
A investigação compreendeu alguns momentos e lugares distintos, de acordo com a acessibilidade possível, nas cidades de Blumenau, Brusque, Curitiba, Itajaí e Florianópolis, entre maio de 2008 e março de 2009, a maioria em instituições que trabalham com educação especial na área de deficiência visual. Duas entrevistas foram feitas no domicílio dos entrevistados (em Brusque e em Itajaí).
As características restritivas necessárias na seleção dos participantes, para garantir um resultado eficaz na investigação foram a faixa etária dos indivíduos (oito a dezesseis anos) e o diagnóstico clínico (cegueira precoce, sem resíduo de memória visual).
Embora a escolha dos participantes da investigação não tivesse sido direcionada previamente neste sentido, considera-se relevante relatar, devido a algumas evidências nos resultados coletados, que oito das treze crianças cegas participantes da análise têm ou tiveram experiências anteriores com aprendizagem de desenho. Sete indivíduos tiveram contato com o desenho de modo sistematizado, um aprendeu a desenhar com familiares e cinco nunca haviam desenhado.
O fator experiência com desenho foi um dado que surgiu no decorrer da pesquisa, levando-nos inclusive a alterar o cronograma, ampliando a complementação da pesquisa de campo para entrevistas com mais indivíduos sem esta característica. Portanto, o número de entrevistados, que inicialmente seria dez, passou a treze crianças/adolescentes.
O quadro a seguir (Quadro 1) traz a caracterização dos participantes da pesquisa de campo; o local onde foram feitas as entrevistas, o sexo, a idade, o diagnóstico clínico e o fator estimulação para o desenho. A identidade dos entrevistados foi preservada, constando apenas uma letra como inicial de seus nomes.
Além das entrevistas com as crianças e adolescentes cegos para a análise do relevo, foram entrevistados ainda dois autores e dois ilustradores de três dos livros infantis escolhidos (Quadro 2), com o objetivo de conhecer o processo de concepção e produção do relevo nesta espécie de publicação. Foram contatados dois autores e dois ilustradores; dois livros são da mesma autora (Firirim Finfim e A Bruxa Mais Velha do Mundo - Elizete Lisboa) e um livro foi escrito e ilustrado pela mesma pessoa (Um Mundinho para Todos - Ingrid B. Bellinghausen).
Quadro 1
Caracterização dos Participantes na Análise das Imagens em Relevo
Local Nome Sexo Idade Diagnóstico Escolaridade e
Estimulação para desenho Curitiba C. F 08 Glaucoma congênito18.
Fez estimulação visual e ainda distingue algumas cores.
1ª série - Frequenta aulas de artes desde início 2007.
Bom reconhecimento de formas.
Curitiba B. M 08 Descolamento de retina
congênito19. 2ª série - Frequenta aulas de artes desde início 2007. Bom reconhecimento tátil. Curitiba K. M 08 Descolamento de retina,
cegueira precoce. Segundo a mãe,
enxergava um pouco com um dos olhos até os 2 anos.
2ª série - Frequenta aulas de artes desde início 2007. Florianópolis J. F 08 Má formação do nervo
ótico na gestação. 2ª série - Não freqüenta aula de artes. Florianópolis P. F 10 Catarata20 (genético):
avó, tias e mãe possuem o mesmo problema.
4ª série - Não freqüenta aula de artes.
Blumenau L. F 10 Glaucoma congênito. 4ª série - Não freqüenta aula de artes; aprendeu com a avó a fazer alguns desenhos.
Curitiba T. M 12 Descolamento de retina, glaucoma e catarata. Alta miopia, com
posterior descolamento de
6ª série - Frequenta aulas de artes desde agosto de 2006. Bom reconhecimento tátil;
desenha muito.
18 Quando vemos um objeto, a imagem é transmitida do olho ao cérebro através do nervo óptico. Esse nervo funciona como um cabo elétrico, contendo cerca de um milhão de fios que levam a mensagem visual lateral ou periférica e também a visão central, usada para leitura. O glaucoma pode destruir gradativamente esses "fios elétricos", causando pontos cegos na área de visão. O Glaucoma pode não provocar dor e os portadores dessa doença só percebem sua existência quando os danos são graves e irreversíveis. Se todo o nervo óptico for destruído, irá ocorrer uma cegueira definitiva. O Glaucoma pode ser: de ângulo aberto, de Ângulo Fechado, Congênito ou Secundário. (CBO, 2009).
19
As causas primárias são: trauma, descolamento do vítreo, tumores. Fatores que predispõem são a miopia e a afasia. (BARBIERI, 2009).
20 Opacidade do cristalino. As causas podem ser: hereditariedade; rubéola; síndrome de Down; diabetes e outras condições. (BARBIERI, 2009).
retina em ambos os olhos. Com baixa visão
congênita, perdeu a visão de um dos olhos aos 2 anos, e do outro aos 5 anos. Não tem percepção de luz e apresenta glaucoma em ambos os olhos e início de catarata em um. Curitiba L. M 14 Retinopatia da pré- maturidade21. Nasceu de 6 meses, o excesso de oxigenação na incubadora queimou a retina.
7ª série - Frequenta aulas de artes desde maio de 2008. Curitiba T. F
14 Retinopatia da pré-maturidade. Nasceu de 5
meses de uma gravidez de risco, o excesso de oxigenação na incubadora queimou a retina.
7ª série - Frequenta aulas de artes desde agosto de 2006.
Florianópolis
M. F 14 Tumor cerebral. 8ª série - Participa do grupo de pesquisa em desenho (LabDIA- UDESC) desde 2002. Representações gráficas e bom reconhecimento tátil.
Itajaí
V. M 15 Retinopatia da pré-maturidade. Nasceu de 6 meses, o excesso de oxigenação na incubadora queimou a retina.
8ª série - Não freqüenta aulas de artes.
Brusque M. M
15 Retinopatia da pré-maturidade. 1ª série do E. Médio - Não freqüenta aulas de artes.
Florianópolis
A. M 16 Atrofia do nervo óticoem decorrência de 22 convulsão, 24 horas após o nascimento.
1ª série do E. Médio - Não freqüenta aulas de artes.
21 Alterações vasculares da retina e do vítreo que podem levar ao descolamento total da retina, causada pela prematuridade e baixo peso, e por uso excessivo de oxigênio. (BARBIERI, 2009).
22
Degeneração, ou má-formação do nervo óptico. Pode ser congênita de causa não conhecida, hereditária, ou como parte de um conjunto de anomalias. (BARBIERI, 2009).
Quadro 2
Caracterização dos Participantes da Concepção das Imagens em Relevo
Local Idade Nome Profissão
Belo
Horizonte 51 José Carlos Aragão Ilustrador, jornalista, escritor, ator e dramaturgo. É graduando em Escultura pela Escola de Belas Artes da Universidade Federal de Minas Gerais.
Ilustrou “A Bruxa Mais Velha do
Mundo”, instrumento da pesquisa.
Belo Horizonte
57 Elizete Lisboa Escritora de literatura infantil. Professora.
Autora de “A Bruxa Mais Velha do
Mundo” e “Firirim Finfim”,
instrumento da pesquisa.
São Paulo Ingrid Biesemeyer Bellinghausen Escritora e ilustradora de literatura infantil. Autora e ilustradora de “Um
Mundinho para Todos”, instrumento
da pesquisa. Obs.: Estas entrevistas foram realizadas via correio eletrônico.
A autora e o ilustrador de “Um Presente Muito Especial”, também utilizado na análise, não foram localizados.