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A história de constituição dos congados apresenta uma estratégia de resistência cultural e social, acrescidas da revolta dos escravos, da configuração dos quilombos e de outras organizações negras contra o sistema escravocrata.

O congado, citando Souza (2006), pode ser vista como uma forma de conceber e transmitir a história, permeada de ritos religiosos e mitos que fundamentaram crenças e comportamentos. A Igreja e a sociedade, de certo modo, aceitaram o festejo, conforme circunstâncias do lugar e do momento. Nas igrejas, os negros tiveram seus padroeiros como um importante elemento aglutinador, sendo os templos espaços de convívio dos grupos que se articulavam na irmandade.

Esta manifestação apresenta-se como uma modalidade do catolicismo popular; entretanto, caracterizada por uma reinterpretação do catolicismo oficial, realizada pelos negros, tendo em perspectiva a sobrevivência de suas formas de expressão religiosa. A manifestação adquiriu uma certa autonomia em relação à instituição católica, definindo-se por sua vinculação a uma modalidade de fé, e não a uma instituição.

Percebemos que os mitos que deram origem ao congado apresentam uma passagem, de uma situação de aflição, sofrimento e aprisionamento, para uma nova ordem social, política, artística e filosófica. A memória deste conhecimento é instituída na e pela

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Criada e introduzida na década de 1970, como forma de associar elementos da cultura afro-brasileira (ritmos, batuques, coros) com textos da liturgia católica romana.

performance ritual dos congados, por meio de técnicas e procedimentos ligados ao corpo. A concepção filosófica e africana inclui as divindades, a natureza cósmica, a fauna, a flora,

elementos físicos, mortos e vivos, o que constitui a “visão negro-africana do mundo”

(MARTINS, 2002).

Através dos mitos de origem, os membros falam das relações raciais no espaço onde vivem, fazendo sua crítica, expressando o seu desejo de viverem em uma sociedade sem tanta discriminação e exclusão social. Nesse sentido, os santos de devoção – Nossa Senhora do Rosário, São Benedito, Santa Efigênia e Nossa Senhora das Mercês – representam símbolos dominantes da diversidade, no processo de construção das identidades negras no congado.

Souza (2006) reforça que a apresentação do congado, na qual o rei congo vence os pagãos e é reconhecido como propagador da fé cristã; a lenda do resgate de Nossa Senhora do Rosário das águas, que separam o Brasil da África; e Chico Rei, que libertou seus companheiros negros através do trabalho e da determinação, são elementos que os afrodescendentes recorrem, para afirmar identidades baseadas em um catolicismo permeado de africanidades, construídas no corte traumático representado pela travessia do oceano e pela escravização.

A manifestação foi, até o século passado, vista de forma pejorativa pela Igreja Católica, pois a herança cultural-religiosa gestada no período colonial persiste ainda no preconceito, desconhecimento e não reconhecimento das tradições religiosas de matriz africana. São interessantes os apontamentos de Góis (2008, p. 95) a respeito:

Não é difícil para um brasileiro identificar e classificar determinada expressão religiosa ou rito como sendo matriz africana. Todavia, é muito difícil encontrar com a mesma facilidade um brasileiro que saiba explicar os símbolos e ritos provenientes dessa matriz. A explicação e compreensão dos ritos e símbolos das expressões religiosas de matriz africana necessitam de incursão desde o ponto de vista interno dessa experiência espiritual. Desse modo, a explicação e compreensão dessas manifestações religiosas têm o significado de uma desconstrução do discurso colonizador religioso ainda persistente em nosso contexto.

Deste modo, o congado buscou se firmar através da articulação de crenças e valores religiosos diversos (catolicismo/religião afro-brasileira) e, também, das diferenças entre negros e brancos, para tornar possível a afirmação da identidade afro-brasileira por meio de uma experiência concreta, de convivência e socialização neste meio religioso-cultural. A memória coletiva dos congadeiros e a reverência à ancestralidade foram fundamentais pois, como afirma Andreas Huyssen (2000, p. 72), “sem memória, sem a leitura dos restos do passado, não pode haver o reconhecimento da diferença [...] nem a tolerância das ricas complexidades e instabilidades, de identidades pessoais e culturais, políticas e nacionais”.

Cabe enfatizarmos aqui um ponto fundamental: o catolicismo negro no Brasil é distinto do catolicismo africano. Neste último caso, predominava-se a religião tradicional dos bantos, e assim era permitida a invocação das divindades africanas. Porém, ainda que sob o manto da ancestralidade africana, os afro-brasileiros se afirmaram por meio da incorporação da qualidade de cristãos e propagadores do cristianismo.

Mas, com a perda da importância das irmandades e um maior rigor no controle da Igreja sobre as práticas religiosas dos negros, as festas de congo tornaram-se restritas a alguns grupos que mantiveram padrões tradicionais de religiosidade e sociabilidade. Souza (2006) aponta, e podemos observar, que as festas de reinado passaram a incorporar cada vez mais pessoas mestiças, e até mesmo brancas, que se identificavam mais com uma classe socioeconômica mais baixa. Contudo, os componentes africanos da celebração não foram eliminados, e podemos identificá-los nos ritos atuais. Contribuíram para isso as tradições transmitidas entre as gerações e a utilização de objetos, cujo valor remete a uma magia pagã, tais como tambores – e as atribuições de cada grupo e seus componentes.

Interessante apontarmos que, até a década de 1970, não havia um instrumento jurídico que amparasse a valorização e a preservação dos congados. As discussões sobre direitos humanos e culturais ainda não exerciam largo alcance nas instituições governamentais – locais, nacionais e internacionais. E, conforme citamos anteriormente, as medidas de salvaguarda de tradições e formas de expressão cultural começaram a ser regulamentadas no início do século XXI.

Deste modo, podemos perceber o empenho e a determinação que os congadeiros tiveram para manter vivas e presentes a sua fé, a lembrança da história de seus antepassados e a herança que eles deixaram para as gerações posteriores. São crenças muito antigas, como tratamos aqui; e mesmo assim, permaneceram fortes na mentalidade dos congadeiros.

Sob esse prisma, Montes (2007, s. p.) justifica a necessidade de se registrar esta manifestação, no contexto da política pública brasileira de preservação do patrimônio:

Este é o patrimônio imaterial que, mesmo sob o peso de 400 anos de escravidão, os africanos e seus descendentes souberam preservar, em celebrações onde se

guardavam “conhecimentos e modos de fazer enraizados no cotidiano das comunidades”, fragmentos de outras visões de mundo, outras cosmologias e outras

crenças religiosas. Foram elas que a oralidade ou as linguagens corporais do ritmo,

do canto e da dança puderam preservar, em “manifestações musicais, plásticas, cênicas e lúdicas” (MINC, 200527

), performances sagradas ou profanas que tinham lugar nas ruas e praças e santuários e “demais espaços onde se concentram e

reproduzem práticas culturais coletivas”. Estes são os bens culturais de natureza

intangível que hoje adquirem a dignidade de patrimônio a ser preservado, dando lugar ao registro, como patrimônio cultural brasileiro [...].

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Enfim, diante do que foi discorrido, concluímos que essa manifestação não revela somente traços da cultura negra, mas parte da cultura brasileira. O congado é realizado em vários pontos do Brasil, e revela valores e feições simbólicas característicos das comunidades que o realizam, bem como informações históricas a respeito da formação e evolução da religiosidade e dos aspectos culturais, em várias regiões do país. Por esse motivo, é crucial que ele seja registrado e preservado, ação essa que deve ser realizada por instituições ligadas ao poder público e representantes da sociedade civil. É sobre isso que trataremos no próximo capítulo.

5 O REGISTRO DO CONGADO: REFLEXÕES SOBRE POSSIBILIDADES E