Metodologias de pesquisa são orientadas, necessariamente, por correntes de pensamento. Nessa seção é proposta uma breve discussão acerca dessas diferentes correntes e é apresentada aquela que mais se aproxima desse estudo para auxiliar o leitor na sua compreensão. No entanto, toda a discussão acerca dessas correntes não se esgotarão nesta parte. Espera-se apenas mostrar para o leitor a importância do reconhecimento dessas correntes e, de maneira simplificada, porém esclarecedora, distinguí-las.
Entre as principais correntes de pensamento orientadoras da maior parte das pesquisas em ciências sociais aplicadas, destacam-se o positivismo lógico ou hipotético-dedutivo, o estruturalismo (fenomenológico; genético; e de modelos) e o materialismo dialético ou método dialético (RICHARDSON, 1999; VERGARA, 2004; EASTERBY-SMITH et al, 1999).
O positivismo lógico parte de pré-concepções ou hipóteses acerca de seu objeto de estudo e procura padrões na amostra escolhida que possam ser validados para diferentes populações e outras amostras (EASTERBY-SMITH et al, 1999; EVERED e LOUIS, 1981). Para o positivismo, o mundo é externo e objetivo, sendo permitido ao observador isolar e manter distância de seu objeto de pesquisa sem que influencie sua pesquisa (VERGARA, 2004; EASTERBY-SMITH et al, 1999).
Diferentemente dessa visão, o estruturalismo busca focar nas relações, e não nos objetos existentes e seus elementos – dentro de um determinado contexto, i.e. a sociedade - (RICHARDSON, 1999; EASTERBY-SMITH et al, 1999). Essa corrente permite a adoção de subjetivismos e interpretação de significados. Em outras palavras, o estruturalismo aceita o fato de a ciência ser movida por interesses humanos e o fato de que o pesquisador é parte do objeto que se observa (EASTERBY-SMITH et al, 1999). O estruturalismo busca fazer o
mesmo tipo de observação em diferentes realidades e tenta inferir acerca das chances de aplicação de uma determinada teoria proposta em outros cenários ou relações sociais (EASTERBY-SMITH et al, 1999). Essa corrente não tem tendência a buscar grandes amostras, como no positivismo, para estabelecer padrões. Prefere pequenas amostras que devem ser investigadas em profundidade a partir de diferentes visões.
Segundo Gil (1987), a reflexão fenomenológica – uma das vertentes do estruturalismo na medida em que procura entender uma relação ou fenômeno – ajuda o pesquisador na formulação de problemas, na construção de objetivos e na definição de conceitos. Quando o objeto é o ser humano, essa corrente se mostra bastante adequada a permitir uma aproximação com a natureza dos fenômenos observados, em busca de sua forma e seu conteúdo.
Portanto, a corrente estruturalista defende a aproximação do pesquisador com seu objeto de análise. Como defendido por autores dessa corrente, não é possível se distanciar do objeto de estudo de maneira a tornar os resultados de uma pesquisa imparcial. Ou seja, segundo os defensores dessa corrente, o positivismo, com sua intenção de imparcialidade, é utópico. Assim, os vieses ou “interesses” de uma pesquisa devem ser considerados (EASTERBY-SMITH et al, 1999).
O presente estudo se identifica, portanto, mais com a corrente estruturalista. Por se interessar por um fenômeno relacional pouco explorado pela academia em administração (compreensão da aproximação entre empresas ex-estatais do setor de telecomunicações e produtos culturais), essa corrente de pensamento permite elucidar particularidades relevantes ao entendimento do fenômeno. Não significa que outras correntes, como, por exemplo, a positivista, não fossem adequadas para sua compreensão. Porém, como se pretende uma maior aproximação e conseqüente descoberta de detalhes específicos do fenômeno, essa foi a corrente escolhida.
Além disso, corrobora-se com argumentos levantados por Easterby-Smith et al (1999) e Flick (2004) acerca dos vieses políticos de pesquisas em administração. Como destacado anteriormente, esses autores apontam para o fato de que pesquisas nas ciências sociais são carregadas de vieses políticos ou de interesses de diferentes interlocutores, constituintes ativos ou passivos do contexto em que determinada pesquisa é realizada. Essa característica contribui para um caráter “unidimensional” nas pesquisas em administração orientadas por uma corrente predominantemente norte-americana, positivista e quantitativa (GODOY, 1995a; MAANEN, 1979). Esse fato torna a administração uma área particularmente complicada para investigações (EASTERBY-SMITH et al, 1999). Ao dar mais importância a
determinados rigores metodológicos, há um afastamento dessas investigações às questões cotidianas e aos problemas do dia-a-dia dos praticantes (FLICK, 2004; EVERED e LOUIS, 1981). Essa postura colaboraria para o afastamento entre teoria e prática, muito criticado nas ciências sociais e em administração por um número crescente de autores (FARIA, 2005; HAMBRICK, 2004; BROWNLIE et al, 1999).
No que diz respeito às disciplinas em administração abordadas nesse estudo (estratégia e marketing), os vieses da pesquisa e o conseqüente domínio de uma corrente se confirma. Autores reconhecidos por ambas as áreas, além de apontarem para os possíveis atores e seus respectivos interesses envolvidos no processo de constituição de pesquisas acadêmicas, chamam a atenção para a falta de pesquisas que criticam essa realidade, ou que propõe contribuições sob diferentes abordagens metodológicas (WITKOWSKI, 2005; FARIA e GUEDES, 2005; HAMBRICK, 2004; BERTERO et al, 2003; WHITTINGTON et al, 2003; BROWNLIE et al, 1999; SHERRY, 1987; ARNDT, 1985). Entre esses atores “interessados” se destacariam editoras, empresas financiadoras de projetos e parceiras de universidades, as próprias comunidades acadêmicas, entre outros.
Além de esse estudo estar mais próximo à corrente estruturalista, pode-se também diferenciar sua orientação entre qualitativa e quantitativa. Antes de aprofundarmos sobre essas vertentes, cabe lembrar que “na prática, os pesquisadores envolvidos não se atêm
escrupulosamente a uma ou outra abordagem. Ainda que a distinção entre os dois paradigmas [qualitativa e quantitativa] possa ser muito clara no nível filosófico (...), quando se trata de usar os métodos (...) a distinção se desfaz” (EASTERBY-SMITH et al, 1999, p.
31). Esses autores, corroborando Mannen (1979), indicam ainda a importância na mistura de diferentes métodos, ou uma espécie de triangulação (ver também VERGARA, 2005; EVERED e LOUIS, 1981). Nesse caso, propõe-se, ainda, que essa mistura não se dê apenas entre qualitativo e quantitativo, mas também em relação às correntes de pensamento existentes.
Como este estudo é sobre um processo ou uma relação entre objetos de uma dada realidade organizacional – fatores que também justificam o seguimento da corrente estruturalista –, a pesquisa também se utiliza de preceitos de uma pesquisa qualitativa (FLICK, 2004; MAANEN, 1979). Apesar de a pesquisa nas ciências sociais ter sido marcadamente orientada por estudos que valorizam métodos quantitativos para explicar e descrever fenômenos, nos últimos trinta anos, estudos de caráter qualitativo passaram a ser
reconhecidos (GODOY, 1995a; 1995b)20. Enquanto um estudo quantitativo prioriza o estabelecimento de planos a priori, a formulação de hipóteses, a definição de variáveis e a quantificação e medição dos resultados, a pesquisa qualitativa permite que as questões de investigação caminhem em aberto (GODOY, 1995a; 1995b). Uma pesquisa de vertente qualitativa prevê um significativo processo de interação entre pesquisador e campo e uma compilação de dados descritivos e sua análise a partir de pontos de vista interpretativos e subjetivos (GODOY, 1995a; MAANEN, 1979). Em suma, pode-se dizer que essa vertente de pesquisa acompanha proximamente preceitos da corrente estruturalista.
Entre as principais características da pesquisa qualitativa, Godoy (1995a) destaca: [a] ter o ambiente como fonte direta de informações e o pesquisador como instrumento fundamental; [b] ser descritiva; [c] o investigador deve se preocupar com o significado que as pessoas dão às coisas e à sua vida; e [d] os pesquisadores devem utilizar o enfoque indutivo na análise dos dados (GODOY, 1995a). Assim como também previsto pelo estruturalismo, o foco se centra mais nos processo que nas estruturas (MAANEN, 1979).
Por essa vertente de pesquisa não se espera o emprego de um instrumental estatístico, nem a criação de unidades de medida, e nem uma comparação entre determinadas categorias de natureza numérica. Entretanto, não é correto dizer que uma pesquisa qualitativa não se relaciona com uma quantitativa. Como afirmado anteriormente, as duas podem coexistir, ou mesmo se complementar (MAANEN, 1979). Richardson (1999) argumenta que “em geral, as
investigações que se voltam para uma análise qualitativa têm, como objeto, situações complexas ou estritamente particulares” (p.80) e, mais adiante completa:
Os estudos que empregam uma metodologia qualitativa podem descrever a complexidade de determinado problema, analisar a interação de certas variáveis, compreender e classificar processos dinâmicos vividos por grupos sociais, contribuir no processo de mudança de determinado grupo e possibilitar em maior nível de profundidade, o entendimento das particularidades do comportamento dos indivíduos (RICHARDSON, 1999, p. 80).
No caso desse estudo, dados quantitativos servem apenas para ilustrar conteúdos predominantemente qualitativos. Dados quantitativos, oriundos de pesquisas de natureza mais ampla contribuíram para justificar a importância de uma investigação mais próxima, ou qualitativa, de empresas ex-estatais do setor de telecomunicações no Brasil. Pode-se delinear com números a importância que empresas ex-estatais, especialmente as do setor de
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Deve-se destacar que nas disciplinas de marketing e estratégia, o uso de abordagens qualitativas ainda é um desafio à corrente dominante (BROWNLIE et al, 1999; BERTERO et al, 2003).
telecomunicações, têm para a disseminação de produtos culturais de acordo com os Quadros 2.7, 2.8, 2.9 apresentadas no capítulo anterior. Além disso, dados quantitativos indicam esse setor como um dos que mais tem movimentado recursos financeiros no mundo e mais vem sofrendo mudanças com os crescentes processos de avanço e convergência tecnológicos e sua importância estratégica para países, tanto os hospedeiros das empresas privatizadas, quanto os “donos” dessas empresas e responsáveis pelo seu avanço pelo mundo, conforme destacado no capítulo anterior.
Assim, os números apresentados, ratificam a importância de estudos mais aprofundados sobre o setor de telecomunicações em países em desenvolvimento como o Brasil, bem como acerca da crescente aproximação entre esse setor e produtos culturais. Dessa maneira, a pesquisa qualitativa é indicada para promover o aprofundamento da análise em relação aos temas apontados, permitindo novas descobertas e conclusões, ou confirmando outras já existentes (FLICK, 2004).
No que diz respeito à produção acadêmica focada em estudos qualitativos, alguns autores criticam a realidade na área de administração (RICHARDSON, 1999; FLICK, 2004; EASTERBY-SMITH et al; 1999; GODOY, 1995a; MAANEN, 1979). Além de alguns pontos já mencionados, esses autores ressaltam o fato de que em administração predomina uma corrente de pesquisadores e acadêmicos céticos quanto à prática de estudos qualitativos. Eles argumentam que desde o fim da Segunda Guerra e com a ascensão da academia norte- americana, a corrente do positivismo lógico tem predominado juntamente com uma bagagem quantitativa. Apesar de se verificar atualmente diversas escolas preocupadas com a disseminação de pesquisas qualitativas e, portanto, mais plurais, a corrente dominante em pesquisa em administração ainda é essencialmente “unidimensional”. Isso não implica dizer que a corrente dominante não seja válida. O problema é que ela tem predominado não a partir da sua própria validação ou auto-afirmação, mas, a partir da negação e desconstrução de abordagens concorrentes.
Particularmente em relação às disciplinas de marketing e estratégia, essas críticas se confirmam. Autores preocupados com o avanço das disciplinas e defensores de abordagens mais críticas, plurais e qualitativas, vêm sendo marginalizados pelo discurso dominante dessas disciplinas (WITKOWSKI, 2005; FARIA, 2005; HAMBRICK, 2004; BERTERO et al, 2003; WHITTINGTON et al, 2003; BROWNLIE et al, 1999; SHERRY, 1987; ARNDT, 1985). Mais uma vez, ao lançar mão de uma investigação qualitativa sobre a aproximação entre ex-estatais do setor de telecomunicações e produtos culturais, tendo como disciplinas de
interesse, estratégia e marketing, esse estudo tenta contribuir para o avanço em pesquisas em administração mais plurais.