Não existe entre os autores uma coincidência de posições no que se designa por sociedade pós-industrial, também referenciada, entre outras, pelas seguintes designações: sociedade pós-capitalista, sociedade pós-moderna, sociedade da informação, sociedade do conhecimento, sociedade das organizações.
Esta variedade de termos para envolver a emergência de uma nova realidade social, distinta da sociedade industrial, origina uma falta de clareza e uma ambiguidade na definição do conceito e, até certo ponto, na indeterminação dos seus contornos.
Defrontamo-nos com essa dificuldade na análise meramente literal dos termos compostos de pós e na identificação semântica das outras designações.
É certo que, como afirma Hassan (1985), citado por Kumar (1987) se, ao referir a designação de mudanças deste tipo utilizássemos um termo distinto, estabelecer-se-ia logo a diferença.
É que o prefixo pós gera ab initio a ambiguidade, porque não estabelece uma fronteira clara entre aquilo que acaba e aquilo que se inicia. Ao utilizá-lo, identifica-se o que vem depois e, o que se pretende definir faz-se por referência a uma situação anterior o que não provoca a ruptura que conferiria autonomia e nome próprio.
No caso presente, a designação de mudanças sociais, feita por um termo distinto, não supera, porém, essa dificuldade. Quando se nomeia, por exemplo: a sociedade da
informação, a sociedade do conhecimento, a sociedade das organizações, a dificuldade
subsiste, porque o termo com que se designa a nova realidade está associado às diferentes perspectivas de análise que a abordam.
Até aos anos 60, as teorias sociais interpretavam como padrões sociais e mudanças económicas as decorrentes da evolução tecnológica, introduzida pela máquina a vapor e a mecanização da produção. Mas, a partir de finais dos anos 60, as novas mudanças tecnológicas, ocorridas nas sociedades capitalistas avançadas, contribuíram para que a cultura, a estrutura social e a organização económica revelassem também novas tendências evolutivas.
Na análise social contemporânea, o conceito de sociedade pós-industrial foi introduzido por Bell (1973) e utilizado por Touraine (1994). Aliás, Bell emprega o termo pós-industrial para descrever as novas estruturas sociais das sociedades modernas da segunda metade do século XX, definindo como princípio axial da nova realidade: a mudança de produção de bens para uma economia de serviço, a preeminência de uma classe técnica profissional e a criação de uma nova tecnologia, não deixando de reconhecer a continuidade da sociedade industrial evidenciada noutros traços1.
Touraine (1994) utiliza a expressão pós-industrial para caracterizar uma situação que não é de dissolução completa entre o sujeito e o actor e que reflecte um campo de acção cultural e social ainda mais fortemente estabelecido do que a sociedade industrial hoje em dia em declínio.
Para este autor, a modernidade, enquanto cultura temporalmente situada, assente no diálogo entre a razão e o sujeito, não está obviamente ultrapassada. Está em crise, por se ter ultrapassado o predomínio da razão. Mas, sem a razão, o sujeito encerra-se na obsessão da sua identidade e sem sujeito a razão torna-se instrumento de poder. É este o paradoxo da pós-modernidade.
Abreviando, podemos afirmar que a interpretação central da evolução social assumida por vários autores depois de Bell baseia-se na verificação dos princípios de mudança económica e de estruturas sociais, muito embora a perspectiva das análises de mudança seja fundamentada por abordagens diferentes, como passamos a expor.
As interpretações das análises sociais à luz das teorias pós-modernas, por exemplo, na síntese de Nicolas Herpin (1997), consideram três tendências evolutivas de pós- -modernização: os estilos de vida, as formas flexíveis de organização económica e a alteração da hierarquia social, deformada nos seus extremos2.
1
Para Bell (1973) “the industrial society of the twentieth century, with its dependence on technology and science is far different from the manufacturing society of the previous two centuries “. Na interpretação deste autor, a revolução industrial significava uma mudança no emprego do campo para a fábrica, e o pós- industrialismo uma mudança no emprego da fábrica para o escritório ou para a loja.
2
Segundo Herpin (1997), por um lado os trabalhadores já não formam uma classe, mas uma underclass sem harmonia, formada por imigrantes e pessoas isoladas, e por outro lado, no outro extremo, a classe superior distingue-se cada vez menos da classe média. As classes médias tornaram-se menos distintas, numa nebulosa.
Na sistematização de Kumar (1987), feita do ponto de vista das abordagens teóricas, as teorias agrupam-se em três grandes categorias: as teorias da sociedade da informação, as teorias pós-fordistas e as teorias pós-modernas as quais, segundo o autor, partilham a noção de que o desenvolvimento tecnológico mudou os meios de produção e a formação da vida social.
Ora, a variedade de posições e de interpretações teóricas, que estas duas sistematizações pressupõem, reflecte que estamos perante uma transformação profunda da sociedade industrial independentemente de ser nomeada por designações diferentes.
Admitindo essa evidência e analisando agora as várias interpretações sob o ângulo dos problemas fundamentais que a mudança evidencia, os cientistas sociais têm na sistematização de Sousa Santos (1994) pontos de vista de igual modo diferenciados:
a) Uns consideram como problema fundamental o confronto de modelos de sociedade (sociedade liberal moderna versus sociedade comunista ou capitalista e referem o fim da História 3 (Fukuyama, 1992);
b) Outros entendem que, antes de todos os problemas, está o problema da incapacidade da sociedade delimitar e perceber os problemas fundamentais. São as concepções pós- modernas (Lyotard, Vattimo, Baudrillard, Lipovetsky, Maffesolli);
c) Outros, ainda, questionam os pressupostos epistemológicos, porque consideram que foram eles e o tipo de racionalidade cognitivo instrumental e de conhecimentos técnicos e científicos os grandes responsáveis pelo abandono da reflexão sobre os problemas fundamentais (Habermas, Derrida, Foulcault, Wallerstein);
d) Um quarto grupo defende que a sociedade capitalista avançada esgotou as virtualidades do desenvolvimento social e que se atingiu uma desregulação global e um impasse de soluções devido à erosão sofrida pelos mecanismos institucionais e culturais que até agora corrigiam os défices e excessos do desenvolvimento capitalista.
3
O argumento de Fukuyama (1992) é que a democracia liberal, a tolerância que ela traz consigo e a riqueza que a torna possível removeram a vontade de lutar por grandes causas, Estamos afundados em conforto. Quando competimos é pela taça do mundo ou por medalhas de ouro, objectivos que não produzem grandes ideais, nem alimentam revoluções. Sentimo-nos contentes no conforto. Quando o progresso científico e económico levar cada vez mais sociedades à fase do contentamento veremos o fim da História. “… O fim da História será muito triste. A luta pelo reconhecimento, a disposição para arriscar a própria vida por um objectivo puramente abstracto, a luta histórica a nível mundial que provocou audácia, coragem, imaginação e idealismo serão substituídos por cálculos económicos, pela resolução sem fim de problemas tecnológicos, pelas preocupações ambientais, e pela satisfação das exigências do consumidor sofisticado. No período pós-histórico não haverá nem arte, nem filosofia, apenas a guarda e cuidado perpétuos do museu da historia humana.
Para estes, não há uma solução radical nem uma solução moderada. Discutem várias alternativas interpretativas: a alternativa ecológica (Lester Brown), a alternativa socio-económica (Aglietta; Lipietz), a alternativa socio-política (Touraine, Chantal Mouffe, Giddens; Beck).
Situar-nos-emos na alternativa socio-política, optando pelas perspectivas teóricas de autores que fazem uma leitura institucional da mudança, entendida como processo.
Nas ciências sociais e humanas, várias disciplinas, entre as quais citamos a psicologia social, a sociologia, a economia, a história, as ciências políticas, têm contribuído para a compreensão da mudança na perspectiva referida.
No que se refere às organizações, as várias correntes de pensamento têm-se construído à volta de dois grandes pólos de análise: o funcionamento das organizações e o estudo do comportamento dos indivíduos, se bem que hoje a maioria dos investigadores admita que existe uma dinâmica interactiva entre estrutura e actores.
A opção que faremos não toma como critério de escolha tanto as correntes de pensamento, mas autores com afinidades nas áreas da sociologia, gestão e ciências políticas, que nos interrogam na compreensibilidade das políticas de Administração da Educação.
Escolhemos a perspectiva de modernização reflexiva de Beck (1994) e Giddens (1994) e as abordagens de dois autores significativos nas Ciências de Gestão: Drucker (1994) e Handy (1989- 1995) pela forma como abordam a compreensão das políticas de gestão, não se limitando a quadros de intelegibilidade meramente funcional, mas equacionado a regulação dos sistemas organizacionais e políticos nas tendências evolutivas da sociedade em que vivemos4.