São muitas as interpretações sobre a mudança das sociedades contemporâneas situadas numa perspectiva analítica socio-política. Optámos pelas abordagens de Giddens e Beck (1994), na medida em que constituem uma proposta interpretativa nova no pensamento sociológico.
Com efeito, os autores da sociologia clássica (Weber, Durkheim, Simmel), concebiam o processo de mudança como uma justaposição linear e dicotómica de tradição e modernidade,
4
Drucker concebe a gestão numa sociedade institucional, onde as grandes tarefas são feitas por instituições e desenvolve os conceitos de trabalhador do conhecimento e sociedade das organizações. Na análise de Handy a sociedade contemporânea caracteriza-se por uma mudança descontínua, marcada por paradoxos e irracionalidade, exigindo novas organizações, novas pessoas com novas qualificações e padrões de carreira.
enquanto Giddens e Beck contrapõem uma outra concepção de mudança social5, interpretando-a como um processo que se desenvolve em três estádios ou períodos subsequentes: a tradição, a modernidade simples e a modernidade reflexiva.
No fundo, a ideia que estes autores introduzem é a de que as sociedades modernas não são completamente modernas e que a modernidade reflexiva é um último estádio6 de modernidade, introduzido com o advento da sociedade industrial por um processo de destradicionalização que para Giddens (1994), não significa ausência de tradição, mas mudança de estatuto da tradição.
Na interpretação dos autores, na sociedade moderna a colectividade (Geselschaft) substitui a comunidade (Gemeinschaft), traço dominante da sociedade tradicional e constitui um estádio que precede a modernidade reflexiva (reflexive Gesellschaft).
Na sociedade tradicional, a família, agregando no seu seio membros de diferentes graus de parentesco, tinha um papel fundamental na constituição da comunidade (Gemeinschaft), traduzido numa partilha de sentidos. A igreja e até as próprias classes sociais tinham uma importância fundamental na organização social com as quais o indivíduo mantinha uma relação de obediência, de subjugação.
A revolução industrial veio quebrar essas velhas e tradicionais estruturas sociais da Gemeinschaft, favorecendo o aparecimento de um outro tipo de família (na expressão de Beck, família nuclear, reduzida, por razões de ordem socio-económica, a pais e filhos) e criando uma nova série de estruturas (os sindicatos, o welfare state, as burocracias governamentais, a própria classe como estrutura) que substituem as estruturas tradicionais.
A comunidade institui-se numa colectividade (Gesellschaft) sem rosto que partilha interesses, abandonando os elos comunais da Gemeinschaft7.
Mas, segundo estes autores, na modernidade instaurada com a revolução industrial, o processo de individualização na relação indivíduo/estrutura só se fez em parte, visto que o indivíduo continua ligado e subjugado às novas estruturas e deste modo, a modernização
5
Lash (1998:2), na introdução a Risk Society de Beck (1998) a este propósito refere o seguinte: “Theories of
“simple” modernization, from Habermas to Marx to mainstream Parsonian sociology, all share a sort of utopic evolutionism, whether its motor be communicative rationality, the development of the means of prodution, or structural differentiation and functional integration … for Beck the consequences of scientific and industrial development are a set of risks and hazards”.
6
Os estádios distinguem-se uns dos outros pela organização e pela estruturação social ou seja, pela forma como as comunidades se constituíram.
7
Voltaremos a este conceito de comunidade no capítulo seguinte, analisando a teorização de Reynaud que retoma a ideia de comunidade como partilha de um projecto.
completa só aparecerá, quando uma individualização posterior vier libertar a acção destas estruturas sociais modernas e quando se verificar a devolução do poder às pessoas (empowerment).
Assim, na teorização de Giddens, Beck e Lash (1994), é comum o entendimento de que a modernidade simples é apenas um estádio, uma metade da modernidade, que se completa quando a sociedade tiver atingido a modernidade reflexiva (Beck) ou a reflexividade institucional na expressão de Giddens8.
O conceito de modernização reflexiva/reflexividade institucional considera que a modernização envolve uma mudança estrutural a nível individual e a nível social.
A mudança estrutural, no primeiro caso, resulta do facto dos indivíduos serem forçados a tomar decisões sobre o seu projecto de vida (opções que dizem respeito à sua vida privada: preferência sexual, filhos, escolhas profissionais, etc.). A nível institucional, a modernização envolve não só uma mudança estrutural das organizações/instituições, mas uma mudança na relação entre estruturas e actores.
A modernização reflexiva revela-se, na opinião de Lash, como uma “theory of ever
increasing power of social actors or “agency” in regard to structure … and a very strong programme of individualization” (Lash, 1994:111).
Tomando apenas em consideração a primeira dimensão deste conceito9, retemos como ideia principal e estruturante que a mudança social operada pela globalização na modernidade reflexiva veio libertar os indivíduos das estruturas colectivas e abstractas (classe, nação, família, crença incondicional no valor da ciência), permitindo um novo relacionamento institucional.
Foi o dinamismo industrial e a modernização que provocaram esta mudança, diluindo os contornos da sociedade industrial. Esta mudança não foi planeada. Veio subtilmente e passou ao lado dos debates políticos e das decisões nas instituições governamentais.
8
Giddens explicita a escolha do termo e clarifica o conceito da seguinte forma:
“… institucional reflexivity, a term which I favour over reflexive modernization. Reflexive modernization tends
to imply a sort of “completion” of modernity, the bringing into view of aspects of social life and nature that were previously dormant. There is, as it were a clear “direction” of development supposed here. Yet such a situation is not really found today. Instead, we face more confusing circumstances in which …there are no longer clear paths of development leading from one state of affairs to another. A social universe of expanded reflexivity is one marked by the rediscovery of tradition as well as its dissolution; and by the frequently eccentric disruption of what for a time seem established trends.” (Giddens, 1994:185).
9
A segunda dimensão da individualização pessoal, tematizada por Giddens como love e intimacy, não cabe no âmbito desta investigação.
Segundo o ponto de vista dos autores, a sociedade industrial tornou-se obsoleta na sua estruturação face ao desenvolvimento tecnológico e científico e fez surgir a emergência duma sociedade de risco, o que significa que certos traços da sociedade industrial avançada se tornam ipso facto social e politicamente problemáticos.
A nova postura dos cidadãos, face às diferentes interpretações da ciência e a formas alternativas de exigência de conhecimento, cria novas formas de solidariedade social, novas formas de regulação, novos espaços éticos que afectam os expert systems e geram perplexidade sobre o carácter mutante das políticas.
Trata-se de mudanças, muitas vezes dificilmente apreensíveis que não ocorrem a nível do Estado, mas vêm alterar a ordem estabelecida, visto que os actores adquiriram uma capacidade de reflectir sobre as suas condições sociais e de modificá-las. É com base nesta constatação que os autores sustentam a tese de que quanto mais longe for a modernização
das sociedades modernas, tanto mais os fundamentos da sociedade industrial são dissolvidos, consumidos, mudados, ameaçados. (Beck, 1994: 174-176).