O volume Psiquiatria Social, já anteriormente referido, inicia-se com uma explicação prévia por parte do editor, Gomes de Carvalho (1867-1952), em que este caracterizava Cebola como sendo “pessoa competentíssima, que até hoje em Portugal se tem realizado, em favor dos alienados”; alguém que se poderia orgulhar de “haver sido o primeiro médico português, que depois de estudar lá fora as modernas modalidades da assistência prestada aos doentes de espírito”, bem como de em seguida as divulgar, estimulando desse modo os superintendentes das instituições psiquiátricas nacionais452.
Segue-se, posteriormente, a transcrição de duas entrevistas a Luís Cebola publicadas igualmente no Diário de Notícias, a 26 de Novembro de 1925453– transcrita integralmente no ponto 4 dos anexos (ver anexo 4 pp. 353-359) – e a 21 de Outubro de 1926454. A primeira foi
451 Cebola, op.cit, 1906, pp. 163, 164, 168, 171. 452 Cebola, Luís, op. cit., 1931, explicação prévia. 453 Diário de Notícias, 26 de Novembro de 1925, p. 1. 454 Diário de Notícias, 21 de Outubro de 1926, pp. 1, 5.
128 realizada após o seu regresso de uma viagem por Espanha e Itália, e intitulava-se “Doidos à Solta”. Nesta entrevista, o psiquiatra versava sobre o aumento do número de doentes mentais, nomeadamente sofrendo de neurastenia, amência e vesânia devido aos traumas sofridos durante a Primeira Guerra Mundial. Cebola acrescentava ainda que durante o pós-guerra, o número de perturbações mentais aumentara sobretudo devido à “desordem económica e financeira, com o seu cortejo de miséria, esbanjamento, ganância e orgia”455. Referia-se, além disso, a estatísticas do número de indivíduos alienados no país, avançando a existência de dez mil sujeitos sofrendo de doenças da mente. Afirmava que apenas dois mil desses mesmos doentes se encontravam de facto hospitalizados, significando que oito mil estariam vagueando “por aí, rotos e esfaimados, pelos campos ou pelas ruas da cidade, ostentando os seus delírios e sujeitando a família a toda a sorte de insultos e de agressões”456. Não citava, contudo, nenhuma referência para corroborar os números avançados. Os censos de 1920 e de 1930 indicam, contudo, números diferentes dos indicados por Cebola. Os primeiros apontavam a existência de quatro mil quinhentos e setenta e seis doentes mentais e os segundos indicavam o número de sete mil oitocentos e quatro. Além disso, nos censos de 1920, para além da categoria de alienados, existe uma outra, intitulada de “idiotas”, em que são referidos seis mil quatrocentos e vinte e quatro indivíduos457, o que somado à categoria dos alienados perfazia um total de onze mil doentes do foro psíquico, valor superior ao indicado por Luís Cebola na dita entrevista.
Ao longo desta entrevista, Cebola apelava à necessidade de melhorar os serviços de assistência aos doentes mentais em Portugal, clamando que este estado de degradação e estagnação, no que se referia às questões sociais por parte dos nossos governantes, nos afastava das ditas nações avançadas. Adoptava um discurso crítico em relação à sociedade portuguesa, caracterizando-a como sendo atrasada, ignorante, desleixada, vil e “fútil e pretensiosa”458, relembrando que por contraste:
Vai pela Europa inteira um movimento esplêndido de actividade à volta das questões puramente sociais que demandam solução. No tocante à assistência dos alienados, pode bem dizer-se que a obra em marcha é já uma realização notável459.
Descrevia em seguida os hospitais psiquiátricos que havia visitado em Espanha e Itália. No primeiro país, visitou hospitais psiquiátricos pertencentes à OHSJD, um localizado em Carabanchel e o outro em Ciempozuelos (ambas as localizações situadas nos arredores de
455 Cebola, Luís, op. cit., 1931, pp. 7-8. 456 Idem, p. 8.
457 Censo da População de Portugal no 1º de Dezembro de 1920: 6º Recenseamento Geral da População. 458 Cebola, Luís, op. cit., 1931, pp. 8-9.
129 Madrid), e o de S. Baudílio, em Llobregat, localizado a 20 quilómetros de Barcelona. Cebola informava que em Espanha a maioria dos hospitais psiquiátricos era gerido pelos irmãos de OHSJD. Do primeiro, o de Carabanchel, hospital dedicado ao tratamento de doentes epilépticos, Cebola destacava os pavilhões intercalados por jardins e pátios; o facto de os doentes se dedicarem a “trabalhos de indústria, agricultura ou jardinagem”, e de ser praticado um regime livre460. De Ciempozuelos, com uma população de dois mil doentes, Cebola recordava a existência de vários pavilhões cujas instalações descrevia e também de um jardim com 4000 metros quadrados, no centro do qual se localizava uma enfermaria, “ampla, clara e higiénica”, com lotação para cinquenta doentes. Em relação ao espaço exterior, Cebola descrevia-o como sendo florido e arborizado, rodeado por muros “em salto de lobo”, permitindo desse modo alcançar “dilatados horizontes”, conferindo aos internados a sensação de que não se encontravam reclusos no hospital. Mencionava outrossim as oficinas de carpintaria, ferraria, sapataria, tipografia, lagares de vinho e azeite e uma padaria. Considerava-o como sendo um estabelecimento modelar, elogiando o laboratório psicopatológico do mesmo. De S. Baudílio elogiava o pavilhão dos sujos e epilépticos, pela arquitectura singular, e pelo “asseio irrepreensível”461
Em Itália, havia visitado o Hospital Psiquiátrico de Florença, com uma população de mil e seiscentos doentes, em que destacava a clínica e o “vastíssimo parque”, as salas de hidroterapia, fotografia, arquivo, duas bibliotecas e o anfiteatro462, e também o Manicómio de Roma, evidenciando, à semelhança do que fez para os restantes, a organização dos doentes nos diversos pavilhões, a estrutura interna dos mesmos edifícios, e ainda a extensão dos jardins463. Acerca do primeiro hospital, Cebola refere ainda ter visitado os anfiteatros onde o Professor Eugenio Tanzi (1856-1934) lecionava as suas aulas: “o anfiteatro, com o seu aparelho de projecções luminosas onde o prof. Tanzi464 realiza as suas prelecções”. Salientamos esta referência, uma vez que este psiquiatra e neurologista italiano é o único médico referido por Cebola nas suas entrevistas acerca das viagens de estudo. É impossível saber, com exactidão, se os dois médicos se conheceram, porquanto Cebola não nos oferece essa informação na entrevista. Contudo, baseando-nos na personalidade do psiquiatra – narrando sempre os seus encontros com figuras notáveis465 – conjecturamos a hipótese de que os dois não se tenham encontrado aquando desta visita, ou, no
460 Idem, p. 9. 461 Idem, p. 11. 462 Idem, pp. 11-12. 463 Idem, pp. 12-13.
464 Eugenio Tanzi (1856-1934), psiquiatra e neurologista italiano, privilegiou a psiquiatria de orientação
biológica, tendo-se dedicado à investigação nas áreas da memória, atrofia muscular e histeria. Foi um dos fundadores da Rivista di Patologia Nervosa e Mentale. Professor na Universidade de Florença de 1895- 1931. Pertenceu à geração de psiquiatras italianos que implementou o ensino da psiquiatria, bem como a lei de assistência psiquiátrica (1904). Ver Peccarisi, C.;Boeri, R.; Salmaggi, A., “Eugenio Tanzi (1856- 1934) and the begginings of European neurology”, in Journal of the History of the Neurosciences: Basic
and Clinic Perspectives, 3, 3, 1994, pp. 177-185.
465 Veja-se o exemplo da sua autobiografia – Memórias de Este e do Outro Mundo (1957) – analisada ao
130 caso de ter ocorrido algum encontro entre ambos, que este tenha sido breve, dado que o psiquiatra apenas refere o seu nome sem oferecer ao jornalista quaisquer detalhes adicionais. Contudo, outra hipótese que podemos considerar é a seguinte: é possível que Cebola não considerasse relevante detalhar o seu encontro com estas personalidades, pelo menos no contexto da divulgação em jornais diários, justificando-se desse modo que embora possa ter reunido com Tanzi em Florença, não pormenorizasse esse episódio.
Regressando à entrevista do Diário de Notícias: o jornalista descrevia Cebola como sendo um homem cheio de interesse e paixão pela especialidade da psiquiatria, o que se revelava no entusiasmo com que comunicava sobre estes temas466. Cebola terminava a entrevista lamentando que Portugal se encontrasse ainda muito atrasado relativamente a outras nações no que respeitava aos progressos de assistência aos doentes mentais, e concluía que era necessário:
Que Portugal se organize em bases modernas, instruindo-se e educando-se nos bons princípios. Não esqueçamos nunca esta luminosa verdade: “ o progresso duma nação avalia-se sobretudo, pela sua obra de assistência”467.
A segunda entrevista transcrita, intitulada “Um problema médico-social de flagrante atualidade”, estabelecia novamente um paralelo entre a assistência psiquiátrica em Portugal e a praticada em outros países europeus, sendo mesmo utilizada a expressão “doloroso contraste entre Portugal e os outros países cultos”. O jornalista, que terá entrevistado Luís Cebola durante uma visita à CST, guiada pelo próprio médico, descrevia-o enquanto sendo um “dos nossos mais ilustres alienistas”, indicando que este regressara recentemente de “uma viagem de estudo através da Europa”, e recordava que em Lisboa “é enorme e confrangedora a quantidade de loucos que vagueiam pela cidade no estado perigoso de intensos delírios alucinatórios”, algo idêntico ao averiguado fora da capital, consequência da Primeira Guerra Mundial468.
Cebola referia-se à recuperação que a nação francesa estava a fazer no pós-guerra como sendo muito activa e eficiente, afirmando de forma entusiasta que “a alma eterna da Gália parece renascer das próprias cinzas!”469. Seguidamente fazia menção às medidas que o Estado francês teria desenvolvido para contornar o problema da proliferação das doenças psíquicas e físicas provocadas pelo conflito bélico, dizendo que esta nação “organizou devidamente a obra da assistência e protecção aos loucos, sendo as leis cumpridas sem hesitação nem protesto”. À semelhança da entrevista anterior, descrevia as instituições psiquiátricas visitadas durante a
466 Idem, p. 12. 467 Idem, p. 15. 468 Idem, p. 17. 469 Idem, p. 18.
131 excursão.
Em França, teria visitado o asilo de Chateau Picou, na Gironde, o asilo público de Cadillac no vale de Dordogne, e ainda Castel de Andarte e Charenton. Da primeira, destacava o “parque frondoso”, descrevia os pavilhões, a sua população alvo e especialidades, e um jardim de inverno e vivendas luxuosas habitadas por uma doente apenas. Da segunda instituição, mencionava a granja, que funcionava como colónia agrícola, onde os doentes cultivavam os produtos hortícolas para consumo hospitalar, produzindo vinho branco que anualmente, depois de comercializado, renderia a quantia de cem mil francos. Estimava também a população de doentes e descrevia o ritmo e horário de trabalho praticado por estes470. Na descrição das instituições visualizava-se que Cebola valorizava sobretudo os espaços verdes circundantes, e a possibilidade de os doentes contactarem com a natureza e executarem trabalho dirigido e útil para manter a comunidade asilar, e a sociedade em geral: “Sem dúvida, a natureza alacre prendia-lhes a atenção, afugentando para longe do seu espírito os delírios e as alucinações apavorantes471”.
De Castel de Andarte, descrevia a população de doentes, o grande parque “muito arborizado e florido”, onde observou os doentes “jogando, lendo ou cultivando os jardins”; salientou a existência de um “museu pré-histórico, um laboratório de análises e assistência patológica”472. Ao manicómio de Charenton, Cebola dedica uma descrição pormenorizada, minuciosa até, elogiando-o como sendo o “mais moderno da França”. Descrevia os exteriores e interiores dos pavilhões e o jardim, “artisticamente recortado de canteiros floridos”, indicando a população hospitalar, destacando a higiene dos sanitários, e ainda referindo como complemento, os laboratórios, farmácia, teatro, salão de festas473.
Seguidamente, narrou a sua visita a Hanwell Mental Hospital, ou County Lunatic Asylum, em Inglaterra, país que descrevia como sendo “de bom senso e de democracia” e onde os loucos eram “tratados com esmero, segundo os mais práticos preceitos da sciência psiquiátrica”474. Descreveu a população de doentes e de médicos, enaltecendo a prática de desportos como o cricket e o ténis, terminando com “nota sentimental”:
Jamais olvidarei a emoção profunda que senti, quando, ao atravessar o parque, numa tarde amena de Agosto, ouvi um cântico religioso entoado harmoniosamente dentro da igreja protestante, pelas mulheres e homens loucos que me haviam saudado horas antes no salão de festas, prodigalizando-me de sorrisos, oferecendo-me flores e abraçando-me efusivamente, como se todos nós já fossemos amigos de longos
470 Idem, pp. 19-20. 471 Idem, p. 20. 472 Idem, pp. 20-21. 473 Idem, pp. 21-22. 474 Idem, p. 22.
132 anos!475
Nessa viagem, Cebola tinha ainda visitado a Holanda e a Bélgica. Do primeiro país referia Oud Rosenburg, localizado a “alguns quilómetros para lá de Haarlem e destinado a pensionistas e pobres, recordando não só o sistema de portas, e o parque de “vegetação luxuriante” onde observara e o trabalho dos doentes no cultivo de terrenos e jardinagem, bem como os ateliers e as oficinas. Em relação ao segundo país, descrevia a sua visita à Colónia de Ghell, instituição onde os doentes viviam em liberdade, encontrando-se distribuídos pelas diversas casas da comuna, de acordo com a profissão que desempenhavam antes do internamento, e estando ao cuidado de uma família476.
Cebola terminava a entrevista expressando desprezo pela sua própria nação, evidenciando sentimentos de desalento pelo que considerava ser o abandono dos doentes mentais, e a negligência de cuidados prestados a este grupo de cidadãos: “Em Portugal…é isto que se vê…”477.
Estas entrevistas resumem de certo modo o cerne do volume no qual estão inseridas, ao longo do qual Cebola vai avançando, capítulo a capítulo, e indicando algumas recomendações para que se altere ou melhore o sistema de clínica psiquiátrica em Portugal, salientando ser essa a única forma de controlar a proliferação das doenças mentais na sociedade portuguesa e de maximizar as possibilidades de recuperação e de reinserção dos doentes na sociedade, recuperando-os enquanto indivíduos e mão-de-obra da nação, tornando dessa forma possível a sua contribuição para o desenvolvimento económico nacional. Cebola definia este volume como sendo um trabalho de “vulgarização científica”. Justificava a publicação do mesmo, por considerar ser ainda necessário organizar os serviços de profilaxia mental e de assistência aos alienados, pretendendo galvanizar os restantes médicos psiquiatras e assim a iniciar uma campanha que visasse impulsionar não só a reforma das instituições mas incluir mesmo a preparação de uma nova legislação. Em jeito de incitação, recordava que a medicina servia uma missão luminosa, não devendo encontrar-se encerrada nas Academias478.
Como já foi referido, Cebola nunca indica os nomes dos directores clínicos – ou de outros médicos – destas instituições que visitou, dificultando desse modo a nossa compreensão acerca da natureza destas viagens. De acordo com as entrevistas, as suas viagens parecem focar-se essencialmente na observação do quotidiano destas instituições em paralelo com a visita às infraestruturas hospitalares. O psiquiatra não narra quaisquer discussões científicas estabelecidas com os médicos estrangeiros. Possivelmente, a descrição pouco minuciosa, dever-se-ia ao facto de Cebola ter sido entrevistado para um jornal diário, lido por um público leigo, desconhecedor
475 Idem, p. 23. 476 Idem, pp. 24-26. 477 Idem, p. 26. 478 Idem, p. 27.
133 da disciplina. Contudo, esse facto não o impede de citar nomes de médicos nas suas obras e artigos jornalísticos de divulgação. A sua maior preocupação parece prender-se com a descrição detalhada do ambiente hospitalar e do quotidiano dos doentes – salientando a ergoterapia e as colónias agrícolas – e não com os seus colegas psiquiatras. De facto, o próprio, durante a sua vida profissional, deu primazia aos melhoramentos da vida asilar – com a planificação de novos pavilhões e organização das actividades ergoterápicas – em detrimento da investigação e discussão científicas.
Considerações finais
A construção da sua identidade profissional foi acontecendo através do seu contacto com mentores, dos quais Miguel Bombarda terá sido o mentor mais influente, não apenas do ponto de vista clínico, mas do ponto de vista da personalidade, bem como da ideologia sociopolítica. De modo semelhante a Bombarda, Cebola privilegiou a planificação e edificação de novos pavilhões, em paralelo com o aperfeiçoamento dos espaços exteriores da quinta – melhorando, desse modo, as condições de vida e de tratamento dos doentes – bem como as actividades ocupacionais enquanto método terapêutico, mantendo os doentes ocupados e aliviando-os dos sintomas das suas psicopatologias. As vivências institucionais na CST, no contacto frequente com a ideologia cristã e o espírito de sacrifício dos Irmãos hospitaleiros, permitiram-lhe desenvolver e apurar aquele forte sentido de missão que Cebola aparentava já possuir, e que o guiou na escolha da psiquiatria, como destino profissional.
Destaca-se a influência de Paul Charles Dubois, cuja obra Les Psychoneuroses et Leur Traitement Moral (1904) terá estado na base da sua escolha da especialidade clínica, bem como influenciando a sua vida profissional na CST, onde Cebola terá privilegiado o diálogo com os pacientes – evidente nos processos clínicos – bem como a ergoterapia, que promoveu ao longo da sua obra publicada, assim como nos dois textos, referidos neste capítulo, escritos para publicações da OHSJD. Cebola desejava ser recordado pela prática desta terapia, e pela inauguração do Museu da Loucura. Estas práticas clínicas constituíam aquele que Cebola considerava o seu maior legado, não apenas para a CST, mas para a psiquiatria portuguesa. A preferência por este método terapêutico, de acordo com o próprio, foi crescendo após as inúmeras viagens que terá realizado a instituições estrangeiras, motivadas pelo seu desejo constante de aperfeiçoar a sua prática clínica, bem como aprimorar os seus conhecimentos sobre a profissão. O sobrinho-neto de Cebola descreve-o como tendo sido um homem extremamente culto – o que se encontra patente nas suas obras, repletas de referências literárias, artísticas, filosóficas, históricas, e políticas – e simultaneamente um apaixonado pelo acto de viajar, podendo desse modo conhecer a cultura e a ciência dos países europeus mais modernos e desenvolvidos. Nesses hospitais estrangeiros, Cebola terá procurado inspiração para a direcção clínica da CST, onde auxiliado pelos Irmãos
134 hospitaleiros procurou implementar as metodologias que observara como sendo as mais eficazes no tratamento das doenças mentais.
A análise dos processos clínicos demonstra, contudo, que os registos elaborados por Luís Cebola, durante os primeiros vinte anos de direcção clínica da CST, eram pouco detalhados e sistematizados, principalmente no que se refere aos tratamentos utilizados, e resultados terapêuticos obtidos. Até à década de trinta, a maioria dos processos não indica os tratamentos administrados aos doentes, contendo apenas registos sobre a evolução do estado do paciente, registos esses que nem sempre são frequentes, podendo ocorrer mensalmente, trimestralmente ou anualmente. Em 1933, Diogo Furtado foi contratado pela CST enquanto médico dos doentes militares ali hospitalizados. Este médico, de acordo com as publicações da OHSJD, foi o responsável pela introdução dos métodos convulsivos, modernizando as terapias praticadas na CST. Curiosamente, foi a partir da década de trinta que os processos clínicos passaram a conter alguma informação relativa aos tratamentos administrados, informação essa muitas vezes apresentada sob a forma de tabelas estandardizadas, específicas para cada tipo de tratamento. Uma vez que durante os vinte anos anteriores à entrada de Furtado na CST, os processos clínicos exibiam tantas lacunas de informação, é plausível supor que este médico tenha desempenhado algum papel no desenvolvimento do registo de informação praticado na instituição, provavelmente incentivando os Irmãos, e o próprio Cebola, a sistematizar a informação registada nos ditos processos. A partir de 1936, esse processo de sistematização da informação permitiria aos Irmãos a criação de uma secção dedicada a estatísticas trimestrais de tratamentos administrados na CST, incluída na sua publicação interna Hospitalidade.
135
Capítulo III – Entrecruzamento dos discursos médico, ficcional, poético
e sociopolítico na obra publicada por Luís Cebola, e as diferentes
concepções da doença mental defendidas pelo psiquiatra.
III.1 – Carácter multifacetado das obras publicadas por Luís Cebola e justificação
da escolha dos volumes analisados
Cebola, para além de psiquiatra, foi um prolífico escritor, tendo publicado vinte e três volumes ao longo da sua vida. O último, O Homem Livre na Terra Livre, foi mesmo dado à estampa em 1964, três anos antes de Cebola falecer. Estes volumes – como já foi referido no capítulo I479 – apresentam enorme riqueza documental, na medida que revelam fortes interconexões entre temas científicos e médicos, com preocupações de carácter sociopolítico. Estas preocupações prendiam-se principalmente com a legitimação da classe profissional dos psiquiatras – e médicos no geral – com a defesa dos ideais republicanos e científico-naturais, a crítica da Igreja Católica e do pensamento supersticioso bem como a crítica ao regime autoritário do Estado Novo.
As suas obras, baseadas na análise clínica e psicológica dos seus doentes, apresentam