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A CST, tal como indicado no primeiro capítulo, iniciou o seu funcionamento no ano de 1893, surgindo de um desejo partilhado pelos membros da OHSJD de criar um hospital que conjugasse os valores e a visão espiritual do seu santo padroeiro, com os desenvolvimentos mais recentes da medicina e psiquiatria, a nível internacional. O seu objetivo enquanto instituição era o de implementar as inovações teóricas e práticas aplicadas ao tratamento da doença mental, bem como manter a atualização constante do seu plano de tratamentos122.

De acordo com Joaquim Lavajo, durante os primeiros anos de funcionamento, a CST tinha poucos doentes hospitalizados, aos quais os Irmãos cobravam baixas pensões, acolhendo também gratuitamente indivíduos pobres, e, por conseguinte, tinham dificuldades de ordem financeira, que procuravam colmatar pedindo esmolas123.

Em 1908, o Padre Senna Freitas, que esteve internado na CST devido a uma neurastenia, apresentava a seguinte descrição da instituição:

Denomina-se "Manicomio do Sagrado Coração de Jesus". [...] Conta vinte e dois irmãos da Ordem e dá asilo a cinquenta e três doentes, na maior parte pobres. Pelos annos adeante muitos teem saido curados. Todos os dias um medico vae ao Telhal inquirir do estado dos enfermos e exercer o seu mister clínico, sendo o actual o habil, diligente e sympathico Dr. Rodolpho Augusto de Silva Telles, que tanto interesse toma por aquela casa. O edificio foi ha 2 annos augmentado com um novo dormitorio, constante de 15 quartos magnificos. E tudo isto se fez com esmolas, por que o manicomio vive literalmente de esmolas! [...] Ora não se pense que o hospício do Telhal seja exclusivamente uma casa de saúde para dementes, porque abre outrosim as suas portas a doentes de qualquer natureza que alli queiram ir convalescer, para o que, aliás, concorre em primeira linha a boa agua que la se bebe e o ar bonissimo que lá se respira, o socego que se goza naquella solidao, a excellente quinta que oferece aos padecentes as suas ruas arborisadas e adoceladas de espessas copas cojunctamente com o trato caritativo dos irmãos. Se o afirmo é pelo conhecimento directo que tive do Telhal, onde passei um mez inteiro. Entrei naquella casa de saude abatido, anemico, cadaverico, positivamente affectado de

122 Hospitalidade, Crónica Trimestral dos Irmãos de São João de Deus em Portugal, 1, Sintra, Editorial

Hospitalidade, 1936, p. 21.

32 neurastenia124.

O mesmo Padre afirmava ter restabelecido por completo a sua saúde durante a estadia na CST, referindo o trabalho árduo dos Irmãos enfermeiros, responsáveis por alimentar, cuidar da saúde e higiene dos doentes, transportar os indivíduos incapacitados, bem como assegurar a diversão de todos os pensionistas125.

Nomeação de Luís Cebola para Director Clínico

Desde 1910 que Cebola era membro da Associação dos Médicos Portugueses (criada em 1898)126, tendo-se tornado membro da Ordem dos Médicos, fundada em 1938, a 18 de Junho de 1939, tendo o número de sócio 1464127.

O psiquiatra foi nomeado para director clínico da CST a 2 de Janeiro de 1911, pelo Governo Provisório da República Portuguesa, facto que já foi anteriormente referido no capítulo I128. De acordo com o próprio Luís Cebola, teria sido o seu amigo, a quem dedicara a tese inaugural, José de Magalhães129, a sugerir o seu nome a Afonso Costa, quando este o consultou a propósito de ser necessário nomear um novo director clínico para o “manicómio do Telhal”130. Cebola indicava que inicialmente teria declinado este convite, tendo-o apenas aceite por o encarar como um serviço prestado à República. O próprio Afonso Costa lhe agradeceu “o sacrifício, em favor do regime”131.

A revista Hospitalidade, Crónica Trimestral dos Irmãos de São João de Deus em Portugal – publicação interna da OHSJD inaugurada em 1936 – indicava igualmente num artigo dedicado à história da instituição, incluído num volume datado de 1953, que havia sido Afonso Costa a nomear Cebola como director clínico, tendo por base motivações de ordem política:

124 Freitas, Pe. Senna, Ao Veio do Tempo - ideias, homens e factos, Parceria António Maria Pereira, Livraria

Editora, Lisboa, 1908, pp. 232-233.

125 Idem, p. 234.

126 Borges, Augusto Moutinho; Cardoso, Ana Mateus; D’Oliveira, Fernando; Gameiro, Aires, “Um

Republicano no Convento”, Cadernos do CEIS20 [Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX], 13, 2009, p. 14.

127 Boletim de Inscrição na Ordem dos Médicos nº 1464. 128 Ver p. 2 da presente dissertação.

129 Muito possivelmente Cebola refere-se aqui a José de Magalhães (1867-1959). Formou-se em Medicina

na Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa de 1885-1889. Estudou também em Paris. Foi médico do Hospital da Marinha e desde 1910 que regia a cátedra de Patologia na Escola de Medicina Tropical. Em Outubro de 1910 foi encarregado de fazer a sindicância aos manicómios do Telhal e da Idanha, ambos pertencentes à OHSJD. Realizou várias conferências sobre assuntos sociais e pedagógicos na Universidade Livre e na Voz do Operário. Esteve entre os fundadores da Liga de Educação Nacional. Colaborou no jornal A Lucta de Brito Camacho. Ver Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, Volume XV, p. 902.

130 Cebola, Luís, op. cit., 1957, p. 58. 131 Idem, pp. 57-58.

33 Certamente por motivos políticos, foi ordenada pelo governo de Afonso Costa uma sindicância ao referido Dr. Teles e nomeado para o substituir, no Telhal, o Dr. Luís Cebola, acérrimo republicano, o qual se apresentou ao serviço no dia 2 de Janeiro de 1911. Terminada a sindicância foi contratado por nós e cá se manteve até ao dia 28 de fevereiro de 1949, como director da Casa; data em que a administração o convidou a aposentar-se devido à sua avançada idade e não só...132

Como previamente indicado no capítulo I133, a 15 de Outubro de 1911, Afonso Costa, enquanto representante oficial do regime republicano, visitou a CST estabelecendo durante essa visita a permissão para que os Irmãos hospitaleiros conservassem as suas funções de enfermeiros na instituição, estabelecendo contudo a proibição do uso do hábito, bem como sujeitando o hospital a uma inspecção detalhada realizada por funcionários do governo134. Estas decisões terão resultado do facto de Costa ter consciência de que era impossível substituir os Irmãos enfermeiros por pessoal laico especializado em enfermagem de alienados, uma vez que este era bastante escasso à época135. Uma vez que a propriedade onde a CST foi edificada pertencia a Bento Menni, tendo sido adquirida a título individual, o Governo português não podia reclamar o seu direito em relação a essa instituição136, não lhe restando senão a hipótese de nomear Cebola, assumidamente simpatizante do Partido Republicano, como director clínico.

Além do trabalho desenvolvido como director clínico da CST, Cebola mantinha um consultório privado no mesmo prédio onde habitava com a sua família – o número 67 da Avenida Almirante Reis137 – e um outro na Rua Augusta138. Durante a década de vinte do século passado,

Cebola atenderia os pacientes no seu consultório da Almirante Reis às terças, quintas e sábados das onze da manhã à uma da tarde139.

Quotidiano na CST

De acordo com o próprio Luís Cebola, o seu principal objectivo enquanto director clínico da CST, seria o de converter este hospital numa instituição psiquiátrica moderna. Considerando a localização do Hospital – longe da cidade, todavia situado perto de uma estação de comboio, a estação do Sabugo, e sendo os edifícios do hospital rodeados por uma quinta – e o número elevado

132 Hospitalidade, Crónica Trimestral dos Irmãos de São João de Deus em Portugal, 70, Sintra, Editorial

Hospitalidade, 1953, p. 8.

133 Ver pp. 2-3 da presente dissertação.

134 Ilustração Portugueza, edição semanal do jornal “O Século”, nº244, 24 de Outubro de 1910, Lisboa,

p.522;

135 Lavajo, Joaquim Chorão, op. cit., 2003, p. 110. 136 Idem, p. 92.

137 Boletim de Inscrição na Ordem dos Médicos nº1464 – Luís Cebola. 138 Cebola, Luís, op. cit., 1957, p. 60.

34 de pessoal hospitalar constituído pelos Irmãos enfermeiros, Cebola terá persuadido a Ordem a adquirir maior extensão de terreno o que permitiu aumentar as instalações. Também as suas visitas frequentes a hospitais psiquiátricos localizados em outros países europeus – nomeadamente Inglaterra, França, Bélgica ou Espanha – com o objectivo de adquirir conhecimentos sobre os métodos de tratamento mais modernos, bem como de estudar a organização dessas instituições, lhe terão permitido actualizar os tratamentos aplicados na CST140.

Enquanto director clínico, Cebola visitaria o hospital às segundas, quartas e sextas-feiras durante a manhã. Nestes dias um carro esperá-lo-ia na estação de comboio do Sabugo, levando-o até ao hospital141. Numa carta, datada de 1921, o Irmão Júlio dos Santos, então director da casa de saúde, detalha um pouco mais sobre as visitas de Cebola à instituição:

O Sr. Dr. Cebola vem no comboio que parte do Rossio às oito mais minutos menos minutos, para Torres, desembarcando na estação do Sabugo, onde o espera o trem, às segunda, quartas e sextas-feiras, indo levá-lo ao apeadeiro de Algueirão (linha de Cintra) ao comboio do meio dia e um quarto142.

Na correspondência trocada entre o Irmão Júlio dos Santos e os familiares dos doentes internados, a figura de Cebola é por vezes referida. Numa dessas cartas, o Irmão indicava aos familiares que Cebola achava pertinente que o doente continuasse a receber jornais e revistas, pedindo-se, desse modo, à família que conservasse a subscrição das mesmas, uma vez que “a leitura até lhe serve de distracção”143. Noutras cartas era indicado que Cebola se encontrava

esperançoso em relação à recuperação ou melhoramento dos pacientes144, ou que não possuía

ainda dados suficientes para elaborar prognósticos145. Por vezes, em casos de evidente melhora,

Cebola indicava ao director da CST ser possível o doente obter autorização para visitar a família146, noutras situações o médico autorizava a saída avisando a família de que o estado de

saúde do mesmo se iria provavelmente manter147, e, em casos extremos de doentes incuráveis

Cebola mostrava oposição em relação à saída dos doentes da instituição148 ou mesmo, a que estes

140 Cebola, Luís, “Evolução terapêutica na Casa de Saúde do Telhal” in Gameiro, Aires (coord.), Casa de

Saúde do Telhal 1º Centenário 1893-1993 - Documentos Históricos e Clínicos, Lisboa, Editorial Hospitalidade, 1993, pp. 219-220.

141 Volume de Cartas Copiadas, Tomo I, fl. 257, Carta de 16 de Maio de 1921. 142 Volume de Cartas Copiadas, Tomo I, fl. 450, Carta de 25 de Outubro de 1921. 143 Volume de Cartas Copiadas, Tomo XI, fl. 387, Carta de 11 de Junho de 1924.

144 Volume de Cartas Copiadas, Tomo VIII, fl. 73, Carta de 7 de Dezembro de 1922;Volume de Cartas

Copiadas, Tomo IX, fl. 320, Carta de 7 de Julho de 1923; Volume de Cartas Copiadas, Tomo IX, fl. 278, Carta de 10 de Junho de 1923;Volume de Cartas Copiadas, Tomo X, fl. 267, Carta de 21 de Novembro de 1923;Volume de Cartas Copiadas, Tomo XI, fl. 353, Carta de 3 de Junho de 1924.

145 Volume de Cartas Copiadas, Tomo XI, fl. 462, Carta de 7 de Julho de 1924. 146 Volume de Cartas Copiadas, Tomo X, fl. 450, Carta de 21 de Janeiro 1924. 147 Volume de Cartas Copiadas, Tomo VIII, fl. 74, Carta de 7 de Dezembro de 1922 148 Volume de Cartas Copiadas, Tomo I, fl. 476, Carta de 12 de Julho de 1922.

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recebessem visitas149. As mudanças de estação eram, por vezes, indicadas por Cebola como causa

do agravamento no estado dos pacientes: “O Sr. Dr. Clínico diz que a doença de seu Exmo. Pai se exacerbou com a mudança de estação”150.

Uma destas cartas demonstrava a atenção que Cebola teria para com os pacientes, indicativa do método que o próprio refere no seu volume Psiquiatria Clínica e Forense (1940), onde salientava a importância de estabelecer uma relação de confiança com os pacientes151:

O Exmo. Sr. Dr. Cebola não deu ainda a injecção ao doente por ele a não querer receber e estar a vêr se o convence de fazer o tratamento e não o irritar pois diz o sr. dr. que não faz mal estar mais uns dias sem a tomar152.

No caso de pacientes cujo estado se mostrava inalterável, encontrando-se indiferentes à realidade circundante, Cebola pedia aos familiares para os visitarem de modo a procurar obter alguma alteração no estado psicológico dos mesmos153.

Anteriormente à nomeação de Cebola, a CST contara com a colaboração de outros directores clínicos. O primeiro a assinar um contrato, em 1900, foi Adriano Burguete, que, de acordo com Bento Menni, era negligente no cumprimento das suas funções. Seguiram-se os médicos António Mendes Lages e João Freitas, ambos recordados pela instituição como cumpridores dos seus deveres, todavia, de forma pouco entusiasta. Antes da entrada de Cebola para a CST, era seu director Rodolfo Augusto da Silva Teles, desde 1903, homem que partilhava os mesmos valores espirituais da instituição, razão que terá motivado Afonso Costa a substituí-lo por um médico republicano. Apesar de Cebola ser bastante crítico do catolicismo, a relação que este estabeleceu com os seus colegas, os Irmãos da OHSJD, parece ter sido de cordialidade e de respeito mútuo, uma vez que ele é recordado, de forma positiva, nos volumes e artigos comemorativos da CST e da Ordem, sendo descrito como um profissional dedicado e determinado a modernizar a instituição. A título de exemplo, veja-se o que escreve Joaquim Lavajo no seu volume intitulado Ordem Hospitaleira de S. João de Deus em Portugal 1892-2002154:

Apesar das condições controversas da sua contratação e dos antecedentes republicanos que o caracterizavam, o Dr. Luís Cebola deixou-se sensibilizar de tal forma pela seriedade, competência e dedicação dos Irmãos, que se tornou um profissional cumpridor e dedicado à causa dos alienados. Durante a longa

149 Volume de Cartas Copiadas, Tomo VII, fl. 261, Carta de 21 de Outubro de 1922. 150 Volume de Cartas Copiadas, Tomo X, fl. 196, Carta de 6 de Novembro de 1923

151 Cebola, Luís, Psiquiatria Clínica e Forense, Gomes de Carvalho Editor, Lisboa, 1940, p. 144. 152 Volume de Cartas Copiadas, Tomo X, fl. 345, Carta de 18 de Dezembro de 1923.

153 Volume de Cartas Copiadas, Tomo I, fl. 447, Carta de 25 de Outubro de 1921. 154 Lavajo, Joaquim Chorão, op. cit., 2003, p. 180.

36 permanência de 38 anos no cargo, isto é, até 1949, o Dr. Cebola acompanhou e pôs em prática as mais actualizadas técnicas de recuperação dos doentes mentais, realizadas no estrangeiro155.

No ano de 1938, na crónica trimestral da OHSJD – Hospitalidade – o Irmão José Fernandes referia-se da seguinte forma ao trabalho dos clínicos contratados pela CST:

Começarei por tocar um bocadinho sobre a actividade dos nossos Exmos. Clínicos; ela é incansável e pertinaz. Estão ao par de tôdos os tratamentos modernos e não só estão a par dêles, mas estão-os aqui experimentando práticamente com grande actividade e desejo sincero de curar, se possível fôsse, a tôdos êstes membros doloridos de Jesus Cristo156.

Sobre as principais terapias aplicadas na CST por volta de 1938 – os “tratamentos modernos” acima referidos – os Irmãos indicavam: choque convulsivo pela cânfora, coma insulínico, piroterapia157 e malarioterapia, opoterapia158, leucotomia e hidroterapia159.

Nas crónicas e apontamentos noticiosos desta publicação é patente que os Irmãos se orgulhavam de gerir um estabelecimento moderno, orientado pelas últimas práticas técnicas e científicas, quer no tratamento das doenças mentais, quer do ponto de vista da clínica geral ou outras áreas da medicina. Reconheciam o valor da ciência no diagnóstico e cura de determinados pacientes, descrevendo-o como sendo semelhante a um milagre. Não que julguassem que o poder dos médicos era ilimitado como o poder de Deus, mas reconheciam o valor destes homens de ciência, na cura dos doentes, expressando por vezes visões sobre a prática médico-científica que se aproximavam das ideias positivistas, tão apreciadas pelo próprio Cebola:

O que se deve ter em vista é a Glória de Deus e o bem do próximo, assim como o bem de todos os nossos queridos doentes. Mas, não devemos ficar como que paralisados, devemos acompanhar o progresso da actualidade. Estamos no século dos inventos e do progresso. Nossa querida pátria e seus dirigentes estão-nos a dar exemplo, a nós e a todo o mundo civilizado; e nós filhos de tão amada terra de Santa

155 Idem, p. 180.

156 Hospitalidade, Crónica Trimestral dos Irmãos de São João de Deus em Portugal, 9, Sintra, Editorial

Hospitalidade, 1938, p. 34.

157 Método terapêutico que consiste em elevar a temperatura corporal acima dos valores considerados

normais, pela administração de agentes piretogénicos.

158 Tratamento que consiste na administração de extractos de órgãos de animais, também designado por

organoterapia.

159 Hospitalidade, Crónica Trimestral dos Irmãos de São João de Deus em Portugal, op. cit., 9, 1938, p.

37 Maria ficaremos sempre na "cepa torta"? – Não, estou certo que esse tempo de paresia deve findar. A par da caridade antiga que devemos exercer cada vez com mais profusão, surgirá o progresso da ciência moderna que devemos acompanhar. E isto para o bem da humanidade, para o bem de nossos irmãos sofredores160.

Escola de Enfermagem da CST (1936-1971)

No ano de 1936, foi fundada uma escola de enfermagem na CST161. O ensino estava

maioritariamente a cargo do Dr. António Meira de Carvalho, contratado como clínico geral desde o ano de 1931. Segundo o próprio, a iniciativa de implementar os cursos de enfermagem na instituição teria sido sua162. Todavia, Luís Cebola afirmava, igualmente, ter sido ele o responsável

pela sugestão da criação da mesma escola à administração do hospital, no ano de 1925. A sua sugestão – indicava Cebola – baseava-se no facto de esta escola permitir aumentar os conhecimentos e a técnica dos enfermeiros da OHSJD, nas áreas de anatomia, fisiologia, pequenos procedimentos cirúrgicos, farmacologia, higiene e psicopatologia163. De acordo com a

publicação interna da OHSJD, Hospitalidade, Cebola terá leccionado aulas de psiquiatria de alienados aos Irmãos enfermeiros enquanto Meira de Carvalho desempenhava a regência das aulas de enfermagem:

A 14 de Fevereiro abriram as aulas de enfermagem sob a regência do Exmo. Sr. Dr. Meira de Carvalho. […] Os nossos estudantes de Psiquiatria continuam em férias desde Junho de 1937. Todavia, o seu ilustre Professor Sr. Dr. Luís Cebola continua escrevendo as suas lições na esperança de que as aulas abram brevemente.164

Cebola era aqui retratado como sendo um professor muito dedicado, trabalhando arduamente mesmo ao longo dos meses de verão. Um ano depois, a mesma revista indicava que durante dois anos as aulas de enfermagem na CST teriam sido interrompidas, anunciando que nos princípios de Outubro de 1939, as aulas de Psiquiatria deveriam recomeçar165. Em Dezembro de

1936, os Irmãos relatavam que após a concretização dos exames do curso geral de enfermagem, os estudantes gozando apenas de “uns parcos dias de férias” haviam iniciado um outro curso de

160 Hospitalidade, Crónica Trimestral dos Irmãos de São João de Deus em Portugal, 4, Sintra, Editorial

Hospitalidade, 1936, p. 20.

161 Gameiro, Aires (Dir.), op. cit., 1993, p. 27.

162 Carvalho, Meira, “Memória Histórica sobre a Escola de Enfermagem” (1968), in Gameiro, Aires (Dir.),

op. cit., 1993, p. 233.

163 Cebola, Luís, op. cit., 1957, p.31; Cebola, Luís, “Evolução terapêutica na Casa de Saúde do Telhal” op.

cit., 1993, p. 222.

164 Hospitalidade, op. cit., 9, 1938, p. 32.

165 Hospitalidade, Crónica Trimestral dos Irmãos de São João de Deus em Portugal, 15, Sintra, Editorial

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enfermagem psiquiátrica, “de não menos importância que o anterior pela utilidade prática para o bom desempenho da nossa missão de enfermeiros psiquiatras”. Este curso seguiria o primeiro, de carácter geral, sendo destinado a todos os Irmãos enfermeiros que obtivessem aprovação no primeiro. Sobre o mesmo curso, elaboravam uma observação demonstrativa do enorme respeito que sentiam pela figura de Luís Cebola:

É, sem dúvida, mais difícil este exame que o de simples enfermagem geral e exigiria um estudo relativamente vasto sobre a psicologia. Mas com a vontade férrea que a todos anima e com o auxílio do distinto Professor Exmo. Sr. Dr. Luiz Cebola muito se pode conseguir. As aulas deste curso são às segundas e sextas-feiras e tomam parte nelas além dos recentemente diplomados muitos outros irmãos que assistem com interesse às sábias explicações do professor e a quem depois são distribuídas as lições paleografadas166.

Esta escola de enfermagem foi reconhecida oficialmente pelo Estado português no ano de 1939, sob a designação de “Escola de Enfermagem S. João de Deus”167. Terá mesmo funcionado

até ao ano de 1971168.

Sobre o estudo dos Irmãos enfermeiros, a revista Hospitalidade salientava a enorme dedicação e força de vontade, capazes de colmatar as enormes falhas no que dizia respeito a manuais de estudo publicados em Portugal:

Bastará dizer que fez um estudo de vastíssimos conhecimentos, relativamente, é