Nos evangelhos gnósticos a figura de Maria Madalena aparece com a mesma força dos evangelhos canônicos: como apóstolo mais importante. É nos gnósticos que ela discute com os apóstolos e confidencia segredos que só ela obtivera de Jesus. A figura de Madalena está em destaque nos principais escritos gnósticos como O Diálogo do Salvador, Pistis
Sophia, Evangelho de Nicodemos, Evangelho de Felipe, Evangelho de Maria Madalena, entre outros.197
195 SCHABERG, Jane. “How Mary Magdalene became a Whore”. Bible Review. 1992. p. 30-37.
196 CAMARGO-MORO, Fernanda de. Arqueologia de Maria Madalena – uma busca histórica da
companheira de Jesus. Rio de Janeiro: Record, 2004. p. 54.
Os grupos gnósticos, que tinham sua autoridade apostólica em Maria Madalena, foram considerados hereges pelos autores patrísticos, que enfatizavam a primazia petrina. Esses autores procuraram subestimar as passagens bíblicas que falavam da mulher e seu papel. Enquanto isso, a patriarcalização da Igreja estava se consolidando e a mulher foi cada vez mais deixando de ter importância na comunidade. A mulher que por teimosia tentasse exercer alguma função, era acusada de heresia.
Segundo King198, o Evangelho de Maria oferece uma visão da comunidade cristã na qual a autoridade está baseada na compreensão e apropriação do Evangelho. A liderança não é investida de uma hierarquia masculina mas, em uma liderança de homens e mulheres que alcançaram maturidade espiritual. Dando destaque às visões proféticas, como manifestação do entendimento espiritual. O modelo de liderança é o Salvador, o mestre e mediador da sabedoria divina.
Para Fiorenza199, exegetas do Novo Testamento conferem às mulheres o papel de ajudantes nas comunidades, porque eles têm como óbvio o conceito de que a liderança das comunidades era masculina. Esse modelo de interpretação androcêntrica elimina e não deixa nenhuma possibilidade de que mulheres tenham sido missionárias, apóstolas, líderes de comunidades, independentes de Paulo ou de outros. Textos de Rm 16, 1-3 e 16,7 sugerem que mulheres líderes dessas comunidades não deviam sua posição a Paulo. É provável que ele não tenha tido outra alternativa e tenha reconhecido as mulheres como autoridades dessas comunidades.
Esses conflitos entre Pedro e Madalena significam o nascimento da dicotomia entre Igreja exterior, a de Pedro, que se tornará oficial e cuja mensagem será associada ao Judaísmo, e a Igreja interior, a de Maria Madalena, tendo como base a gnose que, em meados do século II, será combatida pela hierarquia da Igreja oficial. Nesses escritos, é enfatizada a importância de Maria Madalena em relação aos Evangelhos Canônicos. Essa
198 KING, Karen L. O evangelho de Maria. In: BURSTEIN, Dan & KEIJZER, Arne J. de. A verdadeira
história de Maria Madalena. Rio de Janeiro: Ediouro, 2006. p. 121
199 FIORENZA, Elisabeth Schüssler. As origens cristãs a partir da mulher. São Paulo: Ed. Paulinas, 1992. p.
importância atribuída a Madalena está relacionada com o reconhecimento da igualdade das mulheres nas comunidades gnósticas. O Deus dos gnósticos não era um Deus masculino como o judaico-cristão. Mas, um Deus que era invocado como Mãe e Pai divinos.200
O grupo da tradição petrina venceu a batalha, as mulheres foram sendo afastadas dos postos de lideranças, foram sendo silenciadas, foram novamente subordinadas aos seus maridos. O modelo de mulher santa que foi sendo introduzido era o da boa esposa, que cobria a cabeça e ficava calada na assembléia e cuidava da família. Ao longo dos séculos a igreja foi se fechando cada vez mais e tornando-se misógina.
Assim, como na época das primeiras comunidades, as mulheres ainda são maioria no cristianismo. Trabalham nas comunidades anunciando a mensagem evangélica, ajudam os mais necessitados e são disponíveis para os nossos destinatários. Mas na hora de tomar decisões, inclusive sobre a mulher, quem aparece é ainda a figura masculina, hierárquica, machista.
Nos primórdios, o cristianismo se apresentou “pregando uma visão religiosa alternativa e praticando um estilo de vida comunitário contracultural”. Inevitavelmente isto criou conflitos com a sociedade da época. As comunidades não tiveram forças para resistir diante do domínio patriarcal. Ao mesmo tempo, institucionalizaram-se, perdendo a “fluidez múltipla das experiências” que marcaram os primeiros tempos. Institucionalização e subordinação são dois lados da mesma moeda. A pressão de fora forçou as comunidades a adotar a estrutura patriarcal e a institucionalização se tornou lógica, normal neste processo. Nasceram na comunidade institucionalizada argumentos teológicos que justificaram o modelo patriarcal nas famílias e comunidades cristãs. E, a partir do momento em que a estrutura patriarcal greco-romana passou a ser o modelo de organização para a comunidade cristã, ela nunca mais foi a mesma, e perdeu o ethos de “comunidade de iguais”. “Os contra-argumentos teológicos de escravos e das mulheres não sobreviveram na história”.201
200 GANGE, Françoise. Jesus e as mulheres. Petrópolis: Vozes, 2007. p. 67-68. BOER, Esther de. Maria
Madalena – discípula, apóstola e mulher. São Paulo: Madras, 1999. p. 67.
201 ALEXANDRE, Monique. Do anúncio do Reino à Igreja: papéis, ministérios, poderes femininos. In:
É importante resgatarmos dentro da tradição cristã essa mulher que foi Maria Madalena. A discípula fiel de Jesus que no Evangelho de João tem um encontro privilegiado e único com Jesus Ressuscitado, tornando-se a grande mensageira da ressurreição, anunciando aos outros discípulos que o Mestre estava vivo. Ela merece um lugar de honra dentro da tradição cristã pela grande líder que foi.
Nos evangelhos apócrifos, Maria Madalena aparece à frente dos homens, justamente por causa do papel de primazia como aquela que primeiro viu Jesus Ressuscitado e foi enviada por Ele. É impossível escapar da conclusão de que a Igreja primitiva proclamou a ressurreição por meio de Maria Madalena e possivelmente de algumas outras mulheres. Nenhum dos apóstolos homens, discípulos, os Onze, aparecem como crentes nessas narrativas, nem como mensageiros da ressurreição na fé.
5.3 UM MOMENTO DE TRANSIÇÃO EM JO 20
Em Jo 20 a comunidade está passando por um momento de conflitos de lideranças. É um tempo de transição entre autoridades, incluindo a apostólica. Nessa comunidade há um destaque para a liderança das mulheres, em que uma delas se torna protagonista da missão – Maria Madalena. Percebe-se que no interior da comunidade alguns grupos ou tradições lutam entre si. Entre essas lideranças, Maria, Pedro, Tomé e o discípulo Amado estão disputando espaço.
Ao compararmos João 20 com os escritos Gnósticos percebemos que para alguns grupos gnósticos a figura de Maria Madalena era vinculada à imagem de amada do Senhor; uma líder que tinha relevância na transmissão do ensino do Senhor e, em outros escritos, a apóstola preferida do Senhor.
Afrontamento/Ebradil, 1993. p. 515. FIORENZA, Elisabeth Schüssler. As origens cristãs a partir da mulher. São Paulo: Ed. Paulinas, 1992. p. 252. STRÖHER, Marga J. “A igreja na casa dela”. São Leopoldo: IEPG, 1996. Série: Ensaios e Monografias. p. 21.
Conclusão
Maria Madalena exerceu um papel de proeminência entre os discípulos de Jesus. Ela o acompanhou desde a Galiléia até Jerusalém. É a primeira a ver Jesus Ressuscitado. É citada pelos quatro evangelistas na manhã da ressurreição mas, somente João a cita sozinha, conversando com Jesus e recebendo uma missão. Seu nome está sempre em primeiro lugar nas listas das mulheres, isso demonstra a sua importância na comunidade joanina, conseqüentemente nas primeiras comunidades cristãs. Em João, a missão recebida lhe dá
status de apóstola.
Embora a interpretação oficial não identifique Maria Madalena, nos evangelhos canônicos, como apóstola, percebe-se isso nos textos. Maria Madalena é citada em primeiro lugar entre as mulheres que acompanham Jesus. Ser citada em primeiro lugar é um dado importante para compreender o seu ministério apostólico. Nestas narrativas, as mulheres são vistas com distinção em relação às outras pessoas que acompanhavam Jesus. Por ela acompanhá-lo desde o início do seu ministério na Galiléia, justifica-se o seu título de apóstola, assim como Pedro e seus companheiros.202
Alguns dos escritos gnósticos surgiram em torno da comunidade que tinha como liderança Maria Madalena. Esses escritos demonstram o papel dela como apóstola no início do cristianismo. E a sua importante liderança entre as comunidades gnósticas. Também traz evidências dos conflitos de poder e autoridade entre a tradição de Maria e a tradição Petrina. Percebe-se que nos escritos gnósticos a sua liderança é mais respeitada, acolhida, inclusive por alguns discípulos.
Posteriormente dá-se uma fusão de Maria Madalena com outras mulheres, ficando no imaginário coletivo a Prostituta. Mesmo sendo ela reabilitada a partir do Concílio Vaticano II, ainda hoje, na Igreja Romana, em algumas homilias, ela continua sendo
202 FARIA, Jacir de Freitas. O outro Pedro e a outra Madalena segundo os apócrifos: uma leitura de gênero.
lembrada como penitente e esquecida como testemunha da ressurreição, principalmente em alguns membros de mentalidade ainda bastante tradicional.
Mas, graças a alguns estudiosos, principalmente teólogas feministas, estamos tendo a oportunidade de conhecer mais a fundo essa grande mulher da nossa tradição cristã, que nos precedeu na fé e no seguimento a Jesus Cristo.
Percebemos que o conflito registrado no capítulo 20 do Evangelho de João, mais do que conflitos entre grupos de uma comunidade, o que temos na verdade, são tensões dentro do cristianismo primitivo em termos de liderança, na qual Maria Madalena é figura fundamental.
CONCLUSÃO
Na história do cristianismo a imagem de Maria Madalena foi silenciada, esvaziada, esquecida. Começa-se a dar atenção à história de Maria Madalena a partir da tradução dos Evangelhos Gnósticos, encontrados em 1945, no Egito. Durante todos estes séculos anteriores, a sua imagem foi silenciada e ficou ocultamente submetida pela oficialidade eclesiástica. No entanto, quebrando todas as regras sociais de sua época, Jesus escolheu uma mulher, Maria Madalena, para anunciar a boa-nova da Ressurreição.
No Evangelho de João, uma parte da tradição concede a Maria o reconhecimento e a importância que sua figura alcançou historicamente. A narrativa se concentra no fato da ressurreição de Jesus. Ela está no sepulcro quando Jesus aparece e a chama pelo nome, ela o reconhece e ele lhe dá instruções. Somente em João ela dialoga com Jesus e é enviada aos demais discípulos. Nenhum outro teve esse privilégio. Paralelamente tenta-se cooptar a figura dela. A inserção da narrativa dos dois discípulos em sua perícope desvia a atenção do leitor.
Se em Mateus Jesus comissiona os discípulos para evangelizarem os povos até os confins do mundo, em João, Maria Madalena é a discípula fiel que, ao encontrar o Ressuscitado, também é comissionada a levar a mensagem da ressurreição do Mestre. Ela ganha o mesmo status dos outros discípulos. Podemos usar com Maria Madalena o mesmo argumento usado por Paulo para se proclamar Apóstolo. Ele viu o Senhor Ressuscitado. Maria Madalena conviveu com Jesus e foi a primeira pessoa a vê-lo ressuscitado. Usando
esse argumento paulino ela é a Apóstola por excelência. É a primeira testemunha da ressurreição que anuncia a boa nova aos seus e não deixa o movimento cristão perecer.203
Após esse trabalho afirmamos que o movimento cristão se expandiu, graças à coragem e fidelidade de Maria Madalena e suas companheiras em anunciar a mensagem do Evangelho pregado por Jesus. As suas casas se tornaram lugares que acolhiam aqueles que se convertiam à mensagem cristã e pessoas marginalizadas. Ajudavam as viúvas e os órfãos. Nos cultos pregavam e partilhavam a Ceia do Senhor. Essas comunidades ficaram conhecidas como Igrejas domésticas. Aqui elas puderam exercer a liderança e viver em “pé de igualdade” com o sexo oposto.
Havia uma mudança de comportamento nas famílias que se convertiam ao cristianismo. Diminuiu o número de abortos, as moças podiam escolher o noivo e casar numa idade mais avançada. Não existia diferença entre crentes e pagãos, judeus e gregos, homem e mulher. A hierarquia era inexistente.
Ao exercerem liderança na comunidade, as mulheres descobriam suas potencialidades, tornavam-se pessoas dignificadas. A liderança dava status à mulher. Não se cansavam nem tinham medo de levar a mensagem do Ressuscitado. Mesmo na época das perseguições elas enfrentavam as torturas e o martírio em nome da sua fé.
As grandes colaboradoras de Paulo foram as mulheres. Enquanto ele fazia suas viagens missionárias, quem liderava e levava para frente as comunidades eram Maria, Júnia, Febe, Priscila, Trifosa e muitas outras. Os discípulos também tinham as suas comunidades juntamente com outras discípulas. Deduzimos que a comunidade de João fosse composta por um número razoável de mulheres, pois as mulheres nas narrativas joaninas são apresentadas como figuras fortes, carismáticas.
203 THOMPSON, Mary R. Mary of Magdala: Apostle and leader. New York and Mahwah, N.J.: Paulist Press,
Não eram comunidades perfeitas pois existiam os conflitos e as lutas de liderança entre os discípulos. Principalmente entre Maria Madalena e Pedro. São duas tradições que se combateram reciprocamente. A tradição petrina dos apóstolos e a tradição de Maria, das comunidades gnósticas.
A liderança de Maria era proeminente nas comunidades primitivas. Com o tempo a poderosa mensagem do cristianismo vai alcançando um número cada vez maior de fiéis. A igreja apostólica vai se fortalecendo, hierarquizando-se e a tradição petrina ganha a luta contra a tradição de Maria Madalena. Com isso, as mulheres vão perdendo seu espaço nas comunidades, a ponto de não poderem mais nem sequer falar.
A figura de Maria Madalena foi esvaziada em sua autoridade. A líder do cristianismo primitivo foi, num longo processo, transformada em um paradigma de uma boa moral para as mulheres do cristianismo. Primeiramente as diversas literaturas da Bíblia foram pouco a pouco fundindo a figura de Maria Madalena com outras Marias, e outras mulheres do evangelho em um processo que, por um lado, diminuiu a importância das mulheres no Novo Testamento na medida em que diversas lideranças femininas foram transformadas em uma única e, por outro lado, a liderança de Maria Madalena desaparece diluída entre diversas figuras. Num segundo momento, ela é identificada como a prostituta divina perdida que teve a sua vida transformada num encontro com Jesus passando assim a ser um modelo para todas as mulheres, de uma mulher que a partir do ingresso no cristianismo passa a ter uma vida casta devido ao seu arrependimento. Esse é o longo processo de transformação de uma líder do cristianismo em um modelo de vida casta.
Hoje o panorama vai mudando. Na Igreja Católica Romana, após o Concílio Vaticano II, já não se considera Madalena como uma prostituta. Essa modificação aconteceu quase em silêncio, como é costume nas transformações eclesiásticas que podem causar alguma alteração na fé dos fiéis. Na sua festa litúrgica (22 de julho) Maria Madalena já não aparece como a “penitente”, em vez da passagem de Lc 7, 35-50 em que se descreve a unção da prostituta, lê-se agora o Evangelho de João 20, 1-2.11-18 no qual se narra que Maria Madalena foi a primeira a anunciar aos apóstolos que o Mestre estava vivo. Em sua
nova liturgia, Madalena já não é uma ex-prostituta convertida, mas uma mulher santa que foi testemunha e apóstola na primeira comunidade cristã. Porém, há um longo caminho a percorrer.
Hoje, as mulheres continuam com grande atuação no cristianismo: nas comunidades e também nas esferas sociais. Se verificarmos as estatísticas, perceberemos que, nas comunidades cristãs, o número de mulheres atuantes ultrapassa o número de homens. Embora o poder de autoridade ainda esteja na esfera hierárquica da Igreja, as mulheres já ocupam espaços de liderança e permanecem à frente de suas comunidades e movimentos, atuando em defesa da vida.
ANEXO
A Biblioteca de Nag Hammadí é uma coleção de textos religiosos da época do cristianismo primitivo. No mês de dezembro 1945, dois camponeses da região de Nag Hammadí, no Egito, enquanto trabalhava no campo encontraram um jarro com fragmentos de papiros. Descobriu-se que esses fragmentos eram uma coleção de manuscritos antigos, constituída de 12 códices, cerca de 52 tratados; com as duplicidades, há 45 títulos separados. O fato do clima ser muito seco fez com que os documentos fossem preservados. A maioria deles são datados entre os séculos III e IV, e pertencem a um movimento chamado gnóstico. Eles estão escritos em copta, mas originalmente foram compostos em grego.204
A palavra Gnosticismo significa conhecimento, é um termo derivado do grego - gnosis. É um movimento religioso que se expandiu pela região do Mediterrâneo no século I aC. até o século III dC. Movimento de expressões pagãs, judias e cristãs. O Gnosticismo cristão, surgiu como uma reafirmação, do modelo original de transcendência da origem do cristianismo. Eles consideravam-se os seguidores fiéis dos primeiros cristãos. Esse movimento despertou conflitos e divergências em outros cristãos. Com a cristianização do Império Romano eles foram drasticamente reduzidos, chegando a serem acusados de hereges e banidos da Igreja.205
204 ROBINSON, James M. A biblioteca de nag hammadí. São Paulo: Madras, 2006. p. 9;27;35. 205 ROBINSON, James M. A biblioteca de nag hammadí. São Paulo: Madras, 2006. p. 19-20.
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