Tendo em vista os distintos momentos da obra de Vigotsky, conforme expostos por González Rey (2013b), foi durante o primeiro deles (1915-1928) que se deu a elaboração dos pressupostos que embasaram a Teoria Histórico-Cultural, com a definição da consciência (forma superior de manifestação da psique) a partir da relação com os outros no meio social, o que é expresso no livro Psicologia pedagógica (1926). Nesse trabalho Vigotsky tem suas elaborações associadas à conduta humana, em uma caracterização mais objetiva da psique, revelando sua adesão aos fundamentos de um marxismo ortodoxo, bem como aos
pressupostos da Reflexologia e da Reactologia. Segundo González Rey, é, contraditoriamente, nesse mesmo momento em que o psicólogo bielorrusso desenvolve também importantes reflexões sobre a psique como um sistema em constante desenvolvimento, salientando sua capacidade geradora e sua integração em uma unidade cognitivo-afetiva. Esta concepção é particularmente identificada em Psicologia da arte e nos primeiros escritos sobre defectologia. Contudo, foi especialmente nas construções do segundo momento teórico de Vigotsky (1928-1931) que ficou marcada a representação histórico-cultural da psique, conhecida por Teoria Histórico-Cultural.
Puentes e Longarezi (2013) chamam atenção à frase de Vigotsky que pôs em relevo o princípio do caráter sócio-histórico da psique mediante a transformação do interpsíquico em intrapsíquico: “A fonte da evolução histórica da conduta não há que buscá-la no interior do homem, mas fora dele, no meio social ao qual pertence [...]” (VIGOTSKY, 1956, p. 449 apud PUENTES; LONGAREZI, 2013, p. 249). Valendo-se dessa tese vigotskyana, numerosos autores passaram, assim, a considerar a apropriação da cultura como via de aquisição das aptidões e caracteres especificamente humanos, apesar de outros autores da Psicologia soviética, contemporâneos de Vigotsky, tal como Rubinstein (1889-1960), também terem desenvolvido suas formulações articulando a psique e as dimensões histórica, social e cultural.
González Rey (2013b, p. 68) lembra que o entendimento diferente de Vigotsky sobre a psique humana a partir de sua relação com as referidas dimensões representou, àquela época, a abertura de inéditas “zonas de sentido” no campo psicológico, extrapolando a visão de desenvolvimento atrelado aos processos inerentes ao organismo. Ocorreu, que, no intento de aprofundar essa construção teórica, seguindo-se ao enfoque já dado ao desenvolvimento das crianças com deficiências sensoriais mediante o uso de ferramentas culturais, o autor se ateve ao caráter da mediação semiótica das funções psíquicas superiores, enfatizando os conceitos de signo, ferramenta, função e interiorização. Nesse sentido, ganhou centralidade a mediação instrumental das funções psíquicas superiores, sobretudo das funções cognitivas, tomando por “função psíquica superior” aquela “regulada por signos de caráter cultural e voltada para a produção de um novo tipo de estímulos para o comportamento humano” (GONZÁLEZ REY, 2013b, p. 65). Essa ênfase no caráter operacional das funções psíquicas superiores, desenvolvidas no âmbito do conhecimento e da ação, acabou por cercear a visão integradora dos processos afetivo-emocionais, incluindo a fantasia e a imaginação que, em trabalhos do
primeiro momento da obra de Vigotsky28, eram considerados produções da psique em uma unidade dialética com os processos cognitivos.
A despeito da amplitude da Teoria Histórico-Cultural é, pois, o segundo momento da obra de Vigotsky – em que pontua o desenvolvimento das funções psíquicas superiores com a mediação semiótico-instrumental, principalmente a partir de sua fundamentação expressa no quinto capítulo do livro História do desenvolvimento das funções psíquicas superiores (1931) – aquele que passa a ser tomado como representativo do pensamento do autor tanto na URSS, quanto no Ocidente. Nesse momento, observa-se a defesa da relação direta e linear entre os âmbitos externo (meio sociocultural) e o interno (fenômenos psíquicos/funções psíquicas superiores), com vistas ao delineamento de uma psicologia objetiva.
Segundo a perspectiva colocada por Vigotsky em seu segundo momento (mais materialista do que dialético) seria, então, por meio da ideia de interiorização dos elementos da cultura, situados no meio social, que se daria a transformação do interpsíquico em intrapsíquico, como um reflexo, caracterizando a precedência da dimensão externa à interna. Nessa ótica, a função psicológica corresponderia a uma operação externa ou à ação de outrem interiorizada e, seguindo a esse mesmo raciocínio, se daria o processo de formação da personalidade. Tal concepção fica evidente nas palavras de Vigotsky:
[...] passamos a ser nós mesmos através dos outros; esta regra não se refere unicamente à personalidade em seu conjunto senão à história de cada função separada. Aí se radica a essência do processo do desenvolvimento cultural expresso em forma puramente lógica. A personalidade vem a ser para si o que é em si, através do que significa para os demais. Este é o processo de formação da personalidade. Pela primeira vez se coloca na psicologia, em toda sua importância, o problema das correlações das funções psíquicas externas e internas. Se faz evidente aqui, como já dissemos antes, o porquê todo o interno nas formas superiores era forçosamente externo, quer dizer, era para os demais o que é agora, para si. Toda função psíquica superior passa ineludivelmente por uma etapa externa de desenvolvimento porque, a princípio, é social [...] (VIGOTSKY, Obras Escogidas Tomo III, p. 149-150, tradução nossa).
Pretendendo enfatizar a relevância dos processos culturais para o desenvolvimento da psique, na contramão da perspectiva idealista e também de um determinismo biológico, Vigotsky incorreu na visão extrema de considerar que “todas as funções superiores não são produto da biologia, nem da história da filogênese pura, senão que o próprio mecanismo que subjaz às funções psíquicas superiores é uma cópia do social” (VIGOTSKY, Obras Escogidas
Tomo III, p. 150, tradução nossa). Esclarecendo sua compreensão sobre o “social”, o autor pondera:
Primeiro, no sentido mais amplo significa que todo o cultural é social. Justamente a cultura é um produto da vida social e da atividade social do ser humano; por isso, a própria abordagem do problema do desenvolvimento cultural da conduta nos leva diretamente ao plano social do desenvolvimento. Poderíamos também assinalar que o signo, que se constitui fora do organismo, assim como a ferramenta, é separado da personalidade e serve em sua essência ao órgão social ou ao meio social (VIGOTSKY, Obras Escogidas Tomo III, p. 150, tradução nossa).
Para González Rey, além de Vigotsky retroceder em sua compreensão da psique como sistema complexo (visão essa já assinalada em trabalhos de seu primeiro momento), se atendo ao desenvolvimento das funções com vistas ao desenvolvimento da conduta, a própria ideia de “social” apresenta suas limitações. É que, segundo observa o psicólogo cubano:
A representação da psique através de representações que primeiro têm um caráter externo, passando a ser internas através da interiorização, não permite compreender o social como produção simbólica presente nas distintas práticas humanas, o que leva a uma identificação do social com o externo. Somente a compreensão do social como produção simbólica,
situada para além de qualquer sistema atual de relações, permite compreender o subjetivo como produção simbólico emocional de grupos e pessoas dentro do espaço social (GONZÁLEZ REY, 2013b, p. 70, grifo nosso).
González Rey (2013b, p. 82-83) adverte que, embora Vigotsky considere os signos como instrumentos de mediação simbólica, não menciona a forma como integram as emoções do sujeito, sendo apresentados em seu caráter instrumental. Exemplo disso está em como concebe a palavra – devendo apresentar um nexo objetivo com aquilo que significa (VIGOTSKY, Obras Escogidas Tomo III, p. 150). Para González Rey, esse entendimento atribui à palavra a independência de um sistema linguístico permeado por “toda uma produção subjetivo-discursiva”. Além disso, a relação linear de significação entre a palavra e o objeto é associada à ideia de que ela aglutina, exclusivamente, aquilo já significado por outrem, já que há a defesa de sua significação prévia aos outros, passando a existir para a criança apenas em momento posterior quando, a partir da comunicação verbal com o adulto, é interiorizada em funções psíquicas. Em última instância, essa perspectiva leva Vigotsky a definir o pensamento a partir de operações externas. É nessa direção que o autor discorre ao tratar das etapas de desenvolvimento da linguagem da criança, quais sejam: “a natural, a mágica (em que as propriedades do objeto são atribuídas à palavra, depois a externa e, finalmente, a linguagem
interna” (VIGOTSKY, Obras Escogidas Tomo III, p. 166, tradução nossa). Assim diz Vigotsky:
Esta última etapa é o pensamento propriamente dito. [...] depois de todo o dito cabe admitir que as etapas fundamentais de formação da memória, da vontade, dos conhecimentos aritméticos, da linguagem, são as mesmas etapas das que temos falado e pelas quais passam todas as funções psíquicas superiores da criança em seu desenvolvimento (Ibid., p. 166-167).
Ademais, segundo González Rey (2013b), o pressuposto vigotskyano de que
passamos a ser nós mesmos através dos outros define uma relação linear do externo para o interno que é falsa, pois a ação dos outros não representa nada em si mesma, seus efeitos sobre a pessoa dependerão tanto de sua organização psicológica ao entrar em contato com esse outro, como do contexto em que se produz a ação do outro. Não existe outro “em si”, que atue como universal nas diversas relações humanas; existe um outro produzido através de meus próprios processos subjetivos. O outro em sua universalidade só pode ser um outro instrumental que aparece diante de mim apenas por suas operações, mas sem nenhuma significação íntimo-emocional (GONZÁLEZ REY, 2013b, p. 81).
A concepção apresentada por Vigotsky em Psicologia pedagógica e, posteriormente, em trabalhos do segundo momento de sua produção teórica, especialmente no quinto capítulo do livro História do desenvolvimento das funções psíquicas superiores, com foco no desenvolvimento das funções cognitivas apresentando uma compreensão sobre a psique baseada na internalização do social como dimensão externa, como um reflexo, predominou sobre formulações outras de seu primeiro momento teórico que já acenavam à psique como um sistema complexo, ontologicamente diferenciado com o reconhecimento de seu papel ativo e gerador. Ainda assim, é importante destacar que mesmo durante o momento de Vigotsky marcado pelo esforço de construir uma psicologia objetiva, o autor expressou, contraditoriamente, sua intenção de conceber a psique em uma dinâmica mais integral, situando o desenvolvimento das funções no âmbito da personalidade, abordando o caráter dinâmico do desenvolvimento baseado na dialética e a imersão de novas estruturas a partir da mudança qualitativa das funções psicológicas isoladas.
As formulações de Vigotsky interpretadas por González Rey (2013b) como frutos de seu “giro objetivista”, iam ao encontro do pensamento político do final da década de 1920, considerando-se a institucionalização do marxismo e seu viés materialista na Rússia, sobretudo no momento de intensificação das forças stalinistas a partir de 1930. Entretanto,
nem a Psicologia na Rússia nem, tampouco, a figura de Vigotsky, foram poupados de perseguição sob a acusação de antimarxismo.
Foi especialmente a concepção apresentada no segundo momento da produção intelectual vigotskyana e ideias como as do desenvolvimento psicológico fomentado pelo desenvolvimento do pensamento científico, próprio do meio acadêmico, escolar, portanto, intrinsecamente ligado ao ensino intencional, que irradiaram seus efeitos em formulações posteriormente aplicadas ao campo educacional.
3.1.2 Delineando o ensino para o desenvolvimento: a primazia pela formação dos