O MAPA DO ESPETÁCULO
Neste segundo capítulo serão analisadas mais duas revistas do corpus desta tese: a
Prazeres da Mesa e a GoWhere Gastronomia. O fato de elas estarem separadas das demais se justifica, pois, além de serem publicações mais recentes, elas apresentam alguns elementos que as diferenciam das outras três já apresentadas. A Prazeres da Mesa prima pela produção de eventos, organizando feiras, congressos e concursos na área da gastronomia, acontecimentos que interferem para movimentar o espetáculo da gastronomia. Por sua vez, a
GoWhere Gastronomia é a única, dentre as cinco, veiculada bimestralmente e é de cunho publicitário, ou seja, ela só é publicada se houver um número mínimo de acordos publicitários em cada edição. Além desses dois diferenciais, ela ilustra suas capas com figuras de personagens - e não com os pratos de comida, como as demais. A partir da análise de ambas, apresentam-se aqui os conceitos de capital culinário (NACCARATO e LeBESCO, 2012) e o de campo da gastronomia, propostos como fundamentos desta tese.
Como apresentado anteriormente, outro pilar que estrutura esta tese é a noção de um espetáculo da gastronomia, sendo que o termo está amparado nos princípios da sociedade do espetáculo de Debord (2005). Como tal, pode-se inferir que ele “não é um conjunto de imagens, mas uma relação social entre pessoas, midiatizado por imagens” (idem, p. 14), além de poder ser observado como “o coração da irrealidade da sociedade real” (idem, p. 15).
Essa magna condição das imagens, de se encontrarem como o centro da midiatização do espetáculo, é um fator corroborante para postulá-las como parte dessa discussão e, posto elas estarem presentes no segmento da gastronomia de luxo, delineia-se a seguinte pergunta: quais as imagens que jogam no espetáculo da gastronomia?
Para acercar-se dessa resposta, antes de seguir com tal argumentação, torna-se necessário apresentar o conceito de campo da gastronomia, pois se infere que é dentro dele que essas imagens estão contextualizadas quando se trata do espetáculo da gastronomia.
4.1 O campo da gastronomia
Assim como exposto, o campo da gastronomia, que aqui se propõe, está amparado no conceito de campo de Bourdieu (Ortiz, 1983; Amparán, 1998; Bourdieu e Wacquant, 2005), tratando-se, portanto, de uma configuração que abarca a trama de relações entre os sujeitos e as diferentes posições que são a eles oferecidas. Segundo Amparán (1998, p. 180), a metáfora
espacial de campo está associada às categorias de habitus e de capital, que são mantidos num determinado campo, mas para que o conceito seja bem compreendido, expõem-se as palavras expressas pelo próprio criador do conceito:
Em termos analíticos, um campo pode ser definido como uma rede ou uma configuração de relações objetivas entre posições. Estas posições estão objetivamente definidas, em sua existência e nas determinações que impõem a seus ocupantes, agentes ou instituições, por sua situação atual e potencial na estrutura de distribuição de diferentes espécies do poder (ou capital), cuja disposição comanda o acesso aos benefícios específicos que estão em jogo no campo, assim como por suas relações objetivas com as outras posições (dominação, subordinação, homologias, etc.) (BOURDIEU e WACQUANT, 2005, p. 150).
Segundo Bourdieu (ibidem), essas relações objetivas entre posições que se apresentam em um campo estariam apoiadas em Marx, sendo, portanto, independentes “da consciência e da vontade social”. Quanto ao emprego do termo jogo, como uma analogia ao campo, ele explica que deve ser usado com cautela, pois um campo, diferentemente de um jogo, não é um produto criado de modo deliberado, inclusive porque, segundo o autor, um campo:
mantém regras, ou melhor, regularidades95, que não são explícitas e nem estão codificadas. Desse modo, o que está em jogo são as competências dos jogadores. E há uma inversão nesse jogo, a ilusão: os jogadores são admitidos no jogo, se opõem uns aos outros, algumas vezes com ferocidade, mas só na medida em que coincidem com sua crença no jogo que se joga, e que se atribui um reconhecimento fora de qualquer tipo de questionamento. Os jogadores pactuam pelo simples fato de jogar, e não por meio de um “contrato”, que o jogo mereça ser jogado, que vale a pena jogá-lo, e esta coesão é a base de sua competência. Temos também as cartas do triunfo, ou seja, as cartas mestras que variam conforme o jogo: assim como o valor das cartas mudam para cada jogada, a hierarquia das diferentes espécies de capital (econômico, social, cultural, simbólico) varia nos distintos campos. Em outras palavras, há cartas que são válidas, eficazes em um campo – elas são a espécie fundamental do capital - mas seu valor relativo como cartas de triunfo é determinado por cada campo e, inclusive, pelos sucessivos estados do mesmo campo (BOURDIEU e WACQUANT, 2005, p. 151).
95 Martino (s/d) esclarece a diferença entre os termos aplicados por Bourdieu, expondo que “é difícil falarmos em
‘regras’ dentro de uma sociedade, mais ainda em ‘leis’ do comportamento humano, por outro lado é possível identificar algumas regularidades e tendências na ação das pessoas, sem que isso, em absoluto, signifique a obediência a leis ou regras”.
Ou seja, conforme Amparán (1998, p. 180), o campo é um espaço de conflito entre seus agentes, e eles enfrentam-se pelos bens que são oferecidos no campo e, desse modo, “se põe para trás o reducionismo que considera que as práticas sociais dos atores derivam mecanicamente de suas posições sociais” (ibidem, p.181). No mais, as posições no campo são mantidas de acordo com o capital que circula dentro dele e, segundo Bourdieu (BOURDIEU e WACQUANT, 2005, p. 152), ele será válido em um campo determinado, e aqueles que o possuem terão poder e influência para mantê-lo. Apoiado na metáfora do jogo, o autor esclarece a relevância desse capital, que é inerente à estrutura de um campo:
Podemos representar os jogadores como se cada um tivesse uma pilha de fichas de cores e cada cor correspondesse a uma espécie dada de capital, de maneira que sua força relativa no jogo, sua posição no espaço do jogo, assim como os movimentos que faça, mais ou menos arriscados ou cautelosos, subversivos ou conservadores, vão depender tanto do número total de fichas, como da composição das pilhas de fichas que conserve, ou seja, do volume e estrutura de seu capital. Dois indivíduos, dotados de um capital equivalente, diferem-se em suas posições e em suas posturas (tomadas de posição), em que um detenha muito capital econômico e escasso capital cultural, enquanto que o outro tenha pouco capital econômico e grandes ativos culturais (ibidem).
Bourdieu também esclarece o papel dos jogadores no campo e o modo como eles aplicam as fichas para movimentar o jogo que nele se instala:
os jogadores podem jogar para aumentar ou conservar seu capital, sua quantidade de fichas, em conformidade com as regras tácitas do jogo e os pré requisitos da reprodução do jogo e de seus assuntos em jogo; mas também podem ingressar no jogo para transformar, total ou parcialmente, as regras imanentes do jogo. Podem, por exemplo, trabalhar para mudar o valor relativo das fichas de diferentes cores, a taxa de câmbio entre as diversas espécies de capital, através de estratégias que apontem a desacreditar a forma de capital em que repousa a força de seus oponentes (o capital econômico, por exemplo) e valorizar as espécies de capital que possuem em abundância (capital jurídico, por exemplo) (ibidem, p. 153).
Posto como entendido o conceito de campo e o movimento do jogo que nele é instaurado, um aspecto importante a salientar são os limites do campo. Para Bourdieu e Wacquant (2005, p. 159), suas fronteiras são dinâmicas, complexas e desprovidas de um inventor, mas, ainda assim, é importante aclarar que, segundo ele, “para construir um campo é
preciso identificar as formas de capital específico que nele serão eficientes e, para isto, é preciso conhecer a lógica do campo” (ibidem, p. 164).
O campo da gastronomia, que aqui se examina, por estar apoiado nos preceitos do campo bourdiano, necessita apresentar essas duas exigências que a ele cabe ter. Desse modo, argui-se que quanto à lógica, ele se ampara nas regras do espetáculo (Debord, 2005, p. 29), em que “o mundo da mercadoria [se põe] dominando tudo o que é vivido” e, quanto ao capital específico que é necessário para mantê-lo, afirma-se que seja o capital culinário (NACCARATO e LE BESCO, 2012).
Naccarato e Lebesco (2012, p. 2) são os autores que, recentemente, apresentaram o conceito de capital culinário e, segundo eles, o princípio desse modelo está ancorado no conceito bourdiano. Com o propósito de que o conceito de capital culinário seja esclarecido, ainda que de maneira sucinta, elencam-se alguns exemplos expostos pelos autores:
a) O onívoro (ibidem, p. 9): segundo os autores, os comensais que optam por essa escolha alimentar fariam parte de uma elite, pois, devido ao grande leque de experiências gustativas que possuem, teriam mais capital cultural do que os demais agentes sociais. b) Os websites de lojas de conveniência: eles são destacados por serem dispositivos
midiáticos em que o tema da culinária doméstica sai de sua invisibilidade. Os produtos naturais e sustentáveis oferecidos por essas lojas virtuais são apontados como benévolos para um grupo específico: o das mulheres brancas, de classe média-alta, que têm pouco tempo para as tarefas domésticas (ibidem, p. 24). O público norte- americano de outras classes e etnias, segundo os autores, são os que movimentam o mercado das mercadorias alimentícias, pois a eles cabem os postos de trabalho dessa área, servindo aos demais (ibidem, p.16).
c) Programas culinários: para os autores, as emissoras especializadas no segmento de programas culinários favorecem a divulgação de agentes da etnia branca. Para eles, os programas de competição veiculados desenvolvem discursos próprios para um público masculino e, para as mulheres, mantêm-se as discussões temáticas em torno da família e da hospitalidade (ibidem p. 44).
d) Produtos de luxo renomeados: para atender a um público mais amplo, os autores apontam que as empresas lançam produtos com versões mais simples do que as tradicionais vinculadas ao luxo e, por muitas vezes, são esses outros produtos que passam a oferecer uma maior parte dos lucros para as empresas (ibidem, p. 50).
e) Criação de novos consumidores: os programas de televisão, ao reproduzirem estilos de vida e práticas alimentares, constroem fantasias para os consumidores e democratizam o capital culinário, provocando assim um rompimento na hierarquia de classes (ibidem, p. 51).
f) Democratização dos gostos: ao convocarem os internautas a participarem em sites e
blogs e darem suas opiniões sobre suas experiências como comensais, as mídias sociais quebram uma hierarquia, pois fragilizam os discursos de alguns especialistas da área de alimentação, antes considerados como parte de uma elite, como críticos,
restauranteurs, chefs de cozinha e outros. Por vezes, esses mesmos veículos de comunicação alternativa, que aparentam quebrar privilégios de uma elite, favorecem a outros grupos que venham a surgir (ibidem, p. 72).
g) Festas e feiras: os autores destacam os eventos como meios para as pessoas transgredirem as regras da boa saúde e abandonarem as diretrizes normativas dos comportamentos alimentares instituídos pelos biopoderes (ibidem, p. 92).
Esses casos, que elucidam os modos de circulação do capital culinário, mostram como o alimento gira entre a materialidade e o simbólico e entre agentes e instituições, ou seja, mostram como o alimento circula entre o capital econômico e o cultural. Mais do que isso, pode-se inferir que os agentes e instituições apresentam o movimento dos alimentos em função do espetáculo. Tal afirmação se pauta nas próprias circunstâncias abordadas pelos autores do termo, pois o capital culinário embrenha-se em vários núcleos sociais que reproduzem e orientam os seus agentes a buscarem modelos de consumo vinculados ao mercado que movimenta os alimentos.
Vários exemplos estão vinculados ao biopoder (NACCARATO e LeBESCO (2012, p. 4), um tema recorrente quando o capital culinário é apresentado por seus autores. Para ambos, esse conceito trazido por Foucault direciona e faz perceber muitas das convocações que dão suporte e movimentam o capital culinário, como os discursos da boa saúde e do bem estar, por exemplo. Segundo os autores (ibidem, p. 5), os discursos promovidos pelo biopoder, além de fortalecerem as expectativas sociais nos indivíduos, oferecem outro diferencial aos agentes que seguem as boas práticas alimentares: o de serem notados como bons cidadãos.
Naccarato e Lebesco (2012, p. 2), apoiados em Bourdieu, afirmam que o indivíduo adquire status e poder pelos níveis de capital adquirido e essa máxima também se estende quando se discute o capital culinário. Com isso, infere-se que os agentes ou instituições, ao
atenderem a determinadas demandas apresentadas no campo da gastronomia, ganham fichas do capital culinário e, com elas, benefícios diferenciados.
Dadas como esclarecidas as arguições acima pautadas, que expõem os princípios que dão conta de organizar o campo da gastronomia, dar-se-á prosseguimento ao texto para verificar que imagens jogam com o hedonismo quando se mapeia o espetáculo da gastronomia.