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estudos voltados a compreender as dinâmicas das distintas práticas de pes- quisa e seus respectivos processos de produção, controle e certificação do conhecimento. Essa literatura impôs uma revisão a respeito da imagem tradicional que concebia o desenvolvimento da ciência moderna a partir de uma lógica interna, baseada na aplicação rigorosa de uma metodologia universal. Afastando-se da concepção da ciência como um sistema formal de enunciados logicamente verificados, historiadores e sociólogos interes- saram-se em articular analiticamente os aspectos cognitivos do conheci- mento, com os contextos sócio-profissinais que o regulam. Essa aborda- gem contextualista tornou evidente que as proposições científicas se difundem a partir de um complexo processo de acomodação, negociação e interpretação, tão contingente quanto aquele envolvido em sua produ- ção (Pestre 1995; Latour 2000). Assim, o foco na circulação do conheci- mento, a partir de diferentes circuitos – revistas, sociedades, congressos – formalmente controlados por especialistas revela aspectos interessantes sobre o modo como os fatos científicos, aceitos por uma especialidade, podem ser objeto de fortes controvérsias e envolver complicadas nego- ciações, quando apresentados a outros especialistas.1

Este estudo, que se baseia em uma pesquisa sobre a emergência das investigações em parasitologia helmíntica no ambiente médico brasileiro na segunda metade do século XIX, filia-se à referida vertente historiográ-

fica. Em artigos anteriores, apresentámos alguns aspectos das controvér- sias científicas geradas entre os partidários das hipóteses parasitárias sobre as causas de algumas doenças em especial, bem como a oposição que a nova ciência sofreu por parte dos defensores de uma explicação ambien- talista das patologias humanas no contexto médico imperial (Edler 2002; Edler 2003).

Agora pretendemos apresentar uma reflexão sobre o processo de ins- titucionalização do novo saber tendo em conta os esforços empreendidos pelos seus adeptos no sentido de verem seus «fatos» corroborados tam- bém em fóruns disciplinares internacionais. Admitindo a heterogenei- dade dos regimes de legitimação dos fatos científicos e das práticas epis- temológicas observadas por cada disciplina envolvida, nossa intenção é descrever uma específica cartografia do conhecimento médico oitocen- tista revelando as linhas de força de três campos disciplinares e o modo como eles interpelaram ou atraíram as lideranças da helmintologia mé- dica interessadas em verem inscritos seus achados no território científico legitimado.

As primeiras pesquisas desenvolvidas no Brasil no campo da parasito- logia médica, a partir da década de 1860, foram marcadas por fortes con- trovérsias. Adeptos e opositores das explicações parasitárias sobre algumas doenças então bem conhecidas e estudadas pelos médicos brasileiros – a

hipoemia inter-tropical, a hematochiluria, e a elefantíase dos árabes – enfrenta-

ram-se na arena científica por quase trinta anos. Esse período coincide com o limiar epistemológico da parasitologia helmíntica, uma nova di- nâmica de pesquisa que, juntamente com a bacteriologia, redefiniu os pa- drões aceitos sobre a noção mesma de doença e sua causalidade. Assim, essas alterações radicais no modo de conceber os processos patológicos exigiram uma mudança na configuração do território acadêmico. Uma nova cartografia disciplinar emergiu ao fim das disputas que transforma- ram o debate teórico numa arena onde o desejo de legitimação epistemo- lógica era indissociável do desejo de legitimação sócio-profissional.

No decorrer da polêmica, a tradição de pesquisa conhecida como cli- matologia médica, que postulava ser o ambiente climático e telúrico um modificador complexo dos processos fisiológicos e, portanto, origem de diversas patologias, sofreria grandes baixas no território acadêmico. No alvorecer do século XXperderia seu estatuto de saber científico. É preciso

insistir aqui que esta noção ambientalista da doença, adaptada aos pos- tulados teóricos mecanicistas da fisiopatologia, informara a prática clínica e higienista da medicina acadêmica européia na primeira metade do sé- culo XIX. Não se tratava, portanto, de uma idiossincrasia brasileira.

Adiante apresentarei o sistema de autoridade científica que as tradições anatomoclínica e higienista haviam construído para avaliar, certificar e arbitrar o conhecimento médico produzido no contexto brasileiro (Aca- demia Imperial de Medicina) e internacional (campo disciplinar da Geo- grafia Médica). Este cenário é importante porque explicita o tipo de cons- trangimentos institucionais que os partidários da parasitologia helmíntica tiveram que enfrentar para verem legitimados seus modos particulares de interrogar a natureza dos fenômenos mórbidos.

Entre os anos 1866 e 1892, que marcam o início e o encerramento dos debates, analisamos as contribuições de 55 médicos brasileiros e 15 médicos europeus (franceses, ingleses e alemães) envolvidos na polêmica em torno da etiologia daquelas doenças. A querela se desenvolveu em associações científicas, como a Academia Imperial de Medicina (1829), a Sociedade de Medicina do Rio de Janeiro (1873-1880) e a Sociedade de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro (1887), bem como em 13 pe- riódicos médicos: 9 nacionais (Gazeta Médica da Bahia, Annaes Braziliensis

de Medicina, Revista Médica Brasileira, Revista do Ateneu Médico, União Mé- dica, Progresso Médico, Revista Médica do Rio de Janeiro, Revista da Sociedade Instituto Acadêmico, Brazil Médico) e 4 estrangeiros (Lancet, Journal Thera- péutique, Gazzete Médicale de Paris e Archives de Médecine Navale). Mais de

80 artigos foram publicados durante a polêmica. Ao menos 7 teses de formatura e 4 teses para concurso docente defenderam a etiologia para- sitária daquelas doenças. Além dos diversos artigos publicados pelo grupo da Gazeta Médica da Bahia no Rio de Janeiro, 41 artigos foram publicados em revistas médicas sobre os resultados de pesquisas em patogenia e te- rapêutica verminótica. Referências à polêmica também são encontradas em verbetes de dicionários médicos europeus do século XIX, como o de

Dechambre (1864); e em compêndios médicos brasileiros, como os de Torres Homem (1885) e Peçanha da Silva (1886); e estrangeiros como Casimir Davaine (1877), a maior autoridade francesa em helmintíases (doenças ou complicações orgânicas causadas por vermes parasitados).2

Trata-se, portanto, de uma disputa científica que além de ter um sig- nificado importante para nós – naquele contexto estabeleceu-se gradual- mente a concepção atualmente aceita sobre a causalidade das doenças infecto-parasitárias – também foi percebida pelos contemporâneos como envolvendo uma transformação profunda nos modos como até então eram explicadas as patologias humanas.

Assim, não é de se estranhar que vários historiadores tenham se inte- ressado em estudar aquele evento. A historiografia clássica costuma abs- trair a complexa constelação dos problemas teóricos e metodológicos discutidos naquela ocasião através de uma polaridade fundamental: de um lado, situavam-se os adeptos de uma «medicina científica»; de outro, aqueles «espíritos metafísicos» que combatiam as idéias parasitológicas que se tornariam vitoriosas no cenário científico. Em geral costuma-se identificar a medicina científica com uma certa idealização da prática la- boratorial. Assim, preconceitos, idiossincrasias, comportamentos faccio- sos e outras manifestações irracionais explicariam a resistência às inova- ções científicas introduzidas pela pesquisa médica experimental.

A versão mais freqüente é a que identifica como única orientação cien- tífica legítima aquela provinda da prática experimental do laboratório, subsidiada pela clínica, o que levou muitos historiadores a avaliar as resis- tências às hipóteses parasitárias como resistência à própria ciência, seus métodos e seus valores (Warner 1985a). De acordo com esse esquema tra- dicional costuma-se identificar as diferentes práticas científicas como su- bordinadas a um conjunto de regras metodológicas gerais que a todas con- formaria. Nesse caso, as etapas de formação de um novo objeto científico se tornam completamente «lógicas» e o diálogo entre as hipóteses e a ex- periências, simples e luminoso. Recentemente, diversos estudos têm con- tribuído para reavaliar a concepção monolítica de ciência que informaria a construção dessa imagem. «Ciência» significaria diferentes coisas para diferentes grupos praticantes da medicina acadêmica ao longo de todo o século XIX(Warner 1985a; Lawrence 1985; Pickstone 1993).

Para questionarmos esta falsa imagem é preciso que abandonemos a categoria de «ciência» com tudo o que ela veicula de reificação e nos refi- ramos, antes, a campos disciplinares comportando práticas sócio-cogniti- vas diferentes. Assim, o desenvolvimento do conhecimento não pode ser visto como um processo cumulativo, ditado por uma racionalidade e uma lógica imanentes. Pelo contrário, para entendermos os constrangimentos institucionais daquele debate é necessário salientar que ele não se restringia apenas à mudança na explicação aceita sobre a causalidade daquelas doen- ças. De fato, as pesquisas em helmintologia médica valorizavam uma nova linguagem observacional comportando regras metodológicas específicas e uma trama conceitual estranha, muitas vezes contrastante com os fatos estabelecidos pela tradição clínica ortodoxa (Edler 2003).

Ao invés de tomarmos o desenvolvimento das teorias parasitárias das doenças como algo natural e não problemático no avanço do conheci- mento científico, devemos nos interrogar: como as proposições científi-

cas formuladas pelos adeptos das hipóteses parasitárias da hipoemia, da

hematoquiluria e da elefantíase dos árabes, tão estranhas à tradição médica

institucionalizada, tornaram-se epistemologicamente verdadeiras? Isto é, como sua legitimidade foi agenciada na coletividade médica da época? Dado a inexistência de um tribunal universal, apresentaremos um esboço das três arenas ou sistemas de autoridade científica (a tradição anatomo- clínica representada pela Academia Imperial de Medicina e dois campos disciplinares emergentes a partir de 1860: a Geografia Médica e a Parasi- tologia Médica) que ao reivindicarem para si o monopólio do processo de certificação e arbitragem das crenças médicas vigentes, tiveram uma interferência direta nos rumos daquela controvérsia.