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THE CASE OF BERGEN MUNICIPALITY

5. METHODOLOGY

5.2 THE CASE OF BERGEN MUNICIPALITY

A aguardente era usada de formas variadas nas mais diversas situações. Para sarampo e varíola também se lançava mão da bebida destilada. De acordo com Lycurgo Santos Filho, um importante historiador da medicina brasileira, entre os séculos XVIao XXa aguardente será utilizada para mini-

mizar os problemas advindos da varíola e do sarampo, em conjunto com uma série de outros procedimentos (Santos Filho 1991). No caso da varíola físicos (nome dado aos médicos) e cirurgiões – dentro dos pressupostos da medicina dos humores baseada em Hipócrates e Galeno – utilizavam pur- gas, sangrias e clisteres até o momento da rebentação das pústulas. A seguir aguardente ou vinho, além das águas rosadas, acompanhadas ou não da unção das pústulas e crostas com vinagre, azeite e óleos. Não é preciso in- formar que nenhum desses métodos era efetivamente capaz de conter o avanço da varíola e sarampo, logo era necessário que o medicamento fosse ministrado com muita fé (Santos Filhos 1991, 162).

Maculo:

Outro mal que acometia a população brasileira nos séculos passados foi o maculo. Provavelmente o Mal-del-culo, que por contração originou a palavra maculo. Conhecido também como «doença-do-bicho», «cor- rupção» ou «doença mortífera». Esta doença atingia de forma indiscrimi- nada negros e brancos, e acredita-se que foi originada e trazida do conti- nente africano. A descrição dos sintomas da doença não são nada agradáveis. Inicialmente os sintomas assemelham-se a uma crise de he-

morroidas, mas logo logo se percebe a gravidade do caso. Os sintomas são muito mais persistentes e ampliados, não recuam com os tratamentos convencionais das hemorroidas (que também incluem o uso da aguar- dente) e levam à morte.

Gomes Ferreira descreve a corrupção de bichos da seguinte forma: «uma largueza e relaxação do intestino reto e seus músculos» (Santos Filho 1991, 195). Suas causas eram atribuídas à falta de asseio conjugada com o calor tropical.

Segundo Piso, citado em Santos Filho (1991, 195), a profilaxia do ma- culo envolvia o asseio corporal e lavagem do anus com água do mar fria ou morna e com suco de limão. Entre uma ou outra receita, com diversas variações, encontramos novamente a aguardente. Após as lavagens suge- ria-se a utilização dos saca-trapos, à época famosos. Os saca-trapos con- sistiam em espécies de supositórios, mas com ingredientes muito distan- tes dos utilizados nos dias atuais e provavelmente com dimensões muita mais ampliadas. Um desses saca-trapos – ou bolos, como eram também chamados – tinham na sua composição: limão, fumo, sal, pedra-ume, salitre, pimenta, pólvora e aguardente.

Há variações para o mesmo medicamento, como o citado por Ro- dolfo Garcia, em «Notas» nos «Diálogos das Grandezas do Brasil». Se- gundo este texto, o saca-trapo era preparado com «apózemas de limão com pimenta que lhes despejavam no reto por meio de cuias ou saca- trapos feitos de pano, fios ou algodão, embebidos em limão, e a que jun- tavam pimenta, aguardente e pólvora». (Santos Filho 1991, 195). Des- confortos à parte, pode-se observar novamente a presença da aguardente nesta mistura, no mínimo, «quente».

A aguardente entra mais uma vez em cena confirmando que era con- siderada uma panaceia universal para tratar diversos problemas que afli- giam a população que habitava o Brasil até os séculos XVIIIe XIX.

Os problemas advindos do uso excessivo da aguardente

Os excessos da bebida aguardente podem fazer mal à saúde e um dos problemas mais frequentes aos que cometiam esse excesso são as chama- das obstruções do fígado que, em muitos casos, podem levar a morte.

Luís Gomes Ferreira, que ao longo de diversos trechos do seu tratado

Erário Mineral defendeu o uso medicinal da aguardente, faz reservas com

toda a gravidade para aqueles que se entregam, sem regras e sem mode- ração, ao consumo da aguardente. Neste ponto há que se destacar que a aguardente fazia parte da alimentação dos escravos em todo o trânsito

atlântico, logo não deve ter sido uma tarefa fácil para o cirurgião fazer afirmações tão enfáticas com relação ao uso continuado e excessivo de aguardente. São comuns os relatos da utilização em excesso da aguar- dente entre escravos, entre negociantes de escravos e nos mercados de escravos e navios negreiros (Rodrigues 2005, 277). Tratava-se, na realidade, de um costume não apenas comum como também generalizado. Rodri- gues, em pesquisa sobre o trânsito de escravos e negociantes no Atlântico, refere-se à diversas passagens onde a aguardente era utilizada em excesso e com regularidade entre todos aqueles envolvidos com o tráfico. Para citarmos dois exemplos escolhemos um relativo ao século XVIIIe outro

ao século XIX.

Um autor do século XVIII, Falconbridge, em sua obra de 1788, «infor-

mava que os capitães negreiros iam à terra todas as noites para negociar com os mercadores negros, ocasiões em que muitos deles voltavam em- briagados e se esmeravam em espancar seus subordinados» (Rodrigues 2005, 113). Já os marinheiros, por sua vez, consumiam aguardente ou qualquer outra das chamadas «bebidas espirituosas». A preferência recaia pela aguardente produzida no Brasil.

Já no século XIX: «o brigue Comerciante, apreendido no rio Camarões,

no mesmo dia em que D Pedro I gritava às margens do Ipiranga, nego- ciava escravos em Molembo, e seu proprietário, ao reclamar indenização, foi claro ao afirmar que todos sabem da prática de irem diariamente desde a manhã até a noite a bordo dos navios fundeados naquele porto grande quantidade de mercadores negros, uns a negociarem, outros a beberem aguardente, para o que costuma conservar-se no convés dos navios uma pipa dela» (Rodrigues 2005, 113).

Os exemplos confirmam que se tratava de um hábito e prática bastante generalizados, logo o seu excesso não devia ser raro ou incomum, nem seria raros, consequentemente, os problemas de saúde decorrentes do abuso da bebida. A aguardente, bebida em excesso fazia mal não apenas à saúde. De acordo com Gomes Ferreira aqueles que abusam da bebida farão mal não apenas à vida e à saúde como também à bolsa. O resultado é pre- visível: «vendo morrer a tantos, a outros com o juízo perdido e a outros pobres logo tornam ao tal vicio, até que, ultimamente, perdem a vida, de- pois de ficarem pobres» (Furtado 2002, 297).

Em uma sociedade organizada para extrair da terra riquezas metálicas, especialmente o ouro, a morte pelo excesso da utilização da aguardente não é nada bom, especialmente se acompanhada da pobreza. O desejo dos homens que se aventuram na mineração ao longo do século XVIIIé

também buscam meios para conquistar a sua liberdade. Mas neste per- curso tudo pode ficar perdido caso os apelos da aguardente sejam mais fortes do que o controle dos homens à bebida. Gomes Ferreira, que afir- mava estar preocupado como próximo – «só Deus é verdadeira testemu- nha do meu zelo para com o próximo» (Furtado 2002, 185) – demonstra sua preocupação, mesmo correndo o risco, como ele próprio afirma, de para algumas pessoas suas afirmações relativas ao uso excessivo da aguar- dente e seus males parecerem uma «indecência».

Mas na verdade trata-se de uma negociação mais sutil. A aguardente foi utilizada como uma forma de negociação em diversos níveis. O ex- cesso não era desejado, mas a ausência provocava tumultos, estados de melancolia, depressão. Como viabilizar as diversas negociações culturais e econômicas da produção, comércio e consumo da aguardente já é uma outra história.

A vida social nas boticas e a ação das bebidas espirituosas