Conhecer as águas do país, classificá-las e identificar as suas proprie- dades terapêuticas foram os grandes objectivos dos cientistas e estudiosos das águas minerais no século XIXe início do século XX, reunindo assim
condições para que nas primeiras décadas desse século o uso tera pêutico das águas fosse fundamentado cientificamente e justificada a sua utiliza- ção em estabelecimentos balneares, regulados medicamente através de legislações, como aconteceu em Portugal a partir da legislação de 1919.4
Se no século XIXse pretendia fazer a demarcação dos usos populares
das águas e a afirmação de um campo da ciência no período que aqui apresento e analiso, assistimos no caso português à legitimação turística do termalismo, fundamentado nos princípios científicos do uso terapêu- tico das águas e dos elementos naturais envolventes (Quintela 2004). Esta posição não pode ser analisada dissociada de um projecto nacional de reconhecimento do território, na medida em que as águas minerais são reconhecidas como um recurso natural valioso a conhecer e explorar. Esta é assim também uma forma de conhecer os respectivos territórios nacionais de modo a dá-los a ver, objectivos tão prementes no início das primeiras décadas do século XXcom o propósito de desenvolver, por um
lado, o turismo e, por outro lado, promover a formação de identidades
4Em 1919 é publicado em Portugal um decreto em que são estabelecidas as bases
para o funcionamento de um curso de hidrologia e climatologia, bem como a obrigato- riedade da existência de uma direcção clínica nos estabelecimentos termais (Contreiras 1937, 31). Estes cursos funcionariam nos Institutos de Hidrologia de Lisboa, Porto e Coimbra e tinham a dupla função de divulgar as qualidades terapêuticas das águas e o turismo das respectivas estâncias, como os artigos publicados na revista Clínica, Higiene e Hidrologia tão bem ilustram. Neste periódico médico são publicados, simultaneamente com artigos de natureza científica, alguns anúncios de divulgação de estâncias termais portuguesas.
locais e regionais de modo a marcar a diversidade regional face a uma unidade nacional. Estes empreendimentos enquadravam-se na política do Estado Novo (Leal 2000; Sobral 2003), à semelhança do que se pas- sava noutros países europeus, designadamente a França do «regime de Vichy» (Faure 1989). Vichy, enquanto estação termal, servia de modelo de referência à construção de outras «paisagens termais» (Jennings 2006). Vichy é a «metrópole da terapêutica termal» (Narciso 1935b, 25) o mo - delo que Armando Narciso indica para as termas portuguesas e que está presente em vários dos seus textos (Narciso 1944a; 1945a)
Fazer a «propaganda turística» das termas e da respectiva região era uma das funções atribuídas aos seus médicos directores pela legislação de 1919 relativa à actividade termal. A «propaganda turística» desempe nhou um papel preponderante como um canal de divulgação da política do Es- tado Novo, inclusive no âmbito das publicações do Secretariado de Pro- paganda Nacional de cariz turístico, onde as termas eram frequentemente referidas (Alves 1997). O turismo era apresentado por estes organismos como uma indústria recente e, como tal, eram indicadas as várias maté- rias-primas que o constituíam, sendo as águas minerais uma delas. Preten- dia-se apresentar Portugal, também, como um país termal não só ao «cu- rista», ao «aquista», ao «doente», mas também ao turista. Mas como fazê-lo? O primeiro argumento residia na necessidade de conhecer e es- tudar cientificamente as águas minerais, os ares e os lugares através das disciplinas de hidrologia e climatologia médicas, como o título da revista editada por Armando Narciso indica. Este periódico médico dava assim a conhecer as descobertas que se faziam neste campo noutros centros de conhecimento europeu, como era o caso de França e Alemanha, designa- damente através da secção Notas de Viagem (Narciso 1941).
Era, assim, imprescindível reconhecer o território nacional através de projectos de investigação que se difundissem aos alunos de medicina para que posteriormente também eles os divulgassem. Neste âmbito, o «doutrinador» organizou e realizou excursões «científicas» anuais a termas portuguesas para alunos do 4.º ano de medicina e do Instituto de Hidro- logia de Lisboa, que tinham como objectivo completar os conhe cimentos dos alunos da disciplina de terapêutica termal do Instituto de Hidrologia, justificando desta forma esses empreendimentos:
Outro beneficio destas excursões é o da propaganda das próprias estân- cias, feita pelos jornais noticiosos e pelas revistas da especialidade e é esta a razão do presente número E esta propaganda é a melhor e mais proveitosa, porque ela tem bases científicas, o que no geral tem faltado à propaganda
das nossas termas e estâncias climáticas, que tem sido reclamadas mais como estancia de turismo, de que como estancias de cura (Pamplona 1935).5
Se por um lado reconhecer o território nacional fazia parte de um projecto turístico de dar a ver o país, tal como é feito na revista Panorama, para Armando Narciso esse projecto não poderia ser dissociado do in- vestimento e desenvolvimento do ensino da disciplina de hidrologia mé- dica, uma vez que os médicos – particularmente os directores clínicos das termas – seriam, simultaneamente, o melhor canal de «propaganda científica» e de «propaganda turística».
Este projecto de conhecer o país e as suas águas inseria-se num pro- grama mais lato de reconhecimento do potencial geológico e terapêutico existente que tornava Portugal comparável – colocando-o em situação de paridade (tanto na qualidade como na diversidade) – a qualquer outro país termal europeu, Nesta comparação destacava países como a França e a Alemanha, elogiando particularmente o modelo francês. São várias as publicações em que Armando Narciso lamenta e aponta a falta de «in- teresse» dos governantes sobre os assuntos relativos às águas minerais e estâncias termais, justificando esta atitude pela «ignorância» dos mesmos sobre o património termal (Narciso 1935b; 1940a; 1944a; 1945b). Deste modo, é patente a comparação que faz entre as águas «estrangeiras» e portuguesas, estabelecendo uma relação de equivalência, cada água por- tuguesa tinha uma congénere, «a sua irmã gémea», habitualmente fran - cesa ou alemã (são exemplos: Luso/Evian; Gerês/Carlsbad; Vida - go/Vichy; S. Pedro do Sul/Amélie-les-Bains; Caldas da Rainha/Greoux; Furnas/Aix la Chapelle; Curia/Contrexeville)
Aliás, a diversidade de águas minerais portuguesas e a respectiva espe- cialização das termas foi apresentada na Exposição Mundial de Sevilha em 1929 por Pereira Forjaz. Nesta exposição, Portugal foi apresentado como um mapa corporal e termal intitulado «Para cada doença, Portugal tem a sua cura de águas» (Forjaz 1929, 17), reproduzindo o discurso de produção de uma identidade nacional constituída pela diversidade (figura 6.1).
Assim, o país é apresentado como um corpo e os seus órgãos corres - pondem a uma água mineral e uma estância particular especializada no tratamento de cada doença, de que são exemplo para o «reumatismo e a gota: Monção, Arsenal, Caldas da Rainha, São Pedro do Sul», para «doen-
5Sobre a tensão existente entre a medicina e o turismo, e a cura e o lazer no processo
de formação do termalismo português e de uma estância termal particular, v. Quintela (1999).
ças do fígado: Gerez, Rádio, Felgueira»; para «doenças dos intestinos: Vi- dago, Pedras Salgadas, Felgueira» (Forjaz 1929, 17). Demonstrar que há uma especialização das águas e das estâncias que justificam o carácter científico do seu estudo e a necessidade dos médicos dele terem conhe- cimento é uma das bandeiras doutrinárias de Armando Narciso. O des- conhecimento e ignorância da «riqueza termal» só poderia então ser ul- trapassado através do ensino da hidrologia médica a um dos canais privilegiados da «propaganda científica» – os médicos.