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8) Conclusion

As teorias narrativas que classificamos como tradicionais derivam então da dicotomia entre história e discurso. Ou seja, da distinção entre os elementos que constituem uma história e a forma como esta é narrada. Aristóteles, ao analisar a Odisseia de Homero, assinala a assincronia entre a cronologia da história e a sua ordenação na narrativa, fazendo notar que esta obra começa in media res. O Livro I da Odisseia inicia-se com Ulisses desaparecido há dez anos, enquanto o jovem Telémaco tenta afastar os muitos pretendentes da sua mãe e a deusa Atena procura a clemência de Zeus para o infortunado Ulisses. O início in media res da

Odisseia enforma a narrativa segundo um conjunto de efeitos predeterminados, que toma a

ordem cronológica das ações e eventos na fábula como matéria prima, mas submete-os a uma ordenação distinta. Para o filósofo grego, o enredo é precisamente a categoria unificadora da narrativa que, ao contrário da personagem, organiza eventos e ações segundo a lógica da causalidade, dando forma à tragédia e à epopeia:

Se houver uma só personagem, isso não implica, como pensam alguns, unidade de enredo. Com efeito, numa só pessoa concentra-se uma infinidade de acontecimentos, alguns dos quais não se podem reduzir a uma unidade; e também há muitas acções de uma só pessoa com as quais não se forma uma acção única. (Aristóteles, 2008, p. 52)

Ao analisar os modelos narrativos da tragédia à luz da unidade da ação, Aristóteles vai distinguir entre enredos simples e complexos. Os primeiros imitariam ações simples e coerentes, como os enredos por episódios, enquanto os segundos imitariam ações complexas,

que recorrem à peripécia e ao reconhecimento — a mudança de fortuna através de determinado acontecimento transformador e a passagem da ignorância ao conhecimento. A narrativa representada na Odisseia não é um produto das vicissitudes e desventuras de Ulisses, mas da forma como estas são organizadas em um ou mais enredos. A existência de um modelo organizacional e hierarquizado de eventos e ações, assente na causalidade, é assim central a quase todas as teorias narrativas desde a Poética de Aristóteles

A análise formal e estrutural de narrativas recuperou este binómio patente nas teorias Aristotélicas, sistematizando-o na distinção teórica entre conteúdo e forma. Esta dicotomia deu origem a um conjunto de termos homólogos, que pretendem refletir o nível do significado e do significante numa narrativa. Vladimir Propp em Morfologia do Conto (2003) distingue entre fábula — o plano da história — e intriga — o plano do discurso. Dependendo da tradição teórica, a intriga pode ser apelidada de plot, enredo ou discurso narrativo e a fábula pode ser designada como história ou diegese. Ainda que estes termos possam ser considerados homólogos, possuindo afinidades evidentes, podem também adquirir qualidades e significados autónomos em diferentes tradições teóricas. A fábula remete para o plano do conteúdo, os elementos que constituem a história. A intriga pelo contrário, refere-se à forma, classificação, apresentação e hierarquização de elementos da história segundo a sua funcionalidade narrativa A fábula corresponde à história, organizada cronologicamente, enquanto a intriga assenta nas formas de expressão da história segundo os modelos organizacionais da narrativa.

A proposta de Vladimir Propp, que pode legitimamente ser considerada precursora da moderna utilização deste binómio, passa então pela distinção entre a matéria que constitui a história e o modo como esta é organizada sob a forma de narrativa, bem como o modo como estes dois planos se articulam num texto. É neste sentido que Propp identifica um conjunto de esferas de ação e funções, ou tipos de ações, que lhe permitirá inferir personagens e ações padronizadas que sejam comuns a todo o seu corpus de análise. Esta centralidade da narração enquanto processo lógico-formal assume uma enorme importância em todas as subsequentes investigações narratológicas, mesmo entre aquelas que contestam ou refutam a validade e amplitude das funções de Propp.

A narratologia tomou como objeto preferencial de estudo a intriga e não a fábula, tendo em conta que a hierarquização de ações e eventos ou a sua ordenação só podem ser inferidas a partir da sua expressão no discurso. A fábula funciona então como “um conjunto de inferências” (Bordwell, 1992, p.57), reconstruída com base na sua discursivização. Seymour Chatman (1978) resume esta dependência da fábula em relação ao discurso afirmando que “os eventos da história são transformados em plot pelo seu discurso, o modo de apresentação”(p.43). A abordagem tradicional da narratologia convidou a uma análise da fábula assente na sua funcionalidade no discurso do texto, conduzindo à identificação das

unidades nucleares da história através da sua organização em sintagmas narrativos ou, no caso dos cognitivistas, em schemas.

A articulação entre história e discurso é frequentemente colocada em torno de parâmetros como a lógica narrativa e a ordem temporal. A lógica narrativa remete para o modelo de organização sequencial de ações e eventos. Propp sugerira a divisão do conto em 31 unidades básicas, apelidadas de funções, que pretendem designar ações determinantes na construção narrativa do conto. Ainda que um conto as possa suprimir parcialmente, Vladimir Propp considera que as funções que o constituem são invariavelmente ordenadas de forma linear e sequencial. Os estruturalistas vão contestar a rigidez deste modelo organizacional, sugerindo uma ordenação lógica e estrutural, assente em oposições. Claude Bremond (1973) e Tzvetan Todorov (1993) propõem que a articulação destas funções obedeça a uma ordem lógica, que organize as ações em enredos e sequências. A lógica narrativa implica assim a ordenação morfológica dos elementos nucleares da história em sequências que refletem o desenrolar de um determinado processo, da situação inicial ao desfecho, submetendo as ações da história a uma estruturação lógica.

A exposição das discrepâncias temporais entre o plano da história e as modalidades da sua representação sob a forma de discurso foram analisadas exaustivamente por Gérard Genétte (1995). A propósito de Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust, este autor identifica e classifica as várias modalidades do que classifica como assincronias entre a história e o discurso. Para além da ordem, em que se incluem as prolepses, as analepses, e a própria suspensão do tempo, Genette assinala também a frequência e a duração como marcas do desfasamento entre os eventos da história e a sua narração. A primeira refere-se à diferença entre a frequência da ocorrência de um ou vários eventos e a frequência da sua narração. O mesmo evento pode ser representado singular ou repetidamente e uma série de eventos pode ser coligida iterativamente na narração ou preservada a sua multiplicidade. A segunda também decorre da distinção entre o tempo da história e do discurso, mas reflecte a diferença entre a duração dos eventos na história e a sua narração. Um período relativamente longo de tempo pode ser sintetizado numa curta frase e um momento fugaz pode estender-se por várias páginas.

A dicotomia história e discurso é sobretudo operatória, e não permite designar dois planos ontologicamente distintos, mas antes duas dimensões que, apesar de poderem ser metodologicamente discerníveis, são indissociáveis. O ato de narração pressupõe, necessariamente, a existência de um conteúdo narrado. E, por sua vez, o conteúdo só pode ser acedido ou atualizado através da sua expressão num discurso. Trata-se então de uma distinção instrumental, que pretende isolar os dois planos que habitam uma estrutura narrativa: o plano narrativo e o plano da expressão.

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