Para entendermos as concepções administrativas, explicaremos, inicialmente, o sentido do termo administração com base teórica em alguns estudiosos do assunto. Giancaterino (2010) esclarece a origem latina do termo administração, que surge dos vocábulos ‗adque‟, que significa direção, e ‗minister‟, que quer dizer subordinação. Da união dos termos, deriva a palavra ‗administratione‟ que, em português, significa administração. Os termos que compõem a palavra administração expressam a relação de subordinação existente na ação de administrar.
Lombardi (2010, p. 23) explicita que ―A palavra ‗administrar‘, no seu sentido etimológico, vem do latim ‗administrare‘, que expressa o ato de gerir, de governar, de dirigir
negócios públicos ou privados [...] se entende por ‗administração‘ (do latim
‗administratione‟) a própria ação de administrar.‖ (Grifos do autor).
A partir do enunciado do autor, temos o entendimento de que administrar significa comandar ou liderar pessoas na realização de atividades que devem ser exercidas; portanto, pessoas que atendem à ―voz de comando‖ em um determinado processo produtivo que exige a realização do trabalho de forma racional, com eficiência e eficácia. Isso requer que a organização do trabalho seja planejada cuidadosamente e controlada pelo administrador.
Robbins (2000) afirma que, no sistema de produção fabril, os administradores exerciam uma função de destaque, pois sobre eles recaíam as exigências de encontrarem meios de suprir as deficiências e lacunas do processo de produção e, ainda, de representarem o dono da fábrica, quando este se ausentava fisicamente do local de trabalho.
As ações de planejar, operacionalizar e controlar a produção eram atribuições dos administradores, enquanto ―representantes‖ dos interesses dos proprietários, do que podemos inferir que eram tidos como intermediadores entre o capital e o trabalho no sistema fabril. Entretanto, enfatiza o autor que, desde então, para a empresa ou outra organização obter sucesso que signifique maior lucro, o administrador precisa ser um sujeito empreendedor, o
que requer o exercício das suas habilidades e competências como atribuições necessárias ao modo de produção do sistema capitalista.
Na fábrica, o administrador era o gerente dessa comercialização, assumia a chefia e gerenciava as atividades, representando a figura do ―dono da fábrica‖, e sua maior missão era comandar a produção de tal modo que gerasse mais riqueza para o patrão, o que significa que havia uma classe de trabalhadores subordinados e explorados.
Sobre a origem do termo gerenciar, diz Braverman (1987, p.68) que ―O verbo
tomonage (administrar, gerenciar), vem de manus, do latim que significa mão. Antigamente, significava adestrar um cavalo nas suas andaduras, para fazê-lo praticar o manège.‖
O autor, ao detalhar esse significado, estabelece comparação entre um cavaleiro que utiliza rédeas, bridão, esporas, cenoura, chicote, num processo de adestramento de um animal, para impor-lhe sua vontade desde o nascimento, e um capitalista, que se empenha pela gerência (‗management‟), num processo de controle do trabalhador para produzir o excedente. Assim sendo, o administrador ou gerente assumia o poder central de comando dos seus subordinados e estabelecia o ―elo‖ entre o dono da fábrica e a produção realizada pelos trabalhadores. Sobre esse aspecto, podemos inferir que essa lógica vem, gradativamente, ultrapassando o piso da fábrica, expandindo-se de maneira a se estabelecer nas instituições sociais, como as universidades. Por ser inerente ao sistema capitalista, entendemos que essa concepção se ramifica de forma a expressar a presença desse modo de produção marcado pelo acúmulo de mercadoria.
O termo administração passou a ser utilizado fortemente com a ascensão industrial, tornando-se inerente ao modelo de organização fabril, no percurso do seu desenvolvimento histórico. Nas últimas décadas, com a luta dos movimentos sociais, vem sendo substituído pela expressão gestão. Um luta que, desde a década de 1970, no Brasil, vem se consolidando pelos sindicatos de professores e movimentos estudantis que reivindicavam e, ainda hoje, continuam lutando por espaços de debates, proposições, enfim, de participação nas decisões da gestão.
Devido às mudanças contextuais, o termo gestão passa a vigorar, principalmente, a partir das últimas décadas do século XX e início do século XXI. Os movimentos sociais em luta, nas décadas anteriores aos anos de 1990, reivindicaram um modelo de administração que permitisse participação e autonomia. Porém, com o advento da lógica neoliberal, outras qualidades foram atribuídas ao gestor, como o comando e controle.
Em meio a essa definição, de acordo com Gohn (2010), no universo de conceitos relacionados ao termo gestão, aparece, entre outras, a formulação do conselho gestor21, que
também é uma bandeira dos movimentos sociais para que sejam institucionalizados como um mecanismo de participação e decisão colegiada, pois sua existência remonta a décadas anteriores, inclusive em algumas universidades, mas com características de atrelamento aos gestores e não à comunidade.
Sander (2007, p. 9) explica que ―[...] os termos administração e gestão têm sido utilizados com diferentes significados, refletindo distintas influências políticas e pedagógicas, teóricas e práticas, ao longo da história da educação brasileira.‖
De acordo com Groppo (2006), o termo gestão é derivado do latim „gestio‟, que
significa ‗ação de dirigir‘; portanto, não perde a essência também estabelecida para
administração. Paro (2008), discutindo a questão no âmbito da educação, afirma que há um entendimento de que gestão seria um termo mais amplo e aberto que administração, uma vez que este segundo estaria impregnado da conotação técnica de décadas anteriores. Acrescenta ainda que a gestão democrática implica participação e autonomia, que também são aspectos importantes nos espaços educacionais.
Gohn (2010), ao problematizar o tema da participação nas instituições sociais da atualidade, enfatiza que ela não existe de forma efetiva ou tem papel apenas coadjuvante, no sentido de meramente ―auxiliar‖ a gestão, ou melhor, o gestor, uma vez que o poder político lança um ―olhar‖ para os dirigentes, que a autora denomina, também, de ―governantes de plantão‖, enquanto a sociedade exerce a atribuição de movimentar a relação consumista e clientelística no mercado capitalista.
Para a autora, juntamente com a expressão gestão democrática e participativa, vem o tema da autonomia; porém, é uma autonomia controlada, em que o governo institucional cede às suas vontades e desejos em função do governo central, uma autonomia centrada nos agentes privados e não nos estatais, portanto, não na sociedade, mas no mercado.
Vale ressaltar, de acordo com Paro (2008), que a democracia, com participação e autonomia nas decisões em espaços colegiados de deliberações, e ainda, a eleição dos gestores pela instituição, que atualmente estão presentes nas regulações neoliberais, inicialmente eram bandeiras de luta dos movimentos sociais e não do interesse dos neoliberais.
21 Para Gohn (2010), o conceito de conselho gestor aparece relacionado a outros, como governo local, poder local,
Compreendemos, anteriormente, a partir das abordagens dos autores referenciados, que a luta deve fortalecer, na universidade, a concretização de uma gestão democrática, com participação e autonomia como elementos fundantes para desenvolver uma instituição de caráter social e não mercadológico, contrapondo-se às ideologias neoliberais. Nessa direção, continuam cobrando dos governantes espaços privilegiados para o debate, para discussões em torno dos pontos e contrapontos relativos à concepção da universidade que se quer fortalecer.
Importante estarmos atentos para as distorções que a política neoliberal vem criando, a exemplo das legislações (as quais detalharemos no terceiro capítulo) que regulamentam a organização das instituições sociais e nas quais o termo gestão aparece juntamente com participação e autonomia, mas como formas de desobrigar o Estado de suas responsabilidades, uma vez que atribui àquelas as competências necessárias para alcançar os seus objetivos.
Desse modo, em algumas situações, o termo participação se confunde com produzir mais. Isso ocorre na relação contextual, na qual a gestão serve para organizar a forma de produção, seja numa dada empresa seja numa instituição universitária. Braverman (1987) alerta para esse aspecto ao mencionar que, no modo de produção capitalista, a atenção se volta para o sujeito produtivo, e produzir significa gerar mais lucro. Daí ser quase recorrente encontrarmos chamamentos como ―participe de sua escola‖, ―seja um verdadeiro trabalhador da educação‖, dentre outros.
A seguir, discutiremos o desenvolvimento da administração, considerando o modelo de organização social no contexto capitalista.