O perfil do mercado cinematográfico de qualquer país encontra-se atrelado à formatação do circuito exibidor. É esse elo da indústria do cinema que determinará o espaço disponível para a circulação de filmes na primeira – e também mais concorrida – janela de exibição. No Brasil, a reestruturação na área de exibição acontece de forma paralela ao período da retomada, refletindo tendências mundiais de modernização do setor. As salas de cinema começam a desaparecer das ruas a partir dos anos 1980, sendo substituídas por espaços menores nos shopping centers que passavam por um momento de expansão pelas principais cidades do país. Um processo de substituição que começa tímido e com certo grau de precariedade, como avalia Luiz Gonzaga de Luca:
Eram conjuntos com duas ou, no máximo, três telas, construídos em locais inadequados para a arquitetura de um bom cinema. Raramente tinham mais do que duzentos lugares; o pé direito era baixo (em média seis metros de altura), o que fazia com que as telas não superassem a largura de oito metros. Ademais, não se configuravam enquanto um conjunto integrado, não tendo salas de espera e banheiros destinados a cada cinema. (...) Os projetores utilizados eram comprados no mercado de segunda mão e encontrava-se em condições precárias, já que as peças de reposição eram improvisadas. (DE LUCA, 2009, p. 59-60).
As transformações mais significativas no parque exibidor brasileiro estão atreladas a investimentos realizados com capital estrangeiro, em sintonia com os interesses da indústria cinematográfica norte-americana em aumentar a receita obtida no mercado internacional com os filmes de Hollywood. Unindo investidores interessados em explorar o mercado de exibição a um cenário econômico favorável no país – época dos primeiros anos do Plano Real –, inicia- se a implantação dos multiplex no Brasil. Entre 1997, quando a Cinemark instalou o primeiro multiplex em São José dos Campos, até 2001, foram abertas mais de 600 salas no país, somando investimentos de US$ 240 milhões – apenas US$ 30 milhões aplicados por grupos nacionais. (ALMEIDA e BUTCHER, 2003).
Em 2009, a Ancine identificou a existência de 2.110 salas de cinema instaladas no país. O crescimento do parque exibidor pode ser observado no gráfico a seguir.
Gráfico 1: Evolução das salas de cinema no Brasil: 1971 – 2009
0 500 1.000 1.500 2.000 2.500 3.000 3.500 1971 1973 1975 1977 1979 1981 1983 1985 1987 1989 1991 1993 1995 1997 1999 2001 2003 2005 2007 2009 Fonte: Ancine
A configuração de um novo modelo de sala de cinema também mostra efeitos no público. Percebe-se, com o fim dos cinemas de rua e sua transferência para os shoppings centers, um movimento de elitização do público. O preço médio do ingresso, que em 1980 era de US$ 0,70, custava, em 1998, US$ 4,37. (GATTI, 2007). Ao disponibilizar um espaço no
qual o filme, em si, não é mais a única opção de entretenimento, começa-se a se desenvolver uma relação diferenciada entre espectador e o ambiente de exibição.
Antes do multiplex, o único atrativo do espectador era o próprio filme. Depois dele passou a ser, sobretudo, o próprio espaço. Como há sempre uma sessão começando num curto intervalo de tempo, muitas vezes o espectador decide a que filme vai assistir ali mesmo, no local de exibição. Algo impensável alguns anos atrás. (ALMEIDA e BUTCHER, 2003, p. 65-66).
Em 2009, segundo a Ancine, 27,77% do total de salas de cinema estavam localizadas em municípios com população entre 100.001 e 500.000 pessoas e 61,04% em cidades com mais de meio milhão de habitantes. Com a média de uma sala para cada 83 mil habitantes, o país ocupa a 60ª posição no ranking mundial.
Gráfico 2: A distribuição das salas de cinema no Brasil
Fonte: Ancine
As transformações na rede de exibição foram acompanhadas por mudanças na relação entre o espectador e o cinema. O deslocamento das salas para os shoppings centers e o aumento gradativo no preço do ingresso acabaram por influenciar no tipo de público que consome os filmes nesse circuito. De acordo com levantamento apresentado em 2010 pelo
Ministério da Cultura, o perfil do espectador de cinema está diretamente ligado à condição sócio-econômica e à faixa etária: a porcentagem da frequência ao cinema é maior entre aquelas faixas da população mais jovens e com maior grau de escolaridade.
Gráfico 3: Cinema: Frequência por faixa etária no Brasil (%)
0 5 10 15 20 25 12 a 19 20 a 24 25 a 34 35 a 44 55 a 64 Fonte: Minc
Gráfico 4: Cinema: Frequência por escolaridade no Brasil (%)
1º Grau
Incompeto Completo2º Grau Pós-Graduação
0 5 10 15 20 25 30 35 40 45 Sem estudos 1º Grau Completo Superior Completo Fonte: Minc
Um status que a Ancine planeja rever com a criação do programa „Cinema Mais Perto de Você‟, lançado no dia 23 de junho de 2010. Executado pelo Ministério da Cultura em parceria com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social – BNDES, o programa tem como objetivo abrir 600 salas em regiões periféricas e em municípios de médio e pequeno porte, sobretudo na região Norte e Nordeste.
Mais que uma ampliação do circuito de exibição, a iniciativa pode ser encarada como uma medida de fomento de público para o cinema brasileiro. Aliado ao Fundo Setorial do
Audiovisual, o programa representa um incremento nas políticas públicas culturais voltadas ao segmento cinematográfico. Se, no primeiro momento após o desmantelamento da Embrafilme, CONCINE e FCB os esforços registrados preocuparam-se em garantir o ritmo de produção, percebe-se, mais recentemente, o interesse do Estado em apoiar a cadeia do cinema de forma global.
Tal reconhecimento prático da importância das etapas de distribuição e exibição serem abarcadas pelo conjunto de políticas de apoio ao cinema brasileiro precisa ser entendido, ainda, como reflexo da trajetória qualitativa que vem sendo construída pelos filmes brasileiros na última década. O crescimento no número de filmes brasileiros que conseguem, nesse tempo, construir resultados satisfatórios no mercado interno de salas, aumentando a visibilidade do cinema brasileiro no competitivo cenário de exibição, apresenta-se como ponto de partida para a compreensão das configurações contemporâneas da atividade cinematográfica no país.
4 HEGEMONIAS E ASSIMETRIAS NO CINEMA BRASILEIRO