Carvalho e Pinto (2008) apresentam um ponto de vista esclarecedor e constatam que, em 1889, com o novo regime de governo, ganhou força uma uma ideia de modernização do Brasil com base no sistema filosófico de Augusto Comte: “ordem e progresso”. O positivismo propõe valores humanos, não é pois de estranhar a emergência de preocupações sanitárias conducentes a uma melhoria da saúde individual e coletiva e, por consequência, uma modernização do País.
Não era uma posição casual. O mundo, no final daquele século, tinha protagonistas da medicina como Louis Pasteur e Robert Koch que estabeleciam uma revolução da medicina com o conhecimento dos micróbios e cuidados com a saúde pública, envolvendo diagnósticos como o cólera, a tuberculose, a malária, a febre tifoide e outras doenças causadas por microrganismos.
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Nesse mesmo trabalho, Benchimol (2010) afirma que discussão sobre a nova teoria das doenças veio a se consolidar na última década do século XIX e a primeira do período republicano. Segundo o mesmo autor, foi marcada por diversos conflitos que envolveram o diagnóstico, a profilaxia e o tratamento de doenças que se propagavam nos centros urbanos do Sudeste. Estes eram também convulsionados pelo colapso da escravidão, a enxurrada imigratória, as turbulências políticas que decorreram da proclamação da República e as turbulências que ocorreram a nivel econômico associadas à crise do café e à nossa revolução industrial „retardatária‟. Naqueles anos, despontou uma nova geração de médicos com conhecimento mais seguro das teorias e técnicas microbiológicas. No estado de São Paulo, foi criado o Instituto Bacteriológico (1892), sendo a sua direção entregue a Adolpho Lutz, que tinha grande experiência nas disciplinas da nova era da medicina e da saúde pública: bacteriologia, imunologia, helmintologia (vermes), entomologia (insetos transmissores de doenças) e outros ramos da zoologia médica.
Diogo (2012) clareia o entendimento, quando diz que no início do Brasil República, o Brasil foi comandado pelas oligarquias. As oligarquias eram ricas à custa da produção de café, sendo parte dos lucros obtidos aplicado nas cidades, o que conduziu ao crescimento urbano. Apesar disso, as oligarquias da Republica Velha procuraram o apoio da ciência para examinar os ambientes em termos físicos e sociais das populações urbanas. Assim, começam as fortes intervenções higienista, em especial em São Paulo, uma das mais ricas oligarquias, que decidiu destinar grandes verbas para a área da saúde publica; até hoje, foram as maiores quantias investidas na saúde, em relação ao total de recursos anuais aplicados por um estado brasileiro. Seguindo-se a todo esse investimento, as fiscalizações tornaram-se muito mais rígidas e tornou-se obrigatório a notificação oficial de todos os casos de doenças infecto-contagiosas. Ademais, as autoridades determinaram que somente médico com diploma pudia cuidar dos enfermos.
Galvão (cit. in Costa, 2014) confirma que essa mobilização de recursos, contra a epidemia da peste no Rio de Janeiro, fez impulsionar mudanças nas iniciativas do poder central em relação à Saúde Pública. Ficou clara a necessidade de uma organização sanitária que fosse além das práticas esboçadas no plano municipal e estadual, e que tivesse a competência de intervir a nível nacional. Nas primeiras discussões do Governo Provisório Republicano transpareciam os primeiros debates sobre a necessidade de
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estabelecer planos de saneamento para a cidade. No ano de 1889, um mês depois dos republicanos assumirem o poder, tomaram-se providências em relação ao Serviço da Polícia Sanitária e foram adotadas medidas com vista a impedir ou atenuar o desenvolvimento das epidemias em todo o território nacional. Determinadas doenças foram classificadas de notificação compulsória, e a vacinação obrigatória contra a varíola instituída para crianças até 6 meses de idade. A legislação de 1889, além de procurar apresentar uma abrangência, refletiu ainda a extrema dificuldade de operacionalizar práticas de Saúde Pública, em termos nacionais.
Logo no início do século XX, governo de Rodrigues Alves (1902-1906), um fato de extrema importância aconteceu para a história da saúde no Brasil: a nomeação do médico Oswaldo Cruz como Diretor do Departamento Federal de Saúde Pública. O Rio de Janeiro não tinha nenhum saneamento básico e, assim, várias doenças graves como a varíola, malária, febre amarela e peste espalhavam-se facilmente.
Indriunas (s.d.) descreve com perfeição o problema que culminou com um levante popular denominado de Revolta da Vacina - a obrigatoriedade de vacinação anti-variola num ambiente maculado com a invasão de casas e queima de roupas e colchões e que indignou a população, dos mais simples aos mais cultos, ficando conhecida, repita-se, como a Revolta da Vacina, cuja violência, falta de habilidade política e inexistência de comunicação foi ilustrada na novela “Lado a Lado”, escrita por Cláudia Lage e João Ximenes Braga, produzida pela Globo e, parcialmente rodada no Centro Histórico de São Luís do Maranhão, em 2013.
A ação de Oswaldo Cruz, apesar das arbitrariedades e da revolta popular, teve êxito e conseguiu erradicar, também, a febre amarela do Rio de Janeiro. Algumas ações foram incorporadas como pró-ativas para a política de saúde: o registro demográfico, possibilitando conhecer a composição e os fatos vitais de importância da população; a introdução de laboratórios como auxiliar do diagnóstico etiológico e a fabricação organizada de produtos profiláticos para uso em massa.
Nessa mesma obra, Polignano (2008) resume a continuação da política iniciada por Oswaldo Cruz, na pessoa do seu sucessor, Carlos Chagas. Em 1920, Carlos Chagas, sucessor de Oswaldo Cruz, reestruturou o Departamento Nacional de Saúde, então ligado ao Ministério da Justiça e introduziu a propaganda e a educação sanitária na técnica rotineira de ação, inovando o modelo campanhista de Oswaldo Cruz que era
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puramente fiscal e policial. Criaram-se órgãos especializados na luta contra a tuberculose, a lepra e as doenças venéreas. A assistência hospitalar, infantil e a higiene industrial se destacaram como problemas individualizados. Expandiram-se as atividades de saneamento para outros estados, além do Rio de Janeiro e criou-se a Escola de Enfermagem Anna Nery.
É necessário não esquecer que, na segunda década do sec. XX, ocorreu a Primeira Grande Guerra e o mundo todo sofreu as consequências econômicas do conflito, incluindo o Brasil. Como está no parágrafo anterior, as coisas mais importantes aconteceram a partir do ano 20 daquele século.
Merhy e Queiroz (1993) afirmam que no decorrer da década de 20, a corrente, médico-sanitária tornou-se predominante, organizando-se principalmente nos grandes centros urbanos, como Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte, Recife, entre outros. Dois núcleos foram especialmente ativos: o paulista, influenciado por Paula Souza e Borges Vieira (médicos sanitaristas), e o dos “jovens turcos”, sanitaristas com vinculo ao Departamento Nacional de Saúde Pública, no Rio de Janeiro, que defendiam a especialidade na carreira médica, na área de saúde pública, e o trabalho integral nas instituições estatais. Durante a década de 20, esses núcleos chegaram a organizar cinco congressos (os Congressos Brasileiros de Higiene), que foram de tal forma importantes no desenvolvimento da política de saúde no Brasil, que a sua presença foi marcante até para a reforma administrativa da década de 60/70, no interior da Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo.
Um fato interessante ocorreu em 1923: o marco inicial do Sistema Previdenciário do Brasil, com a Lei Elói Chaves que criava as CAPS (Caixas de aposentadorias e Pensões). As caixas, financiadas pelo poder público, empregados e empregadores, ofereciam medicina curativa, medicamentos, aposentadoria por tempo de serviço, invalidez e pensão para os dependentes. Esse modelo foi aproveitado na Era Vargas, conforme será visto adiante.
Chega-se a 1930 e, no último ano do governo Washington Luís, foi criado, em 14/11, o Ministério dos Negócios da Educação e Saúde Pública.
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