3 Chapter three – Black Widow
3.10 Conclusion
A ideia de traçar sobre uma imagem, com o intuito de a reter, de a fixar, de a reproduzir pela duplicação do decalque, encontra o seu modelo inspirador no mito primordial de Dibutades. Não por acaso, aquilo que é traçado, nesse mito, é um retrato; na verdade, parece existir no retratar uma reminiscência do retraçar; (pour)/(por)trait — retratar significa, em primeiro lugar, pôr por traços. E, não por acaso, a imagem retida é de um perfil; como se o perfil contivesse em si mesmo a presença mais marcante, a potência da figura, a concordância mais adequada do objecto retratado. Portanto, o perfil é, deste modo, também, o modelo que justamente se adequa ao primeiro dispositivo óptico de representação: um dispositivo (óptico) de sombras, de projecção, que promove o acto fundamental e inaugural da circunscrição; o acto que, pelo traço, produz a activação da imagem, de uma figura ainda em potência, em figura desenhada, ou seja, em coisa que refere, significa, simboliza.
Assim, o dispositivo óptico que incorpora o princípio da projecção, pressupõe, também, nesse acto fundamental de riscar uma imagem, o princípio da circunscrição. Um dos pilares da perspectiva ou do ponto de vista, subsumidos na ideia de projecção, são os raios projectantes, ou os raios visuais que, percorrendo os perfis e contornos dos objectos, desenham a sua circunscrição. Este raio visual actua, na verdade, como um instrumento riscador: ele aponta, toca no objecto, percorre-o, contorna-o como se este fosse um escantilhão ou molde, traduzindo essa acção em linha, traço, marca. Este aspecto apontador e táctil, representa uma das dimensões constitutivas dos dispositivos ópticos, mais evidentes nuns, que noutros. É precisamente essa dimensão particular que agora abordaremos, tomando o caso emblemático da representação por sombras, perfis e silhuetas enquanto episódio historicamente determinados na emergência dos dispositivos para traçar contornos.
A figura do rosto visto de lado que se inscreve na tipologia clássica das representações de moedas e medalhas romanas ou de certos retratos
111 renascentistas, nas quais a efígie de perfil era enquadrada numa pequena moldura redonda ou oval, foi um estilo retratístico específico que se começou a disseminar rapidamente, sobretudo em França, tornando-se num género muito em voga e muito popular a partir da segunda metade do séc. XVIII. Várias figuras, que se podem identificar com este espírito neoclassicista, contribuíram para esse crescimento, mas referiremos apenas o exemplo de Charles-Nicolas Cochin (1715-1790), desenhador e gravador, como um dos casos mais proeminentes deste género. Cochin executou muitos destes pequenos perfis de inúmeras figuras da sociedade e da nobreza francesa, contribuindo em grande medida para a instituição deste estilo particular.75
Um dos motivos desta aceitação relaciona-se seguramente com a própria conotação da pose em perfil, numa postura clássica de rectidão moral tão ao gosto da época, conferindo alguma aura de dignidade ao retratado. Por outro lado, o seu cunho emblemático tornava este tipo de registo particularmente adequado para a sua produção em múltiplos, sendo que a grande maioria dos desenhos eram usualmente transferidos para chapas de cobre para serem gravados e difundidos nas séries desejadas para figurarem em frontispícios e ex-líbris de livros ou como retratos em jeito de cartão de visita. Mas a singularidade deste tipo de registo apoia-se sobretudo na percepção de que o recorte fisionómico do perfil do retratado capta de forma mais eficaz e instantânea a sua individualidade, sendo por isso mais facilmente reconhecível. Trata-se, portanto, aqui sobretudo de um argumento de credibilidade e validação. Dir-se-ia que a sua função prioritária não apontaria tanto para a tipologia do retrato artístico, mas antes para a da representação descritiva, funcionando como uma reprodução icónica com um elevado carácter de factualidade. Esta ideia prende-se com a percepção de que a
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Cochin foi uma personalidade influente no panorama das artes em França: trabalhou para o Rei Louis XV desde 1737 e estava encarregue das gravuras comemorativas de todos os casamentos, nascimentos e funerais da corte; foi nomeado membro da academia (1751) e conservador dos desenhos do rei (1752); ilustrou mais de duzentos livros. Cochin realizou centenas de retratos de perfil em pequenos medalhões, organizados em séries compostas por desenhos de figuras da academia, da sociedade civil e militar ou da aristocracia, que depois eram gravadas, não necessariamente por ele. Tanto a sua posição, quanto os seus escritos sobre arte influenciavam os ditames do gosto oficial do regime e certamente que contribuiu para a recuperação e estabelecimento deste sub-género de retrato.
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F i g. 2 3 — Medal hõe s c om re tr at os d e pe r fi l de Cha rl es- Ni col as Coc hi n : 1 e 2- Q ua tro ret ra to s de se nho res e nve rga ndo traj e s cl ás si co s , ca . 17 60; 3 - Re tra to d o con de Cha rl e s de Bro ss es ; 4- R et ra to de u m O fi ci al , 17 68 .xxiii
F i g. 24 — O g éne ro popul ar do s r et ra to s d e p er fi l q ue e mer gi u no sé c. XV I II , ex ecu ta dos de for ma mui to el e men ta r e e xpedi ta , co nhe ci do s p ri mei r o e m Ingl at er ra por “ shad ow s” e d epoi s mai s ta rde e m F ra nça p or “ si l hou et te s” .xxiv
linha de um perfil é quase sempre suficiente para sintetizar com grande verosimilhança as marcas distintivas do rosto de uma pessoa; como se a impressão do perfil fisionómico que retemos de alguém fosse mais facilmente identificável quando concordante com os traços do seu contorno desenhado. Além disso, constituía uma modalidade de representação com grande economia de meios e relativamente menos complexa que um retrato em posição frontal ou a três quartos. A difusão deste género de retrato, de características bastante
113 normalizadas, acabou inevitavelmente por estender a sua influência para expressões culturais mais prosaicas, nomeadamente na tradição das silhuetas que assimilariam a sua continuidade. A moda das silhouette — retratos em perfil, usualmente executadas em recorte de papel escuro contra fundo branco, à maneira das sombras (“shadows” era, aliás, a expressão adoptada em Inglaterra para designar estes pequenos retratos) — tornou-se numa modalidade de retrato bastante popular nesta época, já que constituía uma alternativa económica às dispendiosas versões pictóricas.76 A sua simplicidade e rapidez de execução, a possibilidade de se reproduzirem várias cópias recortadas e o seu modesto preço, apresentava-se, pois, como uma opção acessível em relação ao chamado retrato artístico.