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Part 2. Analysis

4 Analysing Narratives

4.3.7 Comparing Projections

Pensar o patrimônio histórico como elemento mnemônico pressupõe observar, mesmo que sucintamente, o conceito contemporâneo de memória. Na transição para o século XX, com os estudos de Henri Bergson e Émile Durkhein, que a memória alcançará o estatuto de uma construção coletiva, definição consolidada especialmente por Maurice Halbwachs com seus quadros sociais de memória322

. Em linhas gerais, o

conceito de memória proposto por Halbwachs é primordial para a

compreensão do conceito de memória social, que pondera sobre três aspectos: 1) o ato de lembrar ou esquecer é determinado pelo coletivo, não pelo indivíduo; 2) a memória, mais que lembrança do passado, é elemento central na construção identitária do grupo; 3) a memória possui tanto uma base imaterial como um fundamento material.

Segundo Wehling e Wehling (1997), será Pierre Nora é quem introduzirá na historiografia o conceito de memória coletiva. Na acepção desse autor, na ausência de memória efetiva — considerando as transformações da modernidade que dissolveram as relações tradicionais — somente sobraria espaço para resquícios do passado, devidamente

eleitos, que não seriam em si memória, mas lugares de memória.

Compreendidos como um conjunto de práticas, de símbolos, de espaços físicos e de registros documentais que, conquanto remetam ao passado, criteriosamente selecionados e introduzidos no presente com o fim específico de nortear nossa observação sobre o que passou. Ou seja, embora o objeto ou o prédio — ou qualquer outra coisa que possa se

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transformar num lugar de memória — tenha pertencido objetivamente ao passado, sua escolha para ser um representante do mesmo é efetuada no presente e, por conseguinte, ele responderá aos interesses e conflitos coevos à sua escolha, não à sua produção.

Mais que simplesmente sua relevância por antiguidade, o que define lugar de memória é a importância que ele assume como um ponto de contato entre a coletividade e o passado e, mais propriamente, entre uma parte da coletividade e uma parte do passado. Como explica Pollack,323

lembrar é, essencialmente, esquecer. Logo, nem todo o passado deve ser lembrado. Será evocado aquilo que for conveniente a um grupo específico que, de algum modo, consiga controlar o processo de definição de uma memória oficial que, em tese, exista para representar a memória do todo.

Dois pontos relevantes emergem dessas observações. O primeiro diz respeito à definição dos grupos encarregados do processo de seleção do que deve ser lembrado e do que deve ser esquecido. O segundo se relaciona àquilo ausente da seleção elaborada pelos grupos em apreço, mas que, por algum motivo, permanece como memória viva, mesmo que extra- oficial, em uma comunidade. Estes pontos são delicados, pois, no limite, como sugere Chauí,324

todos são memoriosos e memorialistas, mas, poucos têm direito à conquista tangível da memória.

É da luta constante entre o que deve ser lembrado e o que deve ser esquecido, e da pressão dos grupos definidores do embate, que emerge o patrimônio histórico em uma comunidade. Preservar o patrimônio histórico, nesse sentido, é eleger uma parte específica do passado como a síntese da história da comunidade. Dar materialidade a um lembrar que remete a um grupo específico dentre outros. O problema se agrava, verticalmente, se o patrimônio histórico de uma comunidade deixa de ser um prédio ou um

323 POLLACK, 1989. 324 CHAUÍ, 1992.

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objeto ou um documento, apenas, para ser, na verdade, boa parte do espaço público vivenciado por essa comunidade. Em outras palavras, em uma cidade histórica boa parte da urbe é controlada pela perspectiva de sua preservação — a preservação da memória da parte da comunidade que a construiu e que pretende, com isso, preservar sua memória como a memória do conjunto daquela sociedade.

Contudo, na medida em que a cidade cresce — que o seu centro se expande e que novos bairros aparecem — não apenas outras memórias se produzem, bem como novos agentes são incorporados à realidade. Há, aqui, dois problemas que se relacionam. Em primeiro lugar, a inserção desses novos agentes àquela memória ideal é delicada por que, no limite, ele pertence a uma realidade outra que não à daquele patrimônio histórico. Em segundo lugar, por não compartilhar diretamente daquela memória, a relação desse agente com a ossatura dessa memória também é frágil. Ou seja, na dificuldade em se identificar como sua uma memória, o sujeito não tem, em tese, razão para preservá-la. Este é um problema que se agrava, radicalmente, em cidades históricas que, ao lado de seu centro-patrimônio, vêem a emergência de uma grande quantidade de habitantes em suas periferias.

Diferentemente das famílias estabelecidas e tradicionais, na maioria das vezes ligadas ao centro histórico, esses habitantes recorrem às cidades, oriundos de pequenos núcleos rurais ou urbanos. Assim, resguarda-se um profundo paradoxo: os defensores do patrimônio histórico lutam pela manutenção absoluta do passado, ao passo que a periferia sonha, constantemente, com progresso material, com crescimento econômico, mesmo que o preço a ser pago seja, no limite, o sacrifício do patrimônio.

Como um espaço de representação política de uma comunidade, uma Câmara municipal de vereadores é um local privilegiado para esse tipo de embate. Por congregar diferentes parcelas da população representadas

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por seus vereadores, por ter seu quadro freqüentemente renovado e por ter como tarefa primordial a normatização do espaço público e da coletividade a ela relacionada, a Câmara de vereadores coloca, frente a frente, todos os elementos desse problema. Analisar, portanto, como a questão do patrimônio foi interpretada, por mais de um século, pela Câmara Municipal de Mariana, é uma excelente possibilidade para perceber tanto as formas de definição dos grupos a influir numa política pública de preservação do patrimônio histórico bem como o posicionamento daqueles que esperam da cidade, algo além do seu patrimônio.