5. Comparative and theoretical perspectives
5.2 Comparative perspectives
Visando caracterizar a estruturação do embasamento da região do baixo Indaiá, foram gerados, primeiramente, mapas de anomalia gravimétrica (free-air e Bouguer) para toda a Bacia do São Francisco. Uma vez caracterizado o cenário regional, passou-se ao estudo das feições locais.
Para a confecção dos mapas gravimétricos, foram utilizados os dados de anomalia free-air e topográficos, obtidos por satélite (TOPEX/POSEIDON) e disponíveis em ftp://topex.ucsd.edu/pub/. Embora se trate de informações obtidas por satélite, os dados utilizados exibem uma excelente resolução para análises de caráter regional e sub-regional. A metodologia empregada no tratamento dos dados é apresentada no Capítulo 1.3.
O Cráton do São Francisco como um todo se caracteriza por anomalias gravimétricas variáveis entre -33 e -115 mGal e é, em grande parte, delimitado por anomalias gravimétricas do Tipo II de Haraly & Hasui (1985) (Fig. 4.1). Tais anomalias correspondem aos pontos de inflexão na curva gravimétrica
Bouguer, entre os domínios de anomalia gravimétrica mínima (faixas Brasília e Araçuaí) e os domínios de anomalia intermediária (cráton) (Fig. 4.2-a e b).
Figura 4.1 Mapa de Anomalia Bouguer com a interpretação das principais anomalias do Cráton do São Francisco
(Cruz & Alkmim 2006) e as respectivas conformações gravimétricas destacadas na Tabela 4.1. São destacadas ainda feições gravimétricas relacionadas às faixas margiais e bacias faneorozóicas adjacentes ao cráton.
Com base na sua expressão gravimétrica, o Cráton do São Francisco pode ser dividido em três setores C1, C2 e C3 (Fig. 4.1). As principais anomalias de cada um destes setores estão discriminadas na Tabela 4.1.
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Figura 4.2 Perfis gravimétricos ao longo do Cráton do São Francisco e faixas dobradas adjacentes (a e b)
comparados com modelo esquemático de uma colisão de placas tectônicas e anomalia gravimétrica associada (c). Este último modificado de Fountain & Salisbury 1981 (in Oliver 1983). Localização dos perfis (a e b) na Figura 4.1.
Tabela 4.1 Principais anomalias gravimétricas observadas ao longo do Cráton do São Francisco (ver Fig. 4.1).
SETOR C1
SETOR C2
SETOR C3
Alto de Sete Lagoas-Belo Horizonte Alto de Três Marias
Alto de Patrocínio Baixo de Pirapora Baixo de Presidente Olegário
Baixo de Luz
Alto de Januária Baixo do Rio Preto
Baixo de Unaí
Baixo do Paramirim
Baixo da Chapada Diamantina-Irecê
O setor C1 exibe, predominantemente, lineamentos/alinhamentos variáveis entre NW e NE, localmente orientados em torno de E-W. Ocorrem pequenos picos anômalos com valores máximos próximos a -70mGal, geralmente separados por baixos que exibem anomalias menores que -80mGal.
No setor C2, passam a predominar valores superiores a -80mGal e os lineamentos/alinhamentos em torno da direção E-W tornam-se mais expressivos. Por outro lado, o setor C3 exibe lineamentos predominantemente orientados segundo NW, sendo marcado por um grande baixo anômalo de orientação similar e limitado a leste por setor de anomalia mais elevada (> 70mGal).
Quando comparados com os dados de superfície (e.g.: Lagoeiro 1990, Danderfer Fº 1990, Alkmim
et al. 1993 e Campos & Dardenne 1997) e subsuperfície (e.g.: Zalán & Romeiro-Silva 2007 e Coelho 2007), tal assinatura gravimétrica parece refletir, em grande parte, altos e baixos do embasamento cratônico (Fig. 4.1).
Sob o ponto de vista tectônico é possível destacar, ao longo da Bacia do São Francisco (Martins- Neto & Alkmim 2001), anomalias gravimétricas relativas, pelo menos, a três fases distintas. A primeira corresponde aos sistemas Espinhaço-Araí/Macaúbas-Paranoá (e correlatos), sendo responsável, entre outros, pelo desenvolvimento dos baixos do Paramirim, Chapada Diamantina-Irecê e Pirapora (Tabela 4.1). Dados sísmicos mostram para este último um relativo aumento na espessura de tais seqüências (Coelho 2007, Zalán & Romeiro-Silva 2007). Geradas anteriormente às orogêneses brasilianas, tais estruturas parecem ter desempenhado importante papel na propagação da deformação ao longo das coberturas cratônicas. Isso explicaria tanto a grande saliência definida pelo Sistema Espinhaço no setor sudeste do cráton, quanto geometrias similares observadas ao longo do Aulacógeno do Paramirim (Alkmim et al. 1993, Souza Fº 1995, Alkmim & Martins-Neto 2001, Cruz & Alkmim 2006).
As flexuras neoproterozóicas, desenvolvidas sobre as margens do Cráton do São Francisco com a edificação dos orógenos brasilianos adjacentes (e.g.: Valeriano et al. 2004, Pimentel et al. 2004, Pedrosa- Soares et al. 2007), são evidenciadas por pequenos baixos gravimétricos de borda (Fig. 4.2). É possível perceber que, quando comparadas, a anomalia desenvolvida na porção oeste mostra-se mais proeminente que sua contraparte a leste. Aparentemente, esta diferença reflete uma influência mais significativa da carga tectônica imposta pela Faixa Brasília na deformação do antepaís. Dados de superfície, poços e linhas sísmicas mostram o aumento de espessura das unidades neoproterozóicas do Grupo Bambuí, especialmente marcado em direção à borda oeste da bacia (Dardenne 1981, Chiavegatto 1992, Fugita & Clark Fº 2001, Zalán & Romeiro-Silva 2007, Coelho 2007).
Rearranjos crustais fanerozóicos obliteraram parcialmente estas assinaturas gravimétricas e deram origem a novas estruturas, como é caso da Sub-Bacia Areado (Campos & Dardenne 1997, Sgarbi et al. 2001), cuja espessura alcança valores da ordem de 300m sobre o Baixo de Presidente Olegário. A colocação dos corpos alcalinos-carbonatíticos-fosforíticos dos complexos Serra Negra e Salitre (Marchão
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et al. 2008) representa importante fator de alteração da assinatura gravimétrica da Bacia do São Francisco no Cretáceo Superior. Sua destacada anomalia Bouguer em relação aos demais complexos de idade similar (Fig. 4.2-a) pode sugerir uma importante ascensão mantélica local.
O mapa de anomalia Bouguer confeccionado para a área estudada mostra lineamentos e alinhamentos preferencialmente orientados segundo NE e NW (Fig. 4.3). Relacionam-se a valores gravimétricos entre -105 e -70 mGal, eventualmente alcançando termos inferiores a -115 mGal.
A pronunciada anomalia gravimétrica (valores entre -90 e -75 mGal) observada ao longo de toda a região de Três Marias aparentemente corresponde a um grande um alto do embasamento (Fig. 4.3 ). A borda oeste desta feição orienta-se na direção N-S, em sua porção meridional, e passa a NE, em seu setor setentrional. O seu limite nordeste é feito com o Baixo Gravimétrico de Pirapora (Fig. 4.1), orientado segundo NW e interpretado por Alkmim et al. (2007) como parte de um sistema rifte fóssil, o Aulacógeno Pirapora.
Fazendo-se a superposição do mapa geológico com o mapa Bouguer da Figura 4.3, observa-se que o limite ocidental da grande anomalia positiva de Três Marias coincide com o traço meridional da Falha de João Pinheiro, sugerindo relação entre esta estrutura e estruturas profundas do embasamento.