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2.3 Design requirements

2.3.3 Common requirements

No Sumaré II, algumas pessoas participam “voluntariamente” das mobi- lizações organizadas pelo MST (como marchas, caminhadas, trabalho de base e ocupações). Dona Edith, a quem já fi zemos referência, disse não ser militante do MST, mas participa das atividades por sentir uma dívida para com o Movimento, nas palavras dela, um compromisso, pois “ajudaram a gente a pegar essa terra”. Ela não participou do último trabalho de base feito em Sumaré, mas participou, ao longo de vinte anos, de várias passeatas e marchas, a última delas uma marcha para Brasília, na qual foi acompanhada da fi lha. Ela explica: “O MST mandou um ônibus e pediu para a gente ir dois de cada família... e assim fomos... eles [o MST] não obrigam a gente a participar, mas a gente tem esse compromisso”.

Dona Malvina, também assentada do Sumaré II, explica que ela não participa mais dessas atividades fora do assentamento, mas sim seu fi lho: “Quando falam que tem que ir um da família para passeatas e essas coisas, é meu fi lho que vai, e antes era meu marido que ia”. Mas, segundo ela, sempre há alguém que cumpre com esse compromisso.

Dona Iolanda conta que, apesar de ser moradora de um assentamento do MST, não é militante, mas participa das atividades, pois ela e sua fa- mília tiveram muita ajuda do Movimento para ter o que têm. Para ela, sua participação torna-se um elemento da troca com o MST, uma retribuição.

Dona Cida considera-se parte do MST – no sentido de ser militante – e, como tal, sente o compromisso de ajudar. Conta que cumpria seus com- promissos “levando outros para a terra”, o que signifi cava fazer trabalho de base e participar junto com seus convidados nas ocupações de terra; ela cobrava a participação de outros assentados e os colocava numa posição de devedores para com o Movimento, dizendo: “Aqueles que já são assentados, têm um dever, têm que continuar na luta pela reforma agrária e, para isso, o trabalho de base é importantíssimo”.

No trabalho de base em Sumaré, ela havia convidado seu Cena e seu Brauná, conhecidos de longa data, para fazerem parte do Terra Sem Ma- les. Em várias de minhas estadas no assentamento os encontrei na casa de dona Cida, de visita, pois haviam passado pelos bairros onde moravam, na mesma cidade de Sumaré, para fazer trabalho de base. Eles comentavam

8 Marcel Mauss (1988) menciona que toda troca está contida em um sistema de prestações

Lutas camponesas contemporâneas: condições, dilemas e conquistas

que faziam esse trabalho cumprindo suas obrigações, mas também por se sentirem comprometidos, não com o MST, mas sim com dona Cida, que foi quem os convidou para fazer ocupação. Essa razão era apontada também por outros acampados do Terra Sem Males que visitavam seus conhecidos no assentamento. Aliás, entre outras coisas, esse compromisso que sentiam impedia-os de mudar ou desistir do acampamento.

Brenneisen (2003) relata como alguns acampados, num contexto de con- fl ito dentro do acampamento, tomaram o partido das lideranças (militantes) por se sentirem comprometidos com uma liderança regional do MST, que os havia selecionado para participar da ocupação. Essa autora menciona que esse compromisso se traduz como lealdade. No acampamento Terra Sem Males, essa lealdade ou compromisso também é dirigida aos que fazem o convite.

Zé Antonio, acampado do Terra Sem Males, se considera militante do MST e é “velho” na arte de ocupar terras, faz mais de quinze anos que “acompanha o movimento”. Ele sentia-se orgulhoso de que nenhum dos que ele tinha convidado “tinha desistido da luta”, o que signifi ca que nenhum deles tinha deixado o acampamento.

Vivaldo foi convidado por Zé Antonio para “ir pro Terra Sem Males”; eles eram vizinhos na cidade de Limeira. Ele fi cou desempregado e encontrou com o Zé quando este, cumprindo com suas obrigações, fazia trabalho de base nessa cidade. Vivaldo contou que já fazia vários meses que estava de- baixo da lona e que estava sendo muito difícil agüentar, uma vez que estava acampando sem a família e dormindo num barracão com vários homens, mas não queria desistir porque, além de ter poucas opções de trabalho na cidade, se sentia comprometido com Zé; ele tinha negociado a entrada de Vivaldo com os coordenadores do acampamento e, logo depois, tinha conseguido cesta básica. Assim, sua estada e participação das atividades do acampamento era uma forma de retribuir a Zé Antonio, de cumprir com os compromissos.

Esse caso ilustra aquilo que o MST chama de “frente de massa”, e que Lopes (2002, p.290) defi ne como “inúmeros militantes que se deslocam pelo interior do país e arregimentam famílias de posseiros, moradores em periferias das cidades, núcleos rurais etc.”. Essa prática, como já vimos, é tra- duzida pelas redes sociais das quais os acampados fazem parte e, portanto:

Prevalece [e ao meu modo de ver é fundamental] o que costumamos chamar de “boca a boca”: alguém que soube do acampamento conta para outro que, por sua vez, passa adiante, até alcançar a família ou os indivíduos ou os grupos que se dispõem a arriscar alguma possibilidade junto ao Movimento. (Lopes, 2002, p.290)

Dona Maria, também acampada no Terra Sem Males, tem uma irmã assentada em Sorocaba, no assentamento Carlos Lamarca. Faz tempo que

Para além da barraca de lona preta

conhece o Movimento – na Bahia, tinha participado de outros acampamen- tos e saído por razões pessoais, uma delas, o término do seu casamento. Vendo como sua irmã estava tão bem, decidiu “voltar para o movimento”. Sua irmã a animou, mas também ela diz sentir um compromisso, não só

com o MST, mas com os sem-terra.9 Ela explicou: “A gente tem uma obri-

gação, sim, de ajudar no acampamento. Por exemplo, fazer arrecadação, participar do almoxarifado, da farmácia, ajudar, né? Mas a gente tem esse compromisso de ajudar os outros, os sem-terra”.

As obrigações para os acampados e assentados parecem ter um signi- fi cado mais concreto, e se traduzem nas atividades do dia-a-dia no acam- pamento e no assentamento, por exemplo: arrecadar alimentos, participar das reuniões, fazer trabalho de base, fazer ocupação, marchas. No entanto, essas obrigações fazem parte dos compromissos, que adquirem um sentido mais geral e abstrato; e estão inseridos numa dinâmica de obrigatoriedade e reciprocidade, de uma troca com o MST, ou ainda com uma pessoa em particular, no caso, o compadre, vizinho, amigo ou parente que fez o convite. José de Souza Martins (2003), que foi organizador de um trabalho comparativo de cinco estudos de caso em assentamentos rurais no Brasil, menciona que:

Em todos os casos estudados, as pesquisadoras observaram a importância tanto da rede de parentesco na mobilização, na luta e no modo de inserção nos assentamentos, como da rede de parentesco simbólico, de lealdades comunais e de solidariedades antigas, baseadas em deveres de reciprocidade e de troca de favores. (2003, p.19)

Essa lógica das obrigações e compromissos permite-nos entender, então, a própria lógica das ocupações. Atores, que cumprem certas obrigações e compromissos, mobilizam outros atores conectados entre si. Assim, a ocupação adquire forma de uma grande espiral. Um assentamento sempre está conectado com um acampamento e, por sua vez, um acampamento sempre terá um vínculo com outro, em formação ou já formado.