3.2 Digital implementation
3.2.1 System services
3.2.1.1 Clock management
Os indivíduos que decidem participar das chamadas reuniões da terra, e depois de uma ocupação, o fazem tendo diversas motivações. Aqueles que participam pela primeira vez têm a expectativa de conseguir “um pedaço de terra” que, na maioria dos casos, signifi ca aspirar a uma vida melhor, a ser autônomo e, sobretudo, a não ter patrão. Para muitos outros, participar de uma ocupação e depois fi car nos acampamentos é uma saída a curto prazo para a situação de desemprego e precariedade na qual se encontram, é uma alternativa de subsistência. Mas, como menciona Sigaud (2005, p.266), todos eles compartilham uma crença: “A lona preta passa a fazer parte do repertório das possibilidades de ‘melhorar de vida’... Quando um indivíduo passa a fazer parte de uma ocupação, crê e aposta nas possibilidades da lona preta”.
Outros participantes das ocupações, principalmente os militantes do MST, vão por outros motivos: “para apoiar o movimento”, o que, confor- me os próprios atores, signifi ca, por um lado, “fazer a massa” e, por outro, “apoiar a própria organização do acampamento”. Os militantes, junto com aqueles que não se consideram parte da militância do movimento, mas que já fazem parte de algum assentamento ou acampamento, participam cum- prindo com uma série de compromissos e obrigações que têm ou sentem para com o MST, principalmente para com o amigo, vizinho, parente ou compadre que os convidou para participar pela primeira vez da ocupação. O preâmbulo das ocupações, ou seja, o trabalho de base e as reuniões da terra se sustentam em redes sociais, de amizade, de parentesco ou de vizinhança, que, com a circulação de informações entre “velhos” e “novos” acampados sobre a experiência da ocupação, são fundamentais para que as pessoas participem e a ocupação aconteça.
O conceito de redes sociais é de grande utilidade analítica, pois permite entender, abarcar e apreender o movimento dos indivíduos envolvidos. Desse modo, retomando a afi rmação de Carvalho (2002), é provável que um dos “segredos íntimos” do sucesso e da capacidade organizativa e de mobilização da organização dos trabalhadores rurais sem terra seja a sua capacidade de “constituir-se como um tipo de sociedade em rede” (2002, p.44), em que as relações interpessoais, os laços de vizinhança e amizade preexistentes tornam possível a espiral das ocupações de terras. Destarte, podemos argumentar que não só os indivíduos que participam das ocupa- ções dependem dos movimentos, nesse caso do MST, para serem candidatos à reforma agrária, mas também o movimento, para existir, depende desses indivíduos. Existem, portanto, relações de dependência recíproca.
Contudo, o próprio sustento econômico e social dos acampamentos também depende das redes sociais e da circulação do que os acampados chamam de ajudas. Esses espaços – os acampamentos – confi guram-se
Para além da barraca de lona preta
como um lugar de troca onde se fortifi cam os laços sociais de parentesco, vizinhança e amizade, e onde outros se criam e se recriam, formando no- vas redes sociais. Embora as relações sociais estabelecidas dentro desses espaços não sejam diferentes daquelas que se dão nos bairros e periferias de origem dos acampados, nos acampamentos essas relações adquirem uma especifi cidade, uma cor local.
Algumas das trocas envolvem o que os acampados e assentados cha- mam de bicos e ajudas. Os bicos são, muitas vezes, trabalhos eventuais realizados dentro ou fora do acampamento e que podem ou não ter um pagamento em dinheiro. As ajudas que os acampados recebem dependem da solidez das redes sociais que se estendem para além do acampamento e, especifi camente, do compromisso que os assentados sentem de ajudar os acampados que convidaram para fazer ocupação. Assim, essas ajudas entre assentados e acampados e dentro dos próprios acampamentos são diversas e fl uídas dependendo do que se troca, com quem e em quais cir- cunstâncias. As trocas e contatos dos acampados com o “povo da cidade” também ajudam sua subsistência dentro dos acampamentos e criam novas relações além de suas fronteiras.
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4
A “FORMA
MOVIMENTO” COMO
MODELO
CONTEMPORÂNEO
DE
AÇÃO
COLETIVA
RURAL
NO BRASIL
Marcelo Rosa
INTRODUÇÃO
E
ste trabalho procura analisar o processo pelo qual uma formaespecífi ca de confl ito, enunciado nas formas de movimento e ocupação, foi se estabelecendo em diversas áreas do país como uma maneira legítima de relação entre agentes do Estado e grupos organizados que demandam
sua atenção.1 Para isso, parte-se da exposição de quatro contextos ou casos
cronologicamente dispostos ao longo dos últimos quinze anos, nos quais essas duas formas de ação social foram utilizadas.
O primeiro caso é o da chegada (em 1989) do MST à região da Zona da Mata de Pernambuco, lugar marcado pela hegemônica representação dos trabalhadores rurais pela Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado de Pernambuco (Fetape).
O segundo, também na mesma região, mas já no início do ano 2000, recupera o processo pelo qual a CPT afi rma-se como um movimento atuante nas ocupações de terras a partir de pressões do INCRA.
O terceiro caso é de um movimento criado por um grupo dissidente do MST, em Pernambuco, que tinha como bandeira inicial a não-realização de acampamentos e ocupações de terra.
O quarto e último narra a formação do Movimento dos Trabalhadores Desempregados (MTD), no Rio de Janeiro, no ano de 2004. Embora se trate
1 Corroboro aqui o ponto de vista de Borges (2004), de que sociologicamente o Estado só se
faz presente na vida cotidiana das pessoas como governo e não como uma abstração presente nas teorias das ciências sociais. Abstrações que, na maioria dos casos, têm servido de esteio etnocêntrico para disputas em torno de um modelo ideal (ou típico-ideal) de sociedade.
A “forma movimento” como modelo...
de um caso alheio ao contexto rural, temos neste último episódio a mobi- lização dos elementos simbólicos que constituem o que chamo de forma
movimento, a partir das refl exões de Sigaud (2000) sobre acampamentos e
ocupações.
A concatenação dessas experiências visa lançar luz sobre as formas e ações que têm sido utilizadas para se iniciar processos específi cos de confl ito de grupos rurais com o Estado. O estudo comparado dessas gêneses, a um só tempo dissonantes e complementares, é fundamental para um debate sobre o momento e as formas necessárias ao reconhecimento desse tipo de ações sociais como confl itos.