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Os bicos podem ter diversos signifi cados, uma vez que fazê-los não com- preende apenas os trabalhos eventuais dentro do acampamento, mas tam- bém aqueles trabalhos intermitentes que um acampado realiza fora dos limites do acampamento, principalmente na cidade mais próxima.

Ângela, junto com outros acampados, “cata papelão em Polvilho” e o vende lá mesmo, na cidade. Ela explica: “Tem dias que junto bastante e dá para vendê-lo... com isso compro alguma misturinha... é uma ajuda”. Dona Cleusa e seu Alfredo mudaram para um acampamento perto da cidade de Birigui, na região de Andradina. Eles deixaram de receber por um tempo o dinheiro da aposentadoria dele. Dona Cleusa comentou que, durante um mês, tiveram que “fazer uns bicos catando tomate” em uma plantação próxima ao acampamento e tiveram que tirar o fi lho [caçula] da escola para que também ajudasse.

Seu Chicão parece estar em contato contínuo com indivíduos que moram na cidade de Polvilho, e estabeleceu o que chama de “bons contatos”. Ele sabe curar com ervas e, além de atender o “povo do acampamento”, sempre tem clientes da cidade que pagam por seus serviços. Segundo ele: “Cobrando para os de fora [do acampamento] R$ 5,00 (cinco reais) a consulta... dá... já é uma ajuda”. Ana, moradora da periferia de Polvilho e que encontrei várias vezes na barraca de seu Chicão, mencionou que o que ele cobrava por uma consulta era muito mais barato do que um médico na cidade e, além disso, “gostava de bater papo com ele”.

Fazer esse tipo de bico não é próprio só dos acampamentos. No assen- tamento de Sumaré II, os moradores, principalmente quando não é época de plantar, procuram atividades alternativas fora da área do assentamento.

Lutas camponesas contemporâneas: condições, dilemas e conquistas

Dona Iolanda, por exemplo, aceitou trabalhar fazendo faxina em um prédio em Campinas. Ela explicava: “Isso já é uma ajuda para mim, meus fi lhos todos trabalham... e como agora a roça não está dando e o das folhas já terminou [a temporada], é bom fazer esse biquinho”.

Esse tipo de trabalho eventual, realizado fora das fronteiras do assen- tamento, é chamado pelos moradores do Sumaré II de “bico” ou “ajuda”. Garcia (1983) menciona que, entre pequenos produtores de Pernambuco, o trabalho dos fi lhos e das mulheres na unidade de produção familiar “aparece como gratuito, como uma ajuda que é prestada ao pai” (1983, p.102). Já no assentamento, embora também exista a categoria ajuda, não diz respeito a todo trabalho realizado por mulheres e fi lhos.

No assentamento, algumas mulheres realizam um trabalho coletivo secando folhas de mandioca que, depois, vendem para uma comunidade

de freiras em Campinas.12 As folhas são coletadas nos próprios terrenos

das trabalhadoras, levadas para um barracão, que fi ca ao lado da casa de Edith e Iolanda, separadas e penduradas por dois ou três dias até secarem. Depois são colocadas numa peneira grande e amassadas com as mãos até virarem pó. Cada 50 gramas de pó de folha de mandioca é vendido por R$ 0,50. Essa atividade, para Edith e Iolanda, é um trabalho, já que é realizado dentro das fronteiras do assentamento. Consideram-no algo permanente, apesar de ser sazonal.

Dona Malvina e dona Marina têm uma banca de frutas e legumes na entrada do assentamento, que atende às pessoas que passam pela estrada. Esse tipo de atividade não é denominado “bico”, mas “trabalho” ou “ser- viço” porque, apesar da venda dos produtos dar-se para clientes de fora do assentamento – geralmente pessoas dos bairros e cidades próximas – a atividade ainda é realizada dentro do assentamento e implica não uma atividade temporária, mas permanente. Esse também é o caso de Penha, para quem a atividade de “catar goiaba”, no mesmo assentamento, é um trabalho. Joan Vincent (1987) acertadamente coloca que indivíduos, no interior do que ela chama de “sociedade agrária”, estão sempre envolvidos em inúmeras ocupações, entre elas, o trabalho na roça, serviços itinerantes, trabalho artesanal não especializado e serviços domésticos.

Mas não existe apenas um tipo de troca individual entre acampado e assentado com o “povo da cidade”, também há trocas do conjunto dos sem-terra, principalmente por meio dos acampamentos.

Alguns dos acampamentos, pelo menos na região de Campinas e São Paulo, são instalados a pouca distância das cidades. No caso do Terra Sem Males e do Irmã Alberta, estão ao lado da cidade de Polvilho. Segundo os depoimentos de vários acampados, “foi muito o apoio do povo da cidade”.

12 Segundo versões das assentadas, as freiras mantêm uma espécie de comedor comunitário

Para além da barraca de lona preta

Alguns mencionavam que quando realizaram a ocupação, não só foram manifestações de apoio com gritos, mas também alguns receberam “até comida do povo da cidade”. Antes de ser feita a ocupação, existia um lixão naquele lugar. Os acampados contam que, ao chegarem lá, tiveram que limpar o lugar de todo tipo de coisas. Alguns comerciantes da periferia da cidade de Polvilho também comentavam que o terreno era “lixão de corpos”: sempre tinha briga nessa parte da cidade e, muitas vezes, assas-

sinatos, e os cadáveres terminavam sendo jogados lá.13 Em depoimentos

colhidos de maneira informal com habitantes de Polvilho, eles quase sempre demonstravam uma simpatia pelo fato de os acampamentos estarem no lugar do lixão. O dono de uma lanchonete deixava explícito esse apoio e comentava:

Para a gente foi melhor... aquele lugar era um ninho de bandidos, sempre dava briga e a gente já escutava que estava tendo um negócio lá [faz sinal de arma] e não dava para passar por aquele lugar... agora esse pessoal está lá... plantando, não mexem com a gente, pelo contrário, é mais negócio para nós, o pessoal [dos acampamentos] sempre vem por aqui... [sic].

Com a instalação de um acampamento num espaço considerado pelos habitantes daquele lugar como “problemático”, os acampados possibilitam a sua revitalização, por meio do plantio de hortas e instalação de famílias. Assim, o movimento espera em troca o apoio da população do lugar. Isso faz parte das estratégias do MST. Não é à toa que “a beleza” seja um dos valores fundamentais socializados pelo MST entre os acampados. No pró- prio texto do MST, “A vez dos valores”, isso é explicitado: A beleza deve ser, para nós, um valor fundamental, pois desde os primórdios ela é símbolo do bem-estar. As áreas da reforma agrária são geralmente devastadas, antes de serem desapropriadas, pela ganância dos latifundiários. Se quisermos, poderemos reproduzir as fl orestas. (Bogo, 1998, p.9)

No acampamento, por exemplo, os militantes insistem em manter sem- pre o barraco limpo, plantar fl ores e hortas, e quando sabem que chegará visita para conhecer o acampamento, geralmente é formada uma comissão para ajudar a limpar com a fi nalidade, como disse a coordenadora do acam- pamento, de “que vejam o acampamento bonito e limpo”.

Alguns autores (Woortmann, 1997; Paoliello, 1998; Tedesco, 1999; Bren- neisen, 2003) têm chamado a atenção sobre o signifi cado que pode ter o fato de limpar e mexer na terra como um ato legitimador da posse pelo trabalho.

13 Uma militante do acampamento relatou-me que poucos meses após a ocupação em Cajamar,

dois militantes do Terra Sem Males foram detidos pela polícia, pois encontraram, perto do acampamento, o corpo de um jovem da cidade. Horas depois foram postos em liberdade, tendo sido comprovada sua inocência.

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