2. CRITICAL LITERATURE REVIEW
2.13 C USTOMER NEEDS
A construção da imagem de si ocorre durante a produção do ato de fala. Assim, nas situações do cotidiano, como uma conversa entre o professor e um aluno, uma entrevista de trabalho, as relações de sedução e os comícios de candidatos políticos, há a construção de uma apresentação de si, que o locutor desempenha como verdadeira em seu discurso. Conhecido como ethos tal apresentação de si do locutor desempenha um papel, que procura influenciar o seu locutário, segundo Aristóteles comportando-se por um lado, com virtudes morais que procurem transmitir credibilidade ao orador de acordo com os seus propósitos e, por outro lado, com a dimensão social, ou seja, a adequação de seu caráter desenvolvido pelas suas virtudes ao tipo social (bom marido, político honesto, etc). Assim, é necessário ao orador apresentar uma imagem de si para o seu auditório de forma a manter um processo de raciocínio, argumentação (logos) que está condizente com o seu caráter, ou seja, “[...] apresentando-se competente, sincero em relação ao seu discurso com o objetivo de tentar suscitar em seu auditório um conjunto de emoções (pathos).” (DASCAL, 2005, p. 57).
As ciências da linguagem a partir dessa compreensão de Aristóteles sobre a construção da imagem de si, no discurso, deram continuação à discussão sobre a arte de
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persuadir. Os estudos sobre o discurso possibilitaram a continuação dessa problemática. Assim, teorias como a Análise do Discurso Francesa, Pragmática e Análise Crítica do Discurso levantam reflexões sobre o tema. O estudo a partir dessa trilogia aristotélica (ethos-logos- pathos) possibilitou à linguística o desenvolvimento das marcas enunciativas do processo interativo entre o locutor e o alocutário.
Na Pragmática, cada ato de fala, para Austin e Searle (1990), promove uma ação com o objetivo de persuadir o seu interlocutor a partir de atos de fala ilocucionários, proferidos em situações de fala que permitem a realização do ato por aqueles que podem proferi-lo, pois estão capacitados socialmente para isso (condições de felicidade). Assim, a persuasão é promovida com a intenção do ato ilocucionário em conduzir os atos ou convencer o interlocutor sobre o que pretende (ato perlocucionário). Perelman (2004) revisita essa concepção aristotélica, acrescenta o estilo e o discurso e deixa de lado o ethos, inaugurando o que ele intitula a nova retórica com uma percepção lógico-cognitiva.
A partir da concepção da Análise do Discurso Francesa é revista a percepção do
ethos na perspectiva de Maingueneau (1997), uma vez que possibilita refletir sobre a aceitação dos sujeitos a certo posicionamento discursivo (MAINGUENEAU, 1997). Assim, desempenha os papéis de sua escolha em função do que pretende produzir sobre o seu auditório. Isso, porém, não ocorre de acordo com o que o sujeito pretende, mas através do que a formação discursiva determina como coerente para a imagem desse sujeito.
O autor define que o ethos é construído a partir de um ethos pré-discursivo e um ethos discursivo. O enunciador a quem Maingueneau (2005) chama de fiador deve legitimar o seu dizer em seu discurso, atribuindo uma posição institucional em uma relação com o saber através de um modo de se expressar. A formação desse ethos está relacionada a um tom que expressa um caráter e uma corporalidade do fiador desse discurso. A corporalidade está relacionada a uma representação do enunciador como integrante de uma formação discursiva, enquanto que o caráter significa os traços psicológicos atribuídos ao enunciador em função do seu modo de dizer. Está relacionado, diretamente, aos estereótipos vigentes na cultura ao qual se relaciona (MAINGUENEAU, 1997). O ethos pré-discursivo ou prévio forma-se a partir das representações que se inserem na prática discursiva, segundo o autor, “[...] a imagem prévia que o auditório pode ter do orador, ou pelo menos, a ideia que ele faz do modo como seus
alocutores o percebem.” (CHARAUDEAU; MAINGUENEAU, 2004, p. 221). O ethos
discursivo é aquele que se manifesta no discurso e é subdividido em ethos dito e ethos
mostrado. O primeiro está relacionado às cenas enunciativas, as marcas da enunciação que indicam a referência direta ao enunciador (e não ao fiador), cenas validadas numa relação
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dialética com o ethos mostrado pode confirmar o ethos pré-discursivo. O segundo indica tudo o que se explicita no discurso sobre a imagem desse fiador. O autor, entretanto, afirma que não é possível estabelecer uma fronteira entre o ‘dito’ sugerido e o ‘mostrado’ não visto (MAINGUENEAU, 2005).
Goffman também analisa a construção da máscara e a representação de si que o sujeito faz no discurso, com a sua teoria sobre representação social. Segundo Goffman (2002), essa representação traz a ideia de que o sujeito se organiza em cada situação nos processos de interação ao qual é confrontado. No cotidiano, o indivíduo torna-se múltiplo e frágil, pois varia de acordo com as submissões aos padrões sociais exigidos em cada interação. A sua imagem está constantemente colocada em questão diante de diversos grupos sociais em que a ordem pública julga os indivíduos ou os grupos em que ele se coloca em questão.
O sujeito apresentado em questão é visto por Goffman (2002) como ator da ordem social, representa uma imagem de si no discurso de maneira a convencer os outros do papel representado está de acordo com as regras da ordem social pré-estabelecida com tamanha sinceridade, será esquecida pela sociedade, trata-se de uma representação. A representação é formada pela fachada que corresponde ao equipamento expressivo padronizado é empregado durante a representação e pelo cenário.
A fachada compreende os equipamentos que acompanham o ator da representação como, por exemplo, as maneiras de falar e as mímicas. Ela pode ser dividida em aparência e maneira. A primeira significa o status social do ator, ou seja, se ele está empenhado em uma atividade social; a segunda, os estímulos que funcionam para informar no momento sobre o papel da interação, o ator espera desempenhar na situação que se aproxima.
Existem além da fachada algumas características de como a representação do ator se apresenta. A dramatização desta representação nos textos é importante para o convencimento do seu papel para o auditório social. Trata-se de pequenos gestos, incorporação de signos, de atitudes que fazem com que o ator torne o mais natural possível sua representação. A idealização é outro ponto pensado por Goffman (2002) para verificar a influência do outro sobre a produção do ator durante a representação do seu papel social. A coerência da expressão também é necessária ao convencimento da representação do ator, pois a atitude pode nos fazer perder a credibilidade se ela não estiver em harmonia com o que é dito. A representação, entretanto, pode ser fraudulenta com intencionalidade por diversos objetivos, como a autoproteção ou a maldade. A realização e a simulação do desempenho do ator social, em diversas situações, levam a uma representação sincera e honesta ou uma representação mentirosa. A realização pode não ser considerada por todos, como sincera e honesta, no caso,
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por exemplo, da representação dos comediantes. Ela é considerada mentirosa, mas com intencionalidade. No caso dos assaltantes, a realização do ator social é vista como sincera e não fraudulenta.
Na análise inicial dos dados, observamos que as mulheres, que escrevem os relatos no fórum e as mulheres, que narram os fatos vividos durante a escrita do boletim de ocorrência, assumem uma representação de si, de acordo com Goffmam (2002), como vítima do relacionamento. Isso está diretamente associado ao poder, que se estabelece em toda relação humana, segundo Foucault (2010), e que é desejado pelos integrantes da relação. Iremos apresentar a seguir, a proposta de categoria de situação de Bertaux (2010) e sua perspectiva de análise etnossociológica em histórias de vida.