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1. INTRODUCTION

1.1 B ACKGROUND OF STUDIES

“Minha destruição permanente abre a porta para a criação constante. Se não há um fim, não há começo” (JODOROWSKY; COSTA, 2004, p. 230).48

Mais uma vez me encontro na encruzilhada, esvaziado, tentando dar forma à investigação apresentada nessa dissertação. Dessa vez, perguntando-me em que ponto finalizar e como finalizar. Pergunto-me se há de fato um fim a ser identificado nessa pesquisa, que encontra na morte o seu ponto de partida. Compartilhando essa sensação vivida nos momentos de transição identificados como começos e fins, trago a afirmação de Alejandro Jodorowsky e Marianne Costa (2004) em seu livro La Vía del Tarot, no momento em que eles discutem o Arcano XIII, comumente conhecido como A Morte, tratando-o como uma carta que carrega uma influência liminar. Proponho, então, ser essa carta de tarot o início do fim da escrita desta dissertação.

Nas minhas leituras de Tarot, quando o Arcano XIII aparece, ele aponta um momento de transição correspondente à situação sobre a qual o jogo ─ leitura ─ é tratado. No entanto, essa carta implica-se de forma diferente da roda da fortuna e do oito de paus, em que o movimento transitório se coloca de forma mais neutra, ou seja, não apontando transição no sentido de transformação, elas confirmam um fluxo que está sendo seguido, a roda do destino sendo rodada: “O Arcano XIII não tem nome [...]. Esta carta convida uma limpeza radical do passado, uma revolução que está nas profundidades não-verbais ou pré-verbais do ser, na sombra desse terreno obscuro, desse desconhecido para nós mesmos” (JODOROWSKY; COSTA, 2004, p. 225).49

O Arcano XIII propõe uma transformação que parte do perecimento de si, enquanto indivíduo constituído, para que emerja ─ nessa revolução ─ uma percepção de corpo não constituído, não instituído, não conhecido. Nas edições mais tradicionais do tarot, esse arcano se apresenta como um esqueleto segurando uma foice, caminhando por um campo com ossos e partes de corpos humanos. Vejo, nesse esqueleto segurando uma foice, Saturno-

48 “Mi destrucción permanente abre la vía a la creación constante. Si no hay fin, no hay comienzo.” (JODOROWSKY; COSTA, 2004, p. 230).

49 “El Arcano XIII no tiene nombre [...] Esta carta invita a una limpieza radical del pasado, a una revolución que se sitúa en las profundidades no-verbales o preverbales del ser, en la sombra de ese terreno negro, de ese desconocido por nosotros mismos” (JODOROWSKY; COSTA, 2004, p. 225).

Cronos, divindade greco-romana, senhor do tempo e devorador dos seus próprios filhos. Como referido nos antigos hinos órficos, ele “em si contém todas as coisas e em si as devora” (TAYLOR, 2014, p. 55). Ainda como aponta André Chastel (1946, p. 132), em “Le mythe de

Saturne dans la Renaissance italienne”, “Saturno aparece como senhor de revoluções por

meio de eventos catastróficos”50. No movimento do Arcano XIII, vejo a revolução de Saturno com a sua foice, dilacerando a individualidade, fazendo emergir o desconhecido que existe no corpo. Assim, o golpe ceifador de Saturno provoca uma aproximação com o próprio corpo através da percepção da morte como um acontecimento não estático.

Ao ressaltar aqui o Arcano XIII como o arcano sem nome, mais uma vez, aproximo a minha percepção da morte relacionada à bruxaria, por sua vez conhecida como a arte sem nome. Tratando da dinâmica performativa da bruxaria, componho na pesquisa uma ideia de corpo como encontro e partida de caminhos, uma encruzilhada que emerge na minha caminhada até o limite em que a individualidade inscrita no meu corpo é desestabilizada, perecendo e, simultaneamente, abrindo-me para outras possibilidades de corpo. É nesse sentido que discuto as silhuetas de Ana Mendieta: rastros que surgem da dissolução provocada pelo encontro de matérias ─ humano, terra, água, fogo, fumaça, velas, flores, pedras. Nesse encontro se dá a morte da percepção de corpos puros, pois todos, ao se cruzarem, contaminam-se uns com os outros, compondo rastros como materialidade do que é da ordem da invisibilidade. É no movimento de desmanche de corpos que as silhuetas possibilitam a percepção do invisível. Ao mesmo tempo, é no desaparecimento ─ no seu processo de invisibilização ─ que elas existem.

A noção de existência de corpo relacionada ao seu sentido de perda, permeia também a performance na qual a mesma artista, ao sacrificar um galo, deixa-se ser manchada pelo sangue do animal. A percepção da morte do corpo sacrificado é apresentada como uma ação de esvaziamento do corpo e de perecimento. A poética da morte mobilizada nessa

performance ritual se dá como transbordamento de si, viabilizado por uma experiência

extática de desindividualização do seu próprio corpo. Uma experiência de desindividualização é também o que Tania Bruguera vivencia em The Burden of Guilt. Ao comer a terra na qual estão sepultados os seus ancestrais, a artista traz para a sua carne a morte e, sobretudo, os mortos, fazendo do seu corpo matéria de resistência diante da violência colonial que perpetua crimes contra povos originários e seus modos de olhar e interpretar o mundo. O sentido de

50 “Saturne apparaît comme maître de révolutions à travers des événements catastrophiques”

(CHASTEL, 1946, p. 132).

resistir, então, transforma-se como experiência de sucumbir e re-existir de outra forma, como terra.

Todos esses cruzamentos que compõem a escrita sobre essas três obras reverberam no processo criativo de Ossuário. A não desvinculação entre a experiência da criação artística e da escrita da dissertação é relevante para perceber essa pesquisa como um acontecimento múltiplo. Aqui, tomo como referência uma passagem de Deleuze e Parnet (1988), em “O Abecedário de Gilles Deleuze”, em que ele fala sobre uma conversa entre Jung e Freud, na qual Jung relata um sonho em que ele caminhava em um ossuário: “Um ossuário são centenas de ossos, são mil, dez mil ossos. Pois… isso é uma multiplicidade, um agenciamento, etc.: passeio em um ossuário, bem, o que quer dizer isso? Por onde passa o desejo? Em um agenciamento, se trata sempre de um coletivo.” (DELEUZE; PARNET, 1988, p. 33)51

Tendo como desejo inicial uma performance de dança com ossos, a primeira etapa se dá na coleta dos ossos. A coleta de ossos, por sua vez, desdobra-se em uma série de imersões que transforma uma necessidade do âmbito da produção em uma vivência estética crucial para a sua percepção enquanto processo artístico. Enterrar, desenterrar, limpar, carregar ossos de animais mortos entre os estados do Piauí e do Ceará é uma experiência que marca um dos múltiplos acontecimentos que se apresentam como Ossuário. A relação do corpo com o lugar por onde passamos com os ossos e a própria relação com os ossos nas ações de enterrar, desenterrar e limpar e carregar se apresenta enquanto momento que compõe a experiência artística. Toda essa parte do processo reverbera também na forma de apresentação da performance de dança, em que eu , Diogo, os ossos e todo o público compartilhamos um mesmo espaço de proximidade.

Na primeira temporada de apresentação, em agosto de 2016, antes de cada seção, um monte formado de cartas de tarot viradas de costas é espalhado em uma mesa, para que cada uma das pessoas que chegam para ver o trabalho escolha e tome para si intuitivamente uma carta. Trata-se de um baralho formado por cartas que apresentam apenas o Arcano XIII. Assim, todas as pessoas presentes para Ossuário conectam-se partindo de uma sorte em comum. Tal sorte, no entanto, não se refere a um futuro, e sim a um presente ─ o estar no Ossuário. Todos estão imersos nos ossos, vivendo nessa performance uma experiência

51 “Un osario son cien huesos, mil huesos, diez mil huesos. Pues... eso es una multiplicidad, un agenciamiento, etc.: me paseo por un osario, bueno, ¿qué quiere decir eso ? ¿Qué es aquello por donde pasa el deseo? En un agenciamiento, se trata siempre de un colectivo.” (DELEUZE, PARNET, 1988, p. 33).

coletiva de perecimento. Cada um segurando o arcano que anuncia o presente: a morte como revolução de desarticulação individual.

No decorrer dessa pesquisa, a experiência do corpo na performance como uma ação de morte não é abordada como um acontecimento final. O corpo, aqui, é percebido como uma encruzilhada. Como disse anteriormente, uma encruzilhada é o encontro e a partida de caminhos. Por isso que trago para esse momento o Arcano XIII, uma carta que fala sobre a encruzilhada, sobre a transição materializada na revolução de cada corpo. Dessa forma, ao apresentar essa dissertação, assumo que os pensamentos aqui cruzados não se fecham nem se resolvem em sua própria escrita e leitura. Desfaço as últimas páginas desses escritos como um fim: “Para caminhar para um fim, um fim que se desvia todo o tempo de sua própria finalidade, voltemos ao princípio e lá/aqui, no princípio, novamente perguntas serão encontradas.” (ROCHA, 2016, p. 23).

Tudo o que aqui é escrito se decompõe em um movimento de morte como o movimento de saturno atravessando tudo e todos com sua foice. E são nos buracos feitos pela sua foice que a bruxaria e a performance são vivenciadas como arte que faz do diferente o possível. A morte nunca indica um caminho de retorno para o mesmo lugar, porque esse mesmo lugar já não existe. Mesmo compreendendo a vida como ciclos de vidas, a morte não aparece como marcação de um ciclo vicioso. Algo sempre se perde, dissolve-se, de forma a abrir o corpo como uma encruzilhada da qual vários caminhos são possíveis de serem seguidos e em que outras encruzilhadas são formadas.

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