Os textos encontrados no fórum Casos e Testemunhos relatam casos de violência considerando que há um “pacto” de sinceridade entre as participantes. Isto quer dizer que a relatora demonstra para os seus interlocutores, que os fatos vividos são realmente verdadeiros. A sinceridade defendida pela narradora indica detalhes sobre os fatos vividos como, por exemplo, nome de pessoas envolvidas, número do processo, descrição do local ou de instituições envolvidas. Mesmo que não seja verdadeiro, ou seja, uma criação ou exagero da relatora, o uso destes argumentos no texto legitima a veracidade dos fatos. No relato 3, por exemplo, a autora indica os locais, onde andou após o parto: “andei da Barra a Jacarepaguá
onde moro atualmente”. No relato 11, por exemplo, a autora diz a data em que foi expulsa de
casa com a mãe e os irmãos pelo pai: “Estamos na casa de uma vizinha desde o dia 29/07/2011”. No relato 7, a descrição do local “em frente a minha casa”, a marcação de tempo
“outubro de 2008 e me casei dia 4 de dezembro de 2009”, “neste carnaval” indica que a autora
assume os fatos vividos como verdadeiros, pois localiza-os e legitima-os no tempo e no espaço.
Nos relatos encontrados no fórum virtual Casos e Testemunhos, há o engajamento da relatora em demonstrar uma “[...] máscara que pode ser sincera disso ou não, diante de um grupo particular de observadores” (GOFFMAN, 2002, p. 29). Nesse sentido, há o reconhecimento do fato de que está desempenhando um papel social que conhecemos: a vítima de violência doméstica. Podemos observar, sobre estes assuntos o relato 7 abaixo:
Olá estou com meu marido desde outubro de 2008 e me casei dia 4 de dezembro de 2009, estou casada com ele até hoje, nunca o trai nem o desrespeitei, mas ele não evita usar palavroes contra mim, manda eu me fuder, ir a merda, ja me chamou de piranha em frente minha casa enquanto nao moravamos juntos, e esse ano depois de casados neste carnaval discutimos sobre uma peça de roupa que eu vesti para ele e ele disse que ficava melhor na irma dele do que em mim eu fiquei ofendida e então discutimos ele colocou a roupa em um saco e deitou junto a ela eu tentava falar com ele e ele fingia estar dormindo, então tentei pegar a roupa foi quando ele virou a mão em meu rosto eu fiquei estatica e perguntei se ele sabia o q tinha feito ele falou sim e fez um movimento como se apenas tivesse me dado um empurraozinho e eu não foi assim que vc fez e demostrei para ele
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como ele tinha feito então ele socou minha cabeça, na hpra fiquei muito nervosa nunca pensei passar por isso com ele. Ele é um cara calmo e carinhoso comigo, só trabalha e estuda só de vez enquando que da umas vaciladas mas enfim confesso que a uns dias atras quando fui pegar uma mochila minha que estava nas maos dele tive a sensação que ele iria me bater novamente, então percebi que não tinha superado, ele não fez nada mas o medo talvez exista para sempre!
Há um engajamento público da autora ao tema do fórum: violência doméstica em que assume uma máscara de vítima torna-se parte integrante do indivíduo, ou seja, ela assume uma posição de vítima de violência mesmo que esteja acrescentando fatos ou omitindo outros. Esta máscara é aceita e esperada pela comunidade discursiva participante do fórum, pois a relatora assume para si um conjunto de elementos associados ao ideal de mulher: fidelidade
(“nunca o traiu”), compreensão (“só de vez em quando dá umas vaciladas”), amabilidade (“ele é um cara calmo e carinhoso comigo”), submissão (“ele não fez nada, mas talvez o medo persista para sempre”) podendo, assim, legitimar a posição de denunciadora, pois está
assumindo para si o estereótipo da mulher ideal comentado em Chodorow (1978), Oliveira (2004) e Giddens (1993).
Trata-se, segundo os autores, do modelo de mulher respeitável (fiel, compreensiva, amável, submissa) que se contrapõe com o modelo de mulher não-respeitável (oposto ao modelo de mulher respeitável). Os argumentos do modelo de mulher respeitável como os comentados acima são utilizados pela autora, para absolver a sua face da imagem de mulher não-respeitável, apesar de ser acusada deste estereótipo através dos insultos encontrados no
texto: “usar palavrões contra mim”, “manda eu me fuder”, “já me chamou de piranha” feitos
pelo parceiro.
Outros relatos indicam que a agressão não ocorre somente em uma relação de parceiros amorosos, mas pode se estender até os filhos. Nos relatos 11e 15, por exemplo, a filha é a relatora da violência doméstica e das agressões sofridas por ela, pelos irmãos e principalmente pela mãe que é acusada de ser infiel. Essa questão da exclusividade da sexualidade feminina é o ponto maior da distinção entre mulheres consideradas respeitáveis e mulheres não-respeitáveis. Segundo Giddens (1993), a violência contra a mulher está associada a formas de demonstração de poder em que o preservação da sexualidade feminina até o casamento era símbolo da mulher considerada respeitável (GIDDENS, 1993). As consideradas
causas de agressividade masculina são “justificadas” pelos agressores a partir da fidelidade
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No relato11 abaixo, verificamos que a agressão aos filhos do casal é uma extensão da agressão feita contra a mulher. O fato de o marido considerá-la como uma mulher, que tem um amante, é o suficiente para não deixá-la entrar em casa e agredi-la.
Tenho 18 anos, estou grávida de 4 meses, e sou vitima de agressões a muito tempo. Sempre morei com meu pai e minha mãe, e meu pai sempre foi um homem que nao nos agredia fisicamente, mas sim psicologicamente. Desde pequena lembro que minha família sofre muito com ele. Há 4 meses atras,a situação ficou pior. Minha mãe faz quimioterapia para se recuperar de um cancer há mais de um ano, meu pai alcoolatra, não tem emprego fixo. Tenho mais 3 irmãos de 20,14 e 13 anos. Dia desses quando minha mae voltava da quimioterapia e eu voltava do trabalho por volta das 7 da noite, meu pai estava com meus dois irmaos menores bebado, dizendo que minha mae estava na rua com um amante ,afirmando que ela nao iria entrar em casa. [...]
O modelo de masculinidade defendido pelos padrões tradicionais é associado ao que é forte, grande, dominante, ativo, viril em que a ideia de imposição pela força sobre o feminino é bastante valorizada. Essa posição é percebida nos relatos de situações vividas pelas mulheres através de insultos como “dizendo que minha mãe estava na rua com um amante” ou o uso da força para impor os seus desejos e vontades como, por exemplo, proibir a mulher de ficar em casa, como no relato 11: “ela não iria entrar em casa” ou através de expressões que indicam indignação por se sentirem injustiçadas, por exemplo, no relato 10: “Por que Queixa Crime, ação criminal, no caso de se tratar de violência doméstica tem que ser analisado em Juizado Especial, mesmo que especial criminal? Até nisso a aplicação da Lei Maria da Penha é
mais branda com os homens?”. Os valores defendidos pelo modelo tradicional de
masculinidade, segundo Oliveira (2004), trazem a ideia de uma figura de mulher-objeto, que se sujeita a figura do masculino por uma questão de complementariedade e submissão ao homem.
A mulher funcionaria como “[...] o agente que confirmaria a posse do falo do homem, portanto,
a sua não-castração.” (OLIVEIRA, 2004, p. 243). Assim, o falocentrismo explica, a partir da visão lacaniana, o posicionamento agressivo e humilhante para as mulheres.
Diante desta análise da representação de si nos relatos encontrados no fórum, podemos observar as seguintes partes desta representação: cenário e fachada, sendo esta subdividida em aparência e maneira.