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Segundo Pakesh113, cidadania hoje é um conceito muito menos

111 Lindgren Alves, 2001,p.302 112 Kymlicka,1995,p.173-181

143 homogêneo do que aquele pressuposto pelos teóricos políticos. Existe um reconhecimento de que uma democracia majoritária pode ignorar sistematicamente as vozes das minorias, na visão de Kymlicka. Nos casos em que as minorias estão geograficamente concentradas, os sistemas democráticos têm respondido com a delimitação de unidades federadas, de maneira a criar cadeiras para as minorias no parlamento, provenientes dessas unidades da federação em que as minorias se constituam em maioria. Os proponentes da representação especial simplesmente estendem essa lógica aos grupos não territoriais, que podem igualmente necessitar de representação (tais como minorias étnicas, mulheres, os deficientes). A prática familiar de definir regiões eleitorais de forma a assegurar representação de ―comunidades de interesses‖ não é uma ameaça à unidade nacional – ao contrário, é considerada uma forma de promover a participação cívica e a legitimidade política, segundo Kymlicka.

Da mesma forma, considera o autor, a maioria das reivindicações poliétnicas é evidência de que os membros dos grupos minoritários desejam participar da sociedade principal. Como o caso dos sikhs que queriam se juntar à real polícia montada do Canadá, mas, por causa da exigência de sua religião, que requer o uso do turbante, ficariam impossibilitados, caso não fossem isentados do uso do chapéu de abas largas, próprio do uniforme daquela corporação. Outro caso citado por Kymlicka, envolvendo a questão, é o dos judeus ortodoxos que, para ingressarem nas forças armadas americanas, necessitam de isenção quanto ao uso de quepes, por usarem solidéu, por força de sua religião. Muitos se opõem à concessão de tais isenções, por considerarem-nas um sinal de desrespeito aos ―símbolos nacionais‖. Porém, o fato dessas pessoas quererem fazer parte da força

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144 policial nacional ou das forças armadas é uma evidência ampla de seu desejo de participar e contribuir com a comunidade maior. Para ele, o direito especial requerido deve ser encarado como algo capaz de promover essa integração e não uma forma de desencorajá-la.

Algumas demandas por direitos poliétnicos, entretanto, Kymlicka admite, promovem o isolamento dos grupos, em relação à sociedade maior, algo que ocorre mais com seitas religiosas do que com grupos étnicos. Os amish e outras seitas cristãs tiveram isenções garantidas em questões relacionadas à integração (tais como serviço militar, educação obrigatória das crianças). Mas, para Kymlicka, tais ocorrências são atípicas, pois as isenções para grupos religiosos possuem origens e motivações muito diferentes das que são próprias das atuais políticas do ―multiculturalismo‖. As decisões de permitir a certos grupos que se isolassem da sociedade maior ocorreu há muitas décadas, quase sempre no início do século XX, em resposta às demandas dos cristãos e judeus brancos, tais como os amish, hutterites, quakers, e hassidistas. Já o ―multiculturalismo‖ como política oficial de governo teve início no final dos anos 1960 e 1970, no contexto de imigração de povos provenientes de países não cristãos e não brancos. Assim, as políticas diferenciadas para grupos que surgiram nessa época foram criadas com o propósito de acomodar esses novos grupos étnicos e religiosos, e não de separá- los da sociedade maior. E o caso dos sikhs na real polícia montada do Canadá é citado por Kymlicka como um bom exemplo de política dessa natureza, com o intuito de modificar as instituições da sociedade principal de modo a possibilitar que o grupo cultural sikh nela se integrasse, da maneira mais completa possível.

Kymlicka entende que muitos comentadores falharam em enxergar o impulso integrativo dos direitos poliétnicos, em parte, por preconceito contra os

145 novos imigrantes, a maioria deles não brancos e não cristãos. Quando foram concedidos direitos especiais aos grupos brancos cristãos e judeus, direitos esses que os isolaram da sociedade maior, poucas pessoas viram tais concessões como ameaças sérias à unidade ou estabilidade social. Já quando as acomodações ocorreram com os não brancos e com os grupos não cristãos, muitos criticaram a ―tribalização‖ da sociedade, e a perda da identidade comum, sem darem atenção ao fato de que tais medidas visavam à integração desses grupos. Com base nisso, Kymlicka considera ser difícil não concluir que muitas das reações violentas contra o ―multiculturalismo‖ partem de um medo racista ou xenófobo desses grupos imigrantes.

Há ainda uma concepção liberal de que as relações entre cidadania e integração, particularmente na Inglaterra, foram talhadas a partir da experiência da classe trabalhadora, que foi um exemplo de como os direitos do cidadão ajudaram a integrar, à cultura nacional comum, um grupo que antes não a integrava. Tal concepção era adotada por muitos liberais e socialistas, que acreditavam que esse modelo pudesse ser aplicado a outros grupos historicamente excluídos, independentemente das circunstâncias. T.H.Marshal114, por exemplo, seria um desses teóricos que consideravam a exclusão da classe trabalhadora britânica algo derivado de sua situação socioeconômica, o que poderia, então, ser revertido com a provisão de benefícios materiais via políticas do Welfare State. Baseado nos exemplos da classe trabalhadora britânica, Marshal desenvolveu uma teoria sobre a função integrativa dos direitos dos cidadãos. Ele acreditava que a promoção dos iguais direitos dos cidadãos ajudaria a promover a integração nacional para grupos excluídos. Tais direitos, segundo Marshal, gerariam um senso de pertencimento à

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146 comunidade baseado na lealdade a uma civilização que seria de todos.

Para Kymlicka, entretanto, a integração da classe trabalhadora não pode ser assim generalizada, pois há diversas maneiras de exclusão cultural que interagem com a cidadania comum de várias formas. A teoria de Marshal não funciona para imigrantes de culturas distintas ou para vários outros grupos impedidos de participar plenamente da cultura nacional, tais como negros, mulheres, minorias religiosas, gays, lésbicas. Alguns membros desses grupos ainda se sentem excluídos da ―cultura comum‖, apesar de cidadãos que, em princípio, possuem direitos conferidos pela cidadania. Eles se sentem excluídos não em virtude da posição socioeconômica, mas por causa de sua identidade sociocultural, por suas diferenças. Claro que os membros desses grupos são, na maioria das vezes, também desprovidos de condições materiais. Mas não é só essa a causa de sua exclusão cultural e, portanto, a concessão de benefícios materiais por si só não garantiria a inclusão de tais grupos na cultura comum , nem o desenvolvimento do senso de lealdade compartilhada a uma civilização comum.

Como a classe trabalhadora (mas diferentemente das minorias nacionais), esses grupos demandam inclusão na cultura nacional dominante. Mas diferentemente da classe trabalhadora, os direitos diferenciados de grupos são necessários para que eles se sintam aceitos pela comunidade, e experimentem a sensação de pertencerem à comunidade, com base na lealdade à civilização, como algo de todos, o que Marshal considera a base para a cidadania115. Kymlicka acredita que os direitos comuns de cidadania, originalmente definidos pelos e para os brancos, não portadores de necessidades especiais, cristãos, não podem acomodar as necessidades específicas desses grupos e, por isso, uma cidadania

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147 totalmente integrativa necessita levar essas diferenças em consideração.