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Em Barquero (2001a, p. 39), “[...] o território é um agente de transformação e não um mero suporte dos recursos e atividades econômicas [...]”. Este princípio considera o território como o lugar onde a comunidade humana desenvolve uma estrutura socioeconômica específica, que somente é possível naquele lugar e com os recursos socioculturais e ambientais nele disponíveis. As particularidades social, cultural e natural do território tornam- se variáveis importantes para a compreensão do processo de desenvolvimento. Essas peculiaridades são consideradas os vetores da eficiência dos aglomerados produtivos e explicam os arranjos institucionais que viabilizam a elevação da produtividade e a absorção dos seus ganhos.

Sergio Conti (2005), analisando a relação entre economia e território, percebe a interação entre cultura e economia como um processo de aprendizado coletivo que produz os diferenciais de competitividade do sistema produtivo local:

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[...] a proximidade geográfica tornaria possível combinarem-se externalidades econômicas (mercantis, para simplificar) com externalidades socioculturais (ou não- mercantis, tecnológicas). As primeiras, de natureza intencional, expressam-se por meio do mercado (ou o sistema jurídico-legal) e influenciam o preço dos fatores; as últimas, uma vez não-intencionais, expressam-se por meio de relações não- mercantis. Como causam impacto na eficácia dos fatores, as últimas ajudam a criar, [...], a capacidade institucional de atrair e motivar a vantagem competitiva, frequentemente pela promoção de práticas cooperativas entre os atores, que dá às regiões uma forte identidade conceitual e real (CONTI, 2005, p. 216).

A noção de território amplia-se para além dos limites da geografia física e incorpora os aspectos socioculturais, formando uma organização complexa entre a cultura, a sociedade e a natureza inerentes ao território. Essa complexidade cria as condições para a construção do conhecimento como fator locacional das unidades produtivas e vetor das vantagens competitivas na economia globalizada.

A abordagem territorial da mudança econômica tem permitido uma convergência entre Economia e Geografia sob a perspectiva evolucionária da inovação tecnológica associada às especificidades do território. Boschma e Lambooy (1994) realizaram estudos exploratórios, aplicando conceitos da Economia Evolucionária, tais como seleção, path

dependency, lock in espacial, oportunidade e retornos crescentes, em estratégias

compreensivas de tópicos especiais da Geografia Econômica. As questões centrais são as especificidades dos impactos do território sobre as variedades de mudanças tecnológicas e o modo como essas variedades de tecnológicas afetam o desenvolvimento territorial no longo prazo. Nesse sentido, aspectos como o aprendizado coletivo em contextos regionalizados, os ajustes locais em relação às crescentes variações mundiais, a formação espacial dos arranjos produtivos emergentes são variáveis de natureza evolucionária empregadas para explicar o desenvolvimento territorial.

Kirat e Lung (1999) analisaram as relações entre inovações tecnológicas e organizacionais e os territórios, considerando a mudança evolucionária como resultante do aprendizado orientado para a solução de problemas. Esses autores identificaram relações causais entre estas inovações e as interações entre processos de aprendizado, estruturas institucionais e padrões de atividades inovativas. Nessa abordagem, as estruturas e arranjos institucionais assumem grande importância, pois os sistemas inovativos estão associados às características da ação coletiva, os padrões de conduta, os sistemas cognitivos e a difusão do conhecimento no nível territorial. O aprendizado institucional e os fundamentos territoriais dos sistemas produtivos são categorias que associam as perspectivas territorial e evolucionária.

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Os elementos principais a serem considerados nesta perspectiva territorial são: i) as características socioculturais dos sistemas de produção territorializados; ii) a consistência associativa da participação comunitária na vida política local; iii) o capital social, enquanto fator crítico do desenvolvimento endógeno; iv) os sistemas de aprendizado e inovação; e v) as redes de organização e governança. Em conjunto, esses fatores podem explicar a formação dos hábitos, convenções e normas de comportamento desde os quais se articulam as redes de cooperação, os mercados locais integrados e o conhecimento empreendedor. Essa base institucional e cultural, ao viabilizar relações de confiança entre os colaboradores locais e reduzir as incertezas, condiciona o surgimento dos sistemas de aprendizado coletivo que produzem e difundem as inovações, que explicam a evolução do sistema.

Putnam (1996) analisou o caso da Terceira Itália a partir da noção de Civic

Traditions e percebeu a importância dos arranjos institucionais criados pelos atores locais na

explicação do desenvolvimento local. O autor zoneou a Itália em áreas mais e menos cívicas e revelou uma correlação entre nível de civismo – protagonismo dos atores – e a qualidade dos arranjos institucionais. Essa qualidade, verificou o autor, condiciona o desempenho institucional que seria a base sociocultural para o sucesso da economia local.

O desempenho institucional, contudo, possui um grau de dependência importante em relação à trajetória cultural e econômica. Em Putnam (1996), o nível de escolaridade e a tradição associativa são a causa do bom desempenho institucional, contudo, tais elementos foram constituídos através de uma trajetória de aprendizado no enfrentamento dos dilemas da ação coletiva. O percurso de aprendizado coletivo sobre a superação destes dilemas é determinante do nível de capital social de cada sociedade local. Obviamente, este aprendizado encontra-se condicionado pela formação sócio-histórica da comunidade e não pode ser determinado apenas pelos fatores endógenos. Enfim, pode-se inferir que a qualidade do capital social é função dos aspectos socioculturais locais com restrições dadas pela trajetória histórica da comunidade.

A dinâmica do sistema produtivo local é apresentada por Barquero (2001a) como dependente da interação entre os aspectos socioculturais e a dinâmica econômica. Nessa estrutura analítica: i) os aspectos socioculturais vinculados ao território constituem a base sobre a qual se sustenta a organização dos sistemas produtivos e, portanto, as chaves para entender as especificidades da evolução destes sistemas; ii) a capacidade empreendedora, os modelos de cooperação, os laços de parentesco, as relações contratuais, a ética do trabalho e as expectativas de mobilidade social são elementos socioculturais essenciais para a eficiência econômica dos sistemas produtivos, em termos de redução dos custos de transação e do

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aproveitamento das economias externas; iii) a eficiência dos sistemas produtivos, decorrente das economias externas e da redução dos custos de transação, é o vetor de integração da comunidade nos diversos planos do sistema econômico – municipal, estadual, nacional e global; iv) a eficiência econômica, por sua vez, contribui positivamente para a evolução do sistema sociocultural, ao elevar a produtividade do sistema e absorver os excedentes.

Assim, tem-se uma relação causal entre as unidades produtivas, o território e a cultura articulados num modelo no qual o território e o sistema sociocultural, integrados, são os vetores da dinâmica econômica local. A produção do excedente econômico e sua absorção local são funções das competências evolutivas que tais vetores propiciam aos atores sociais. Tais competências implicam na elevação da produtividade do sistema produtivo, na integração aos mercados dinâmicos e no poder de adaptação, através da construção do conhecimento e da inovação tecnológica, às injunções da economia global.

A TDE, na acepção de Barquero (2001a, p. 92), “[...] salienta que as formas de organização das empresas e do território têm um papel determinante nos processos de desenvolvimento”. A organização das empresas e suas relações com as demais são os elementos que, sendo a síntese dos aspectos socioculturais inerentes ao território, condicionam a sua evolução, isto é, sua capacidade de inovar em função dos desafios do mercado. Tal capacidade adaptativa é função do modo como estes elementos afetam o nível de flexibilidade e integração da organização.

Torna-se evidente a ênfase da TDE sobre a interdependência entre o ambiente institucional e a eficiência econômica nos seguintes aspectos: i) os sistemas produtivos eficientes encontram-se imersos em “territórios inteligentes”, cuja dinâmica estrutural permite um fluxo eficiente de informações e a colaboração entre as empresas, os mercados e os produtores de conhecimento, o que viabiliza a sua adaptação e o seu desenvolvimento através da difusão da inovação; ii) os aspectos sociais e institucionais facilitam a integração dos sistemas produtivos em redes – relações e contratos – diversificadas nas quais a sua flexibilidade é o fator principal de competitividade econômica, isto é, da sua capacidade de elevar a produtividade através da inovação tecnológica; iii) os fatores relativos à internalização da inovação tecnológica decorrem não somente da integração, mas da sinergia inerente à rede que viabiliza o aprendizado dos atores sociais e das organizações envolvidas; e, iv) a organização em rede coletiviza as decisões de investimento, otimizando o emprego dos recursos produtivos, viabilizando a difusão da tecnologia e reduzindo custos de transação e de oportunidade.

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Os aspectos geográficos e organizacionais são os condicionantes essenciais da eficiência econômica dos sistemas produtivos em territórios específicos. Estes aspectos influenciam a produtividade do sistema e a sua capacidade evolutiva através do aprendizado, da inovação tecnológica, da acumulação de excedentes e da distribuição social dos resultados das inovações. Assim, a TDE traz a possibilidade da sofisticação da análise interdisciplinar ao propor o território e seu ambiente institucional, cultural e econômico como unidades de análise, ampliando a compreensão das interações entre as dimensões sociocultural, institucional e ecossistêmica e a dinâmica econômica. O resultado é uma visão integrada e sistêmica da economia onde o foco do desenvolvimento são as virtudes e potencialidades do território.