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As Capitanias do Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba e Itamaracá eram administrativamente subordinadas a Pernambuco, em 1774. Portanto, suas informações foram, por um determinado período, relatadas em documentos oficiais relacionados a essa capitania.

Observando o trecho correspondente ao território da Capitania de Pernambuco na [Carta Geral do Brasil], chamada de Nova Lusitânia (figura 7), vemos um espaço praticamente vazio, especialmente na área correspondente ao sertão. Cotejando com informações provenientes de outras documentações da mesma época, pudemos perceber dinâmicas muito mais intensas, devendo ser este vazio bastante relativizado. Evidente que se tratava de núcleos populacionais modestos e em grande parte precários, mas a quantidade de ribeiras, fazendas, capelas, vilas, fogos e habitantes por freguesia, e seus rendimentos, era muito maior, o que revela um universo complexo vinculado à pecuária. Bueno e Kantor (2012)6 supõem que a lacuna de informações nesta parte do mapa

correspondente à Capitania de Pernambuco se deva ao fato dela só ter merecido mapeamento detalhado no século XIX.

6 Beatriz Piccolotto Siqueira Bueno e Íris Kantor. Na trama dos velhos mapas: o que revela a cartografia

sobre redes urbanas na América Portuguesa? Comunicação apresentada no IV Encontro Internacional de

Os “Rols de Desobriga” de 1763, 1765 e 1766 mostram um quadro bastante detalhado referente às diversas capitanias que compunham a de Pernambuco e um número expressivo de fazendas.

Ao todo, a Capitania do Ceará reunia, no último quartel do século XVIII, 972 fazendas. Não temos detalhes sobre as características desses estabelecimentos rurais, mas certamente eram muitos. Espacializamos os dados obtidos em bases cartográficas contemporâneas e georreferenciadas, o que nos permitiu entrever o território das várias Ribeiras e Freguesias relacionadas às respectivas fazendas de gado. Como se pode ver no mapa a seguir (figura 8), a Capitania do Siará Grande era dividida em quatro ribeiras: do Acaracú, do Seará, do Jaguaribe e de Icó.

A Ribeira do Acaracú naquele momento abrigava três portos, nos quais: “costumão vir huns annos

por outros vinte Barcos a carregar de Carnes secas, Couros e Páu Violete7, e fazem florente o seu Commercio, e tambem da Capitana do Piauhi, da qual se vem aqui muitos gados” (Idea [...] In:

ANNAES [...], 1923: 4).

A Freguesia de São Jozé dos Careris, situada na Ribeira do Icó, era a mais interiorizada e:

7 Planta endêmica da caatinga.

TABELA 11: CAPITANIA DO SEARÁ GRANDE - Ribeiras

RIBEIRA CIDADE VILA FAZENDA CAPELA FOGO HABITANTES

(*) FREGUEZIA DÍZIMO (**)

Seará 0 6 93 10 2.491 7.600

Freguezia da Fortaleza de Nossa Senhora d’Assumpção, Freguezia de São José da Ribeira dos Aquirás, Freguezia de Nossa Senhora dos Prazeres, Freguezia do Senhor Jesus dos Aflictos, Freguezia Nossa Senhora da Conceícão e Freguezia Nossa Senhora da Palma.*

1:120$000

Acaracú 0 2 325 13 3.404 11.220

Freguezia de S. Jozé da Macoqueira, Freguezia de Nossa Senhora da Conceição da destincta Villa do Sobral, Freguezia de Nossa Senhora da Conceição da Amontada, Freguezia de S. Gonçalo da Serra dos Cocos e Freguezia Nossa Senhora da Assumpção.**

3:330$000

Jaguaribe 0 1 240 6 1.253 5.449

Freguezia de Nossa Senhora do Rozario das Russas e Freguezia de Santo Antonio de Quexaramobim

2:929$000

Icó 0 2 314 12 2.583 9.912

Freguezia de Nossa Senhora da Espectação da Villa do Icó, Freguezia de Nossa Senhora do Carmo dos Inhamús, Freguezia de Nossa Senhora da Penha da Real Villa de Crato e Freguezia de S. Jozé dos Careris. ***

3:840$000

(*) Segundo os Rols da desobriga de 1763; 1765; ou 1766. (**) 1774.

* No resumo do relatório há um total de sete freguesias, porém, no mesmo, só há listadas seis freguesias. ** Mesmo caso acima, resume um total de seis freguesias mas só lista cinco.

*** Idem, relata quatro freguesias mas resume em cinco.

Idea da População da Capitania de Pernambuco, e das suas annexas, extenção de suas Costas, Rios, e povoações notaveis, Agricultura, numero de Engenhos, Contractos, e Rendimentos Reaes, augmento que estes tem tido &a &a desde o anno de 1774 em que tomou posse do Governo das mesmas capitanias o Governador e Capitam General Jozé Cezar de Menezes. In: ANNAES DA BIBLIOTHECA NACIONAL DO RIO DE JANEIRO. Rio de Janeiro: Officinas Graphicas da Bibliotheca Nacional, 1923. v. XL. p. 1 - 9.

Freguezia de S. Jozé dos Careris Freguezia de Nossa Senhora do Carmo dos Inhamúns Villa do Sobral

Villa da Viçoza Real

Freguezia de S. Gonçalo dos Cocos

Freguezia de Nossa Senhora da Conceição da Amontada

Villa de Soure

Villa do Aquiraz Villa d' Mecejana Villa de Arronches

VILLA DA FORTALEZA

Villa d' Monte Mor Novo

Villa de Santa Cruz do Aracati

Freguezia de Santo Antonio de Quexeramobim

Freguezia de Nossa Senhora do Rozario das Russas

Ribeira do Jaguaribe

Freguesia da Capitania do Ceará Vila da Capitania do Ceará

Drenagem

Abragência da ribeira

LEGENDA CAPITANIA DO CEARÁ E SUAS VIZINHAS

Construção da autora a partir do Relatório de 1774 (Idea [...] In: ANNAES [...], 1923: 19) sobre base georreferenciada do IBGE com sobreposição do relevo

(MIRANDA, E. E. de; (Coord.). Brasil em Relevo. Campinas: Embrapa Monitoramento por Satélite, 2005.

Disponível em: <http://www.relevobr.cnpm.embrapa.br>. Acesso em: 20 fev. 2012). Os caminhos do gado foram extraídos de ARRAES (2012), que espacializou essa rede de caminhos a partir de informações de Carlos Studart Filho, Capistrano de Abreu, Barbosa Lima Sobrinho, dos manuscritos das coleções Alberto Lamego e Projeto Resgate Barão de Castelo Branco.

Ferro da Freguesia de Acaraú Ferro da Freguesia de Fortaleza Ferro da Freguesia do Icó Ferro da Freguesia do Jaguaribe Limites atuais dos estados

Ribeira do Acaracu Ribeira do Seará Ribeira de Icó Oceano Atlântico Caminhos do gado 800 m 0 m Figura 8

“a mais fertil o [sic] amena de toda a Capitania; sustenta de farinhas, fructas, e rapaduras não só todas as Freguezias das suas vizinhanças, mas tambem de outros Certoens mais remotos vem combois grandes a prover-se destes generos, que fazem luzido o seu Commercio; tem oitenta e sette Engenhos de Meis e rapaduras nos quaes se faz tambem algum assucar, muito claro, posto que de pouco pezo[...]”. (Idea [...] In: ANNAES [...], 1923: 8).

“O terreno de Inhamuns, escrevia Amador Verissimo Aleteia, he mais seco e pedregoso, composto de pequenas serras, e alquebradas e que comtudo não deixão de produzir abundantes pastos, sendo os seus gados os mais proprios para fazerem longas viagens, e por isso são transportados quasi sempre para a Capitania da Bahia” (STUDART FILHO, 1937: 34).

“Os Inhamuns localizam-se nas cabeceiras do Jaguaribe ao norte da extremidade sudoeste do Ceará, e se estendem numa área cujos pontos extremos distam cerca de 133 km de leste a oeste por 153 km aproximadamente de norte a sul. A região está separada das áreas vizinhas por um conjunto de serras, a Joaninha e Guaribas ao norte, o Flamengo a leste, os Bastiões ao sul e a alta Serra Grande, servindo fronteira com o Piauí pela parte oeste. Os Inhamuns, com altitudes variando de 228 a 487 metros, é a área mais elevada do sertão do Ceará. [...] é uma terra quente, varrida pelo vento, semi-árida e sacrificada por um clima de chuvas escassas, que caem apenas nos meses de inverno que vão de janeiro a junho; mas às vezes isto pode não acontecer nesta época e raramente chove durante a outra metade do ano; em conseqüência disso, os rios secam e as pastagens verdes e outras plantas morrem, exceto as espécies afeitas àquelas mutações periódicas” (CHANDLER, 1980: 19 - 20).

Administrativamente, a Ribeira dos Inhamuns era dependente da Vila de Aquiraz desde 1700. Com a fundação da Vila de Icó, em 1738, passou a ser subalterna da mesma.8 Nos dados apresentados

nos “Rols de Desobriga” supracitado, percebemos que a Freguesia de Nossa Senhora do Carmo dos Inhamúns estava inscrita na jurisdição da Ribeira do Icó. Somente em 1802 foi elevada à condição de vila de São João do Príncipe.

O exemplo da Vila de São João do Príncipe, inicialmente Freguesia dos Inhamuns, demonstra a complexidade e as sobreposições de territórios e de circunscrições administrativas variadas.

“Como freguezia foi creada, sendo desmembrada da de Arneiroz por decreto de 17 de Agosto de 1832, da qual em 1837 foi desmembrada a de Flôres, e depois em 1850 supprimida e annexada outra vez á de Inhamum” (BRASIL, 1861: 77).

Grande parte da população da Ribeira dos Inhamuns vinculava-se à agricultura de subsistência. Poucos eram os fazendeiros donos de grandes glebas de terras e com um número elevado de gado em seus rebanhos, dada a baixa produtividade da pecuária em terrenos áridos. Tais fatores conduzem a uma discreta acumulação de riqueza, que irá refletir-se na cultura material ali produzida.

“Havia uma relação íntima nos Inhamuns da economia agrícola e a pecuária com os assuntos de mercado e comunicação. Até o fim das primeiras décadas do século XIX, o gado era vendido na Bahia e em Pernambuco [...] Os bois eram vendidos na idade de quatro a seis anos” (CLANDLER, 1980: 174).

“As mercadorias de procedencia estrangeira vindas do Aracati eram conduzidas em chiantes carros de bois até Icó, onde estacionavam por ser o caminho daí por diante intransitavel, mesmo a esse rustico meio de transporte terrestre. Entre Icó e os centro consumidores, a conducção dos generos era feira em lombo de cavallos, bestas e bois mansos, a isso adextrados” (STUDART FILHO, 1937: 28 - 29).

“O transporte de produtos agrícolas era muito mais difícil por causa da inexistência de boas estradas nos Inhamuns. Não há dúvida que havia comunicação entre o PIauí, Ipu, Crato, Icó, Fortaleza, Pernambuco e Bahia, desde os primórdios do século XVIII, mas era feita por meio de trilhas que não se prestavam, normalmente, para locomoção de qualquer espécie de veículo. Em conseqüência, todas as cargas nos Inhamuns eram transportadas por fortes e resistentes jericos. Caçuás de couro, presos às cangalhas, eram transportados nas costas desses animais. Tal meio de trnspote não favorecia à comercilização de produtos agrícolas. Além disso, os

8 CLANDLER, Billy Jaynes. Os Feitosas e o sertão dos Inhamuns: a história de uma família e uma comunidade no nordeste do Brasil (1700 - 1930). Rio de Janeiro; Fortaleza: Civilização brasileira; UFC, 1980.

Inhamuns ficavam distantes dos grandes centros de comercialização, o que muito dificultava a competição com outras áreas melhor localizadas. Não obstante essas dificuldades, os Inhamuns tinham, nos anos favoráveis, condições de exportar quantidades respeitáveis de fumo, milho, feijão, mandioca e cana-de-açúcar. Produzia-se também muita farinha de mandioca e rapadura. Tanto esses produtos como o milho, o feijão e o fumo, eram gêneros de primeira necessidade no nordeste, entretanto, nos Inhamuns, pelas dificuldades de transporte e comercialização, os produtos se destinavam apenas ao consumo local. O mesmo parece ter acontecido com o lgodão, que vinha sendo cultivado com êxito em outras regiões do Ceará, desde a década de 1700. O algodão era plantado nos Inhamuns em várias épocas do século XIX, e usavam máquinas para descaroçar algodão puxados por animais, mas segundo documentos da época, essa tentativa foi abandonada devido à dificuldade de transporte” (CLANDLER, 1980: 174 - 175)

Dispomos de dados sobre a arquitetura rural da Ribeira dos Inhamuns pela pesquisa de Maria do Carmo de Lima Bezerra, “Notas sobre as casas de fazenda dos Inhamuns”9. A autora diz que as

casas-sede das fazendas dos séculos XVIII e XIX indicam transição do uso de taipa para o tijolo, o que significa que no Setecentos predominou a taipa de mão com cobertura de duas águas, cujos exemplares desapareceram.

TABELA 12: CASAS DE FAZENDA DO SÉCULO XVIII NOS INHAMUNS