forsøksans fait torvbruk
52 BEMERKNINGER TIL REGN'SKAPET Bemerkninger til. regnskapet
Estadas e estradas; vivências e vagâncias; enim, do es- paço que envolve como partida àquele, por nós envolvido na trama dos diálogos inindáveis...Tudo isto é saber de saberes coletivos. Comunica a terra em uma graia cotidiana, em nada diferenciado da comunicação com a própria terra.
Uma geosoia da terra incógnita transforma as “geogra- ias de experiências pessoais” de David Lowenthal (HOLZER, 2005) em tramas de signiicação interpessoais e simultâneas. Todos os deslocamentos buscam ixações momentâneas e de efemeridade crescente. Neste jogo, que saberes não seriam ixos e luxos de espaços propriamente geográicos?
A ilosoia do não geográico nos inspira na construção do limite educacional e cultural que faria emergir um ele- mento patrimonial como questão epistêmica. Porém, antes de manifestar-se cientiicamente, como uma possibilidade meto- dológica sistematizada, tal elemento patrimonial funda-se de forma “elementar”, isto é, enraíza-se na continuidade das tra- dições que, na virada dos séculos XX para o XXI, como nunca tão intensamente, tornam-se mais do que inventadas tradições gestadas. A instrumentalização econômica e administrativa da modernidade, seguindo o raciocínio weberiano de interpre- tação das racionalidades vigentes, exigiu das entidades gover- namentais e não governamentais um acurado tratamento de supervisão no mundo das tradições. Não basta mais airmá-las e veicular essa ou aquela tradição pelo jogo da oralidade de um senso comum. É fundamental ancorar seu processo legislativo e contabilizar o peso (quantitativo e qualitativo) das institui- ções que irão proteger as tradições e, portanto, gestá-las como um Santo Graal da contemporaneidade.
No caso que exploraremos aqui, serão as Irmandades Canônicas, matriz e iliais da Virgem do Rocío que cumprirão o mais privilegiado papel de “portadoras do graal patrimonial”, alicerçando os saberes tradicionais da festa à Virgem. Forja-se então uma rede de colaboração – ainda que externe forte riva- lidade competitiva – entre tais irmandades, a im de converter a relação matriz/iliais em uma fraternidade moderna, plena e suprarregional. As irmandades mais antigas representam o eixo histórico modelador de uma rede societária, cuja tendência é manter o enraizamento local da devoção, ao mesmo tempo em que as experiências de associações culturais sejam promovidas a novas irmandades iliais. E neste plano gestor estruturante da rede, consideramos quatro irmandades – depois complemen- tadas por mais duas – aquelas que mais representam a fundação do processo. São elas: Almonte (a matriz), Morguer, Villaman- rique de La Condeza e Sanlúcar de Barrameda. Cada qual re- presentando também a expressividade regional das províncias de Huelva, Sevilha e Cádiz, respectivamente. E por extensão os quatro caminhos de travessia do Espaço Doñana até atingir seu coração paisagístico e simbólico, locado na Aldeia do Rocío, onde se localiza a tradicional Ermita à Virgem.
Na província de Huelva, a irmandade ilial do mesmo nome reforça o papel histórico da cidade de Morguer. Da mesma forma, a mais antiga irmandade de Sevilha, Triana (bairro tradicionalíssimo da capital andaluza), absorve o peso das representações que a irmandade de Villamanrique reivin- dica para si na história dessa devoção. Veremos melhor essa força de disputas e recomposições adiante. Até aqui, o que pre- tendemos reforçar é a luidez educativa que organizações, em princípio tão fechadas ao jogo secular da modernidade, conse- guiram estabelecer no desenvolvimento simbólico dos saberes
geográicos. Mas quais seriam os principais elementos demar- cadores desses saberes no Baixo Guadalquivir?
Saberes da caça e do extrativismo, na produção primária e sazonal. Saberes imitadores das inúmeras espécies migrató- rias, que “acampam” periodicamente em Doñana, traduzindo a estação espaço-conexão em estação tempo-viagem. São, também, saberes em marcha, interconectando os limites atlân- ticos de uma Andaluzia quase magrebina e quase portuguesa. E nunca totalmente mediterrânea ou castelhana. São paisagens culturais, cada vez mais patrimonializadas pelos ícones diretos da cavalgadura; de uma cavalaria que direcionou suas cruzadas para o extremo ocidente meridional. O sudoeste místico, re- presentado pela província de Huelva. E nesta primeira e última fronteira da Espanha, o desenho da paisagem cultural das con- quistas ibéricas.
Por essa razão, a visualização do espaço El Rocío/ Doñana, centraliza-se na Ermita da Virgem do “orvalho da manhã” – signiicado da palavra Rocío em castelhano – aqueles quatro caminhos de travessia do santuário natural, expressando todo complexo protegido dos parques natural e nacional. Desde 2007, as duas jurisdições são administradas conjuntamente conforme atesta o documento gráico editado pela Secretaria do Meio Ambiente do Governo de Anda- luzia, intitulada Paisajes de Andalucía: Paisajes del Guadal- quivir (CONSEJERÍA DE MEDIO AMBIENTE, 2009, slides de Huelva). A apresentação do Parque Doñana reforça a in- teração simbólica e existencial da devoção à Virgem, como forma de pleno reconhecimento socioambiental do papel desse ecossistema no vale do Guadalquivir. Um ecossistema costeiro complexo, de difícil ocupação permanente – dado as suas mudanças estacionais – e signiicativa polaridade polí-
tico-turística, se considerarmos a apropriação do Coto (re- serva) pela realeza espanhola, desde o século XIII.
Enim, pode-se airmar que os saberes geográicos fazem luir vivências e interesses dos quatro cantos cardiais (norte/sul/leste/oeste) em uma cartograia mística da polari- dade exercida pela comunidade municipal de Almonte e seu santuário de formas híbridas (tradicional/festivo/natural). Cartograia esta tão inusitada que, aceleradamente, pode en- frentar a cientiicidade racionalista dos projetos de educação modernistas de educação pública com a pós-modernidade das propostas ecléticas e intuitivas. Partindo do pressuposto de que uma força mística, por sua natureza inefável, possa ser compreendida, mas nunca plenamente explicada (SELL; BRÜSEKE, 2006), consideramos que a proposta do jogo re- ligioso-educativo, editado pela Prefeitura de Almonte (como veremos adiante) sintetize uma metodologia de ação política a ser potencializada em múltiplas propostas de Educação Pa- trimonial. Assim sendo, o entretenimento de tabuleiro Juego de Mesa Educativo Rociero (Figura 3) denota como o lúdico é apropriado pela tradição (o mítico-religioso das irmandades e comunidades festivas), ultrapassando, com oportunismo e sensibilidade, iniciativas curriculares da educação formal.
O jogo à venda na Oicina de Turismo do balneário de Matalascanhas, aponta, conforme já foi lembrado, que uma pedagogia rocieira atualiza a tradição pela acessibilidade do entretenimento ao conhecimento dos valores regionais. A possibilidade, portanto, de simular os saberes espaciais em um exercício lúdico sobre a experiência e a memória das ir- mandades, aproxima as novas gerações do compromisso de reconstruir santuários, como o da Virgem do Rocío os quais ultrapassam as tradições religiosas judaico-cristãs.
Figura 3 – Jogo Educativo sobre os Caminhos Rocieiros Fonte: Acervo do autor.